"Isso é o que somos" "Espere, desespere, quem se importa?"
Com essas duas taglines fantásticas, com peso filosófico, MillenniuM começava.
Falar de MillenniuM não é tarefa fácil. Acho, sobretudo, que foi uma série a frente do seu tempo. Muito incompreendida pela audiência americana, bastante elogiada por críticos, mas que durou apenas 3 temporadas. Sequer viu o milênio, terminou na temporada 99/2000.
Ela incomodava desde o começo. Nas portas do novo milênio, a escalada da violência aumenta. O que fazer? Como entender? Existem fatores maiores e acima da razão?

MillenniuM é uma criação de Chris Carter, o mesmo de Arquivo X, e foi por esse motivo que me interessei em ver qual era da série. Fui arrebatada!
Com assassinos em séries, crimes horrendos, tripas e corações mostradas em detalhes (CSI deve muito a esse recurso amplamente usado nos insights de Frank Black) ela perturbava.
E como poderia ser diferente? MillenniuM trabalhava com o conceito do mal não tangível. Não existia um mistério a ser resolvido, não falava de OVNI´s, conspiração governamental. Nada era palpável. Não tinha a personificação real da maldade. Ela existia não como um fator exógeno, mas como algo que está em cada um de nós. E, me desculpem o clichê, a série mergulhava em almas atormentadas.
Não sou americana, mas consigo entender a repulsa por parte da audiência por essa série. MillenniuM tratava também sobre as paranóias do americano médio. E eram temas tão pesados. Um dos meus episódios favoritos(Monster) é sobre uma menininha de 5 anos que matava seus coleguinhas de escola.
Quem a audiência deveria culpar? Os criminosos? O crime em si? Era nesse ponto que a série atormentava. Era exibida nos anos que antecediam ao 2001. Havia o bug do milênio, as profecias de Nostradamus, o medo do apocalipse, enfim, um clima de terror no ar. E ela soube aproveitar esse momento. Na 1a temporada, além das duas taglines já citadas, existia uma outra "A hora está chegando". Na 2a e 3a temporadas foi modificada para "A Hora é agora".
Frank Black, um dos melhores personagens já construídos e interpretados na TV (Lance Herinksen) é um agente do FBI aposentado, especialista em profiles de criminosos. Une-se ao Grupo Millennium como consultor.O que diferencia Frank dos outros agentes ou policiais é o seu dom. Algo muito difícil de compreender. Não era um medium ou um paranormal. Ele conseguia ter a visão tumultuada, caótica, fria e pavorosa dos assassinos. Alias, Black sempre enxergava demônios. Claro que era uma metáfora religiosa ao conceito de anjos e demônios. Era o mal em si que Frank enxergava. E por isso ele não poderia ser personificado em uma pessoa.

MillenniuM possuía muitas cenas externas e filmadas a noite. O clima de escuridão era reforçado na fotografia. Não era uma série de sorrisos e sutilezas. Mas tinha os momentos de ternura de Frank com a sua família e, exatamente por esse isso, que ficava mais aterrorizante.
Frank temia perder o que realmente importava:Jordan e Catherine. Sua filha e a sua mulher. Legal a forma como isso é mostrado, através da casa amarela, a casa dos sonhos da família Black.

Uma pena porém, que Chris Carter deixou a série de lado para se dedicar ao famigerado Arquivo X- o filme, talvez sofrendo daquilo que o Ribas chama de "síndrome de JJ Abrams" (começa, mas não termina).Deixando com que os produtores da série tomassem duas decisões erradas e que afetou para pior os rumos dela.
O primeiro erro foi a personificação do mal. Já que eles não fizeram as concessões necessárias na 1a temporada para não perder a audiência, como por exemplo, diminuir as cenas sanguinolentas, resolveram modificar a estrutura. Agora o mal era Peter Watts (Terry O´Quin, sim, ele mesmo, o John Locke de Lost) e o Grupo Millennim. O público americano tinha agora o seu bad guy.

O segundo erro foi a decisão de matar a esposa de Frank, Catherine Black. Com isso, o papel de Jordan, a filhinha que desde a 1a temporada fica a sugestão de ter um dom semelhante ao do pai, perde espaço na trama. Erros que acabaram por cancelar a série, originalmente concebida para 5 temporadas.
MillenniuM terminou de forma abrupta e pouco interessante. Rendeu um crossover com Arquivo X, onde Mulder encontra Frank Black, uma cena muito bacana. Apesar de ser um episódio inferior em Arquivo X, foi digno o suficiente de deixar Frank Black conduzir e resolver a história.
Taí uma série que precisa ser redescoberta. Já têm os DVDs. Recomendo e muito. Mas já aviso que não é para os mais fracos.
Danielle M
