E assim chegamos ao episódio final de mais uma temporada de Mad Men, que pode não ter sido surpreendente como tantos outros anteriores, mas que não deixa de ter seus méritos por conseguir valorizar essa excelente temporada, pontuando parte de seus temas recorrentes e oferecendo conclusão a maioria de suas tramas. Certamente seria impossível superar o impacto do suicídio de Lane Pryce na semana passada, ou proporcionar um clímax mais efetivo para uma temporada que começou com ares leves e agradáveis até atingir esse clima fúnebre no final. Para os personagens também não parece nada fácil evitar essa ausência, ou melhor, uma presença quase que espectral de Lane. Em uma insuportável reunião entre os sócios, com uma das cadeiras ainda desocupada, Joan tem de controlar sozinha a falta de paciência dos outros homens à mesa. Don sofre novamente com alucinações de sua cabeça, devido a fortes dores de dente. Dessa vez são visitas de seu próprio irmão, apresentando até as marcas de enforcamento ainda no pescoço, prova de que Don também sente uma parte da culpa pelo suicídio de Lane. E assim como essas dores que só aliviam quando decide finalmente extrair o dente, sua visita à viúva Pryce ocorre muito mais para diminuir esse peso do que como ato de generosidade, até por "ressarci-la" com a quantia exata que o marido havia investido na empresa.
Porém, o termo "fantasma" que aparece no título não se aplica apenas de um modo literal, se é que podemos chamar assim, mas simboliza também as ilusões e fantasias que esses personagens tem perseguido ao longo de toda a temporada. Megan é censurada pela mãe por buscar um sonho impossível, pela primeira vez admitindo a possibilidade de desistir, assumindo assim seu fracasso. Beth volta neste episódio para dar a chance de um último encontro a Pete, antes de ter suas memórias apagadas por uma terapia de eletrochoques. Na visita ao hospital no dia seguinte, Pete já é tratado como um estranho, e percebe suas fantasias sendo dissipadas dentro da única pessoa que se vê capaz de revelar seus sentimentos, ponderar sobre sua própria depressão. Muita gente reclamava durante a temporada de uma falta de sutileza na série, e das inúmeras vezes que personagens faziam verdadeiros discursos entregando o tema do episódio. Defendi por tantas vezes dizendo que, a medida que mergulhamos década adentro, tudo parece ficar mais evidente, tornando-se impossível até para esses personagens deixarem de notar tais transformações. Matthew Weiner, em uma entrevista essa semana para o Sepinwall, revela que a intenção dos roteiristas era justamente essa, diminuir a ironia, derrubar os disfarces. Weiner sempre declarou não acreditar que as pessoas fossem capazes de mudar, apenas de se adaptar a uma nova situação. Por isso essa temporada me parece crucial porque revela tudo isso diante dos personagens, e eles se mostram impotentes, incapazes de reagir. Outros se sentem impulsionados a tomar decisões que vão carregar pelo resto de suas vidas. Há uma certa preocupação em mostrar também aqueles que saem derrotados diante do triunfo dos outros, como pelas vítimas de adultério, dos crimes e atentados, das concorrências da SCDP. Neste episódio, Megan utiliza o pedido de sua colega a seu favor para conseguir o papel no comercial através de Don. A vitória de Lane sobre Pete, naquele épico combate dentro da sala de reuniões, fica marcado como um dos breves momentos de satisfação ao alcance de Lane nos últimos meses -- outro seria uma noite com Joan que, para surpresa de muitos, ela chega até a cogitar caso evitasse essa fatalidade. Pete virou saco de pancadas nesta temporada porque ninguém mais tem paciência com suas atitudes presunçosas. E depois desta última surra no trem, Trudy enfim concede a Pete o direito de procurar por um apartamento na cidade, para morar durante a semana, e assim tentar resolver seu problema permanente com outra solução temporária.
Depois de um longo hiato, a volta de Mad Men esteve cercada de expectativas, principalmente em relação ao inesperado pedido de casamento de Don Draper. O casal parecia viver uma eterna lua-de-mel, até que começam a surgir os primeiros desacordos e Megan decide abandonar tudo para se dedicar novamente à carreira de atriz. Acho que esse dilema imposto por Don, de ser descoberta por alguém ou apenas a mulher de alguém, traduz grande parte da dinâmica do casal nesta temporada. Porque mesmo enquanto trabalhava na SCDP, Megan era tratada com desdém pelos outros funcionários, aquela que tinha oportunidades apenas por ser esposa do chefe. Mas a medida que ela começa a fazer a diferença no ramo criativo, utilizando entre outros artifícios sua aptidão para interpretar, Megan começa a servir também como satisfação profissional para Don, que percebia cada vez mais estar diante de alguém especial, de uma descoberta. Com a desistência dela, a situação pareceu se inverter e é ela quem precisa constantemente da presença de Don, pedindo pelo seu apoio e sua compreensão. Quando Megan pede para o marido influenciar nos testes para o comercial da Butler, provavelmente sabendo que nem precisaria passar por teste nenhum, é um dilema que não afeta apenas seu casamento, mas que vai contra a própria postura profissional de Don. A cena em que ele assiste à exibição de Megan diante das câmeras (uma referência ao carrossel da primeira temporada) permanece sendo um mistério para mim, porque não acredito que a interpretação dela tenha lhe impressionado de fato. Naquele momento, talvez ele tenha considerado a perseverança (que tomou lugar da versatilidade no início da temporada) da mulher que ama. Mas com certeza sua decisão de ajudá-la no teste e assim recuperá-la de um princípio de melancolia deve-se também ao encontro casual com Peggy no cinema, quando ele admite que esse é o processo natural de suas pupilas, ser ajudada até conseguir seguir seu próprio caminho. As consequências disso podem ser vistas já no primeiro dia de gravação do comercial dos sapatos Butler: Don deixando Megan sob a luz dos holofotes enquanto vira as costas e se distancia em direção à escuridão.
Poucos personagens seriam capazes de responder a essa questão com uma negativa. Enquanto a SCDP alcança sucesso a ponto de considerar expandir para um andar superior, os sócios se mostram cada vez mais isolados, cada um enxergando pontos de vista em janelas diferentes. Pete termina ouvindo seu aparelho de som, tentando silenciar o restante do mundo. Joan falhou como esposa, recusou a ajuda de Roger e cedeu à imagem de amante para garantir seu futuro na empresa. Roger acaba divorciado pela segunda vez e experimentando outra dose de LSD sozinho, encarando assim o mundo nú e de braços abertos. Embora a ausência de Peggy já esteja sendo sentida na SCDP e ela tenha finalmente conquistado o respeito que merece na CGC, sua primeira viagem de negócios está longe de ser encantadora. E temos por fim Don, sentado no balcão do bar prestes a se entregar aos velhos costumes. Sua resposta à garota pode ter ficado em aberto, mas até para manter coerente com esse desgaste no casamento, tudo leva a crer que Don está disposto a trair novamente. A montagem final acaba sendo brilhante tanto atenuando a decisão de Don, ao estabelecer esse paralelo com os demais personagens, quanto servindo de conclusão para uma temporada em que a maioria experimentou o amargor da desilusão. É como se todos estivessem enfim acordando para encarar a dura realidade após um longo e coletivo sonho, mas que deve continuar a atormentá-los pelo resto de suas vidas.
Assim chegamos ao final de mais uma temporada. Queria agradecer a todos pelo apoio e elogio nesses últimos meses. Até a próxima temporada! Abraços.
Fotos: Reprodução.
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Joan é a mais afetada desde o começo do episódio, quando um dos membros do conselho na campanha da Jaguar sugere uma proposta indecente a Ken e Pete para assim não desfavorecer a agência na concorrência. Justamente quando Joan parecia enfim ter se livrado do fantasma do estupro que lhe perseguia por tanto tempo, aparece outro tema polêmico para aborrecê-la. Muitos parecem ter caído num dogmatismo para criticar a decisão de Joan, outros devem achar sua decisão incoerente por ela ter categorizado esse tipo de serviço como prostituição logo de início. Mas não quero propor esse tipo de discussão, até porque isso só tende a diminuir o valor do episódio e da própria série em si. O que realmente merece ser analisado é a forma como ela chegou a essa conclusão, como Pete teve papel fundamental (e Vincent Kartheiser teve uma de suas mais brilhantes performances) não apenas para convencê-la, como também "envenenando" aos poucos os outros sócios. Repare como ele distorce as palavras dela quando se reúne com os chefes, omitindo que ela teria ficado chocada, que apenas não esperava que eles fossem capazes de chegar a um valor condinzente. O resultado de tudo isso é uma corrente de mal entendidos, até Lane aconselhando que ela deveria reconsiderar uma proposta (e assim livrá-lo de pedir outra extensão de crédito), deixando Joan acossada a ponto de ceder. Claro que essa aparente decisão unânime dos sócios seria difícil de ser mudada, tanto se ela aceitasse ou não, e reflete uma opinião pública da própria sociedade. Salvatore foi demitido (e desapareceu da série) justamente por não ter cedido a uma proposta parecida. Além disso, era uma proposta capaz de solucionar todos os seus problemas financeiros e garantir ainda um futuro estável para seu filho. A postura passiva de Roger também me parece bastante coerente, tanto por ele oferecer apenas uma ajuda financeira para criar o filho, quanto por não se irritar com um possível admirador secreto de Joan. Roger não é capaz de amar ninguém. A montagem final, da apresentação aos executivos enquanto Joan se submete a um deles, parece extremamente óbvia ao tratar a mulher como o carro que está sendo anunciado, mas não vejo possibilidade de ocultar uma cena tão trágica como essa. Até porque ela ainda aparece usando o casaco que ganhou de Roger em
Do outro lado da moeda está Peggy, claramente insatisfeita por ter sido colocada em segundo plano na agência e não ter seus esforços reconhecidos. Ainda acho interessante que em nenhum momento ela tenha disputado com Ginsberg pela preferência do chefe, ela apenas não quer ser considerada inferior a ele, o que é bastante compreensível. Já que Don está ocupado demais para sequer perceber o nível de desgaste que se encontra essa relação -- a ponto de jogar dinheiro em seu rosto --, cabe a Peggy encontrar seu próprio caminho e enfim se libertar de seu mentor. Ela aceita a oportunidade na CGC depois dos conselhos de Freddy, outro antigo personagem que volta a aparecer nesses episódios. Não que essa despedida fosse inesperada, a série preparou terreno durante toda a temporada para isso,
mas até pela importância da trama de Joan, não imaginava que seria também neste episódio. Porque sua demissão é um fato tão marcante na série, até pelo piloto mostrar o primeiro dia de trabalho de Peggy e seu primeiro encontro com Don, que achei que seria guardado para o finale. Mas claro, como previsto, é uma cena magnífica mostrando Don passar por todas as fases antes da aceitação, dando um beijo na mão (onde mais?) de sua pupila até enfim soltá-la livre. Se os dois haviam atingido um estado de admiração mútua em
Já Peggy acaba faturando uma bolada às custas da negligência de Roger com a conta da Mohawk (esperamos que ele tenha ainda muita grana para sempre se prestar a esse papel ridículo) e tem de trabalhar sozinha até altas horas da noite na SCDP. Depois de se assustar com alguns barulhos pela agência, certamente ainda impressionada com as fotos do crime, Peggy encontra Dawn se preparando para dormir no sofá da sala de Don. Sem chance de voltar para casa por conta do tumulto nos protestos pelos Direitos Civis, Peggy oferece então seu apartamento, e essa visita acaba sendo uma chance de acompanhar o seu desconforto com essa situação. Primeiro porque ela tenta de todas as formas forçar que está entendendo os problemas de Dawn, desde os protestos até sua condição de minoria na agência. Segundo porque Peggy acaba sempre conduzindo a discussão para tratar de si mesma, interrompendo Dawn até por diversas vezes. E para completar, cria-se um impasse no meio da sala quando Peggy hesita em tirar sua bolsa do alcance de Dawn. Embora pareça bem semelhante àquele dilema de Lane no táxi há alguns episódios, nesse caso vejo certa complexidade por tratar do preconceito de uma forma reversa. Afinal, com todo aquele dinheiro, dificilmente Peggy largaria sua bolsa na sala, seja lá quem estivesse dormindo ali. Mas Dawn percebeu que ela hesitou, Peggy percebeu que tinha de dar crédito e agir com naturalidade, e assim sua atitude não poderia ser mais condescendente. Pode parecer um voto de confiança, mas mostra-se acima de tudo um preconceito inato, incapaz de esconder. Dawn ainda não apareceu tratada como deveria, dessa vez servindo apenas como mero embaraço para Peggy, mas espero que explorem ela com maior profundidade ao longo desta temporada.
Não tem sido tarefa fácil escolher uma foto para ilustrar meus textos nesta temporada de Mad Men. Afinal todo episódio temos algum fato surpreendente que deve ser preservado daqueles que entram aqui por acaso. Na semana passada, era o novo casamento de Don Draper, dessa vez é a aparente obesidade de Betty, que nem com a ajuda dos filhos consegue entrar em seu antigo guarda-roupas -- ironia cruel rebater essa cena com Don facilmente fechando o vestido de sua esbelta mulher logo em seguida. Para incorporar (literalmente) a gravidez de January Jones à série, os roteiristas tiveram de recorrer a essa trama, já que seria pouco provável que Betty engravidasse tão cedo de Henry. É algo que me agrada, principalmente pelo modo como evoluiu ao longo do episódio. Não chega a ser novidade para ninguém acompanhar um personagem encarando a morte através de um diagnóstico de câncer -- já acompanhamos esse tema inclusive na temporada passada com Anna Draper --, mas com Betty isso me parece diferente. Além desta mudança física já ser um golpe na auto-estima de qualquer um, principalmente para quem sempre foi reconhecida pela beleza, a própria ingenuidade e suas tendências infantis colaboram para criar certa simpatia pela personagem. Interessante notar que mesmo Henry sendo um marido mais paciente e atencioso, Betty prefere ser consolada por Don logo que recebe as primeiras notícias. Já é padrão os produtores adotarem algum tipo de metáfora quando retratam o estado psicológico de Betty (o pássaro preso na gaiola, o souvenir) e dessa vez não foi diferente: as folhas de chá do título, que sobram no fundo da xícara após perderem sua função. Enquanto Betty apavora-se com o relato de sua antiga amiga sobre o duro tratamento que está sendo submetida e a má sensação que isso traz, uma vidente aparece propondo-se a ler seu futuro. E sua previsão não poderia soar mais cruel, com palavras de conforto como aquelas que dedicamos a família de alguém que acaba de falecer. Mas tudo não passa de um susto, e o alívio dela está justamente em poder continuar criando os filhos, sem precisar depender de Don (e Megan) ou de sua sogra. A última cena talvez justifique o ganho de peso de Betty ao longo desse período, além de denunciar que Sally está atenta -- e reprova -- a obesidade da mãe, quando rejeita o resto do sorvete. Não à toa, no sonho de Betty em estilo Sopranos, é Sally quem faz questão de virar a cadeira da mãe na mesa de jantar.
Lane Pryce explica a situação delicada que a empresa está passando sem Joan, reforçando sua importância no controle das finanças, mas meu palpite é que existem problemas mais graves que ele ainda não quis revelar. Lane também tem relativo destaque na segunda parte do episódio, quando acha uma carteira cheia de dinheiro no banco de trás de um táxi e por cautela, e certo preconceito, resolve carregá-la para entregar ao dono. Chega a me surpreender que seja ele a tomar essa atitude depois de seu relacionamento com a "chocolate bunny" do Playboy Club na temporada passada, mas talvez sua origem inglesa explique toda essa desconfiança. Ao menos Lane parece ter conseguido resolver os problemas em casa e trouxe de volta sua mulher para morar junto em NY. Mas ele ainda se deixa levar facilmente pelas fantasias da foto de uma bela mulher encontrada na carteira perdida. Já Pete Campbell ainda não dá sinais de ter amadurecido, mas com o nascimento do filho precisou mudar-se com a família para o subúrbio de Connecticut. A rotina diária e o estilo de sua residência lembram tanto a vida de Don Draper há alguns anos atrás que ele mesmo parece incomodado. Além disso, Pete não se mostra nem um pouco satisfeito pelas transformações que Trudy passou durante este período. Em um ato de rebeldia, ele convoca uma reunião improvisada em sua sala para tentar convencer os sócios de que precisa receber seus clientes em uma sala mais ampla, sugerindo no caso a de Roger. Roger Sterling ainda não chega a ser um fóssil como Bert Cooper, mas sua participação -- e creio que sua vontade de trabalhar -- diminuíram bastante depois da saída da Lucky Strike. Por mais que esteja desesperado, invadindo toda e qualquer reunião com algum cliente em potencial, sem nem mesmo hesitar, Roger ainda detém aquilo que faz toda diferença nos negócios: dinheiro. Com um pequeno agrado ele convence Harry a trocar de sala com Pete e tudo acaba resolvido, ao menos por enquanto. Como Trudy chega a dizer ao marido, essa insatisfação pode ser boa, desde que seja sinal de ambição para os negócios, e Pete parece ser o único capaz de salvar a agência dessa possível crise que se anuncia.