quinta-feira, 26 de março de 2009

[Battlestar Galactica] "Daybreak" - Take 2

Em outubro de 2004, vai ao ar pela primeira vez 33, o episódio que inicia a primeira temporada de Battlestar Galactica. A minisérie que precede a primeira temporada pode ter sido excelente, mas é em 33 que Battlestar Galactica mostra a que veio. O roteiro e atuações são impecáveis; os personagens se assemelham a pessoas reais, a ponto de acreditarmos que eles são mesmo os últimos sobreviventes da raça humana, em uma fuga desesperada dos cylons, em busca de um novo lar, em busca de uma esperança chamada Terra. 33 deixa claro que a jornada não será fácil.


As primeira e segunda temporadas da série são, sem dúvida, o ponto alto. Política (Colonial Day), direitos humanos (Bastille Day), paranóia (Litmus) e tortura (Flesh and Bone) são alguns dos assuntos tratados. Com exceção de Black Market, a segunda temporada mantém o nível da primeira e se mostra excelente tanto em episódios com maiores doses de ação, como Valley of Darkness, quanto em episódios voltados aos personagens, como Final Cut.


A terceira temporada, por outro lado, é de altos e baixos. Hero, The Woman King, A Day in the Life e Dirty Hands não fariam falta, caso não tivessem ido ao ar. Destacaria, obviamente, os episódios passados em New Caprica. Occupation e Precipice mostram um desconfortável paralelo à situação no Iraque, com os coloniais recorrendo a atentados suicidas como meio de resistência à ocupação. Crossroads encerra a temporada com o julgamento de Gaius Baltar, a revelação de 4 dos 5 cylons finais e o retorno da Starbuck. Foi um bom season finale, mas deixou a desejar, principalmente se comparado a Kobol's Last Gleaming e Lay Down Your Burdens, os dois finais de temporada anteriores.


A quarta temporada sofreu com a decisão de ser a final. Havia muito para contar e resolver. Foi preciso acelerar o ritmo da história, o que, junto com algumas más decisões tomadas pelos roteiristas, prejudicou alguns episódios e, principalmente, o final da série. A primeira metade da temporada termina com o fim de um longo sonho e a desilusão de muitos em Revelations. A segunda metade, após o fracassado golpe, foi, em maior parte, uma preparação para o final que estava por vir. Muitos reclamaram da falta de respostas e lentidão dos episódios mas, com exceção do péssimo Deadlock (com personagens mudando de personalidade e opinião de uma hora para outra a la mexicana), com os episódios que precederam o final não há grandes. Daybreak, por outro lado...

Algo que sempre me encantou na série foi a sutileza com que tratava certas questões - principalmente religiosas - e a beleza que dava ao inexplicável. Ambas foram deixadas de lado em Daybreak. O mistério da "Opera House" é um exemplo. A seqüencia onde Roslin e Athena corriam pelos corredores de um anfiteatro em busca de Hera, levada por Gaius e Caprica Six, enquanto todos eram observados pelos final five, não passava de uma "receita de bolo" de como manter Hera segura durante a invasão da Galactica. Tudo para, em seguida, ser capturada por Cavil.


O modo como os eventos fantásticos foram tratados foi um dos grandes problemas do season finale. Até então, não estava claro se eram ou não obra de deus, se a crença dos cylons , coloniais ou a pregação de Baltar estavam corretos, muitos menos se insinuou que a ciência era a resposta para tudo. Esta ambigüidade, há tanto tempo presente, foi subsituída por um conveniente "deus das lacunas", que nunca se comportou como o deus em ação no passado da série. Em vez de sutis e misteriosas, suas ações passam a ser óbvias e aparentes, ou seja, um voto de fé não é mais preciso, deus deu as caras e mostrou que existe. É aparente que deus não foi pensando como parte principal do final da série, sua importância não passa de uma tentativa de Ron Moore e cia. escapar do buraco que cavaram ao criar vários mistérios sem ao menos ter um esboço de resposta em mente.

Outro problema é Hera. Sua importância, bradada desde a segunda temporada da série, mostra-se nula ao final. De última esperança de sobrevivência de humanos e cylons ela passa a apenas mais uma, afinal a Terra (nossa Terra) já é habitada por humanos, com quem ambos podem reproduzir. Eva mitocondrial? Ora, ser a eva mitocondrial não possui nada mais do que uma importância simbólica.


Os personagens foram, claramente, o foco do season finale (o que, de modo algum, é desculpa para tanto desleixo com os mistérios. Tempo não faltou). É de se esperar que, ao menos, seu desfecho fosse digno.

Mas justiça seja feita, Ron e cia. acertaram em alguns momentos: Boomer, Tigh, Ellen, Gaius e Caprica Six tiveram desfechos a altura, completos com flashbacks de momentos relevantes de suas vidas pré ataques. Diria que a relação entre Starbuck e Lee também teve um fim merecido, com flashbacks que resumiram, em poucas cenas, anos de relação.

Para outros personagens, porém, o final foi insatisfatório. Starbuck merecia mais do que um "poof" (que não passou de uma desculpa para a incapacidade em responder o mistério que criou), Tory, por mais odiada que fosse, não merecia acabar como um mero artifício do enredo para por água a baixo a trégua e Calvin, o grande vilão, merecia muito mais que uma morte repentina no CIC da Galactica (isso sem falar que é incompreensível o pequeno número de cylons protegendo Cavil). Sem falar no maior potencial desperdiçado deste final, o desfecho de Adama e Roslin (que apesar de belo, poderia ser melhor).

A impressão é que faltou coragem. Coragem para dar à Galactica a batalha épica que todos esparávamos, coragem para sacrificar de modo heróico vários personagens que praticamente clamavam por tal destino (Adama!), coragem para dar à Cavil e seus aliados um desfecho que fizesse jus a seu papel nos acontecimentos.

As opiniões dos fãs sobre Daybreak foram variadas, mas em uma coisa todos concordamos: Battlestar Galactica deixará saudades.

So say we all!



Allan

Nenhum comentário: