Depois de assistir ao último episódio de 9mm: São Paulo, a pergunta que fica é: seria possível tirar suas conclusões de uma série em apenas 4 episódios? Eu acredito que sim, mas acho que neste caso não seria justo. Isso porque é bastante difícil transitar em tão pouco tempo na fina camada que separa a complexidade das personagens e as resoluções das investigações. Se no episódio anterior tivemos de engolir diversos absurdos para a história andar, dessa vez Eduardo presenciou um "milagre" para ter o caso solucionado. Depois de ganhar mais uma chance de um dos chefões do crime -- mas que obviamente deve ter fama de bonzinho -- Eduardo recebeu de mão beijada a investigação resolvida e créditos com o chefe da polícia. Mas é a partir daí que a história ficaria interessante, com o delegado tendo de dançar conforme as regras do crime organizado também. Paciência, quem sabe na próxima temporada. O confronto com o outro delegado ainda continua rendendo boas cenas, como ao fazer referência a Jack Bauer e o tempo limite de 24 horas.
No entanto, a grande sacada do episódio foi o confronto final de Luísa com Horácio, que continuava sob investigação após a morte do dono das casas de prostituição, ainda no primeiro episódio. Concluindo esse arco que ecoou por toda a temporada, Horácio termina conseguindo encobrir todas as suas pistas e ainda ameaçando a investigadora. Embora ainda não faça o menor sentido esse afilhado problemático só servir para achar a arma do investigador em sua casa, essa discussão sobre o quanto os policiais podem colocar a sua vida pessoal em perigo continua sendo interessante. O único porém é que o tempo é curto para conseguir desenvolver alguma personalidade, deixando os personagens rasos demais e beirando até caricaturas. Mesmo levando em consideração ser também um produto para exportação, essas dificuldades que os policiais passam todos os dias já são tão divulgadas atualmente que as histórias de 3P e Tavares tem pouco a acrescentar.
Além disso, é estranho como tantas lacunas fiquem em aberto entre um episódio e outro. Seja a overdose da filha de Luísa ou a separação de Eduardo da filha do deputado, falta uma linearidade para deixar a história melhor explicada. E não são apenas sutilezas do roteiro, tanto é que leva-se tempo para entender durante a boa cena do jantar que Eduardo não estava mais junto da namorada. Tudo isso me leva a concluir que embora tenham grande idéias, a produção não consegue dar um bom desenvolvimento. É de se aplaudir a iniciativa de produzir uma série com ares e temática brasileira, mas 9mm ainda precisa de alguns ajustes para sua próxima temporada, principalmente dando um enfoque maior em alguns personagens, conduzindo assim melhor a história.
e.fuzii
quarta-feira, 9 de julho de 2008
[9mm] 1x04 Nós é Polícia
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quinta-feira, 26 de junho de 2008
[9mm] 1x03 Eu Sou Mais Forte
Que beleza de título, não?
Apesar do título de desenho animado, acho que esse foi o episódio que conseguiu sair-se melhor até agora. Dessa vez os investigadores estão atrás de um lutador de vale-tudo que agrediu e matou um rapaz pobre (ou um pobre rapaz) após sairem bêbados de uma balada. E a filha de Luísa ainda estava junto da turma e presencia toda a agressão. Isso até seria motivo para eu reclamar da conveniência do roteiro mais uma vez, mas na verdade acho que esse fato é exatamente o que carrega a parte mais dramática e interessante do caso. Claro que a primeira cena, justamente mostrando o crime acontecendo (numa ânsia de querer chocar mais uma vez) foi equivocada porque tirou a surpresa da revelação da menina, mas por outro lado já colocou o espectador no lugar mais confortável possível, sempre a favor dos investigadores. Além disso, como o rapaz já estava condenado desde o início do episódio, tudo que acompanhamos foi um processo bastante conturbado, levando em consideração palavras balbuciadas pela vítima antes de entrar em coma e o retrato-falado do outro rapaz agredido, que contava com um dom incrível para desenhos.
Entretanto, o grande destaque foi a discussão de como a justiça acaba emperrando quando a lei mistura-se com motivos particulares. Seja no caso de testemunhas não fazerem sua denúncia por medo de retaliação como também influências políticas na corporação. Ainda que para a advogada/mãe do playboy só faltasse o traje de Hera Venenosa para explicar tanta vilania e trejeitos, seu papel mostra o quão impotente a polícia pode ser diante de alguns casos. As duas bombas que explodiram justamente ao mesmo tempo, Tavares usando um carro apreendido e as suspeitas em cima de Horácio, também tiveram destaque por deixaram o departamento desacreditado. Às vezes parece que tudo vai terminar com o departamento se desfazendo para a próxima temporada (o que soaria como um piloto de quase 4 horas).
Ainda nessa discussão, acho bastante verdadeiro que diante de tudo isso, os policiais tenham o desejo de fazer justiça com as próprias mãos. Foi o que aconteceu com 3P, no final, mais uma vez sendo derrotado pelo playboy lutador. No entanto, minha única ressalva é que não consigo acreditar nas motivações de Horácio para ser desse jeito. A situação com sua família (que nunca entendi se é mulher, ex-mulher, irmã ou sei lá eu) é uma das coisas mais chatas que já vi na televisão. Fora isso, para um policial chamado de "velha guarda" é de se imaginar que já esteja cansado de saber como o sistema funciona. Essas suas ações, tanto o assassinato do dono de prostíbulo como a tortura no outro playboy para ele confessar, parecem fora de tom por ele nunca ter sido denunciado antes e por nem estar muito preocupado com isso. Para alguém iniciante até dá para entender, mas esse caso sim é conveniência que chega a ser inaceitável...
e.fuzii
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sábado, 21 de junho de 2008
[9mm] 1x02 O Estreito Caminho da Lei
Primeiro, preciso esclarecer que assisti a esse episódio no site da Raposa e pareceu ser a versão final, mas se teve alguma diferença para a versão da televisão já aviso que a culpa não é minha. A iniciativa de colocar na internet logo depois da exibição é bastante bem-vinda, principalmente levando em conta os ridículos horários de reprise do canal.
Mas vamos logo ao ponto-chave dessa análise: melhorou? Não. Tenho de dizer que os roteiristas tem algumas idéias inspiradas para alguns casos. Nesse episódio mesmo, os garotos tendo de vender os dvds roubados a alguma quadrilha maior foi um deles. No entanto, o maior problema continua sendo a própria investigação do departamento de homicídios. Parece estranho e deveras forçado que o tal de Tavares tenha ligações tão fortes assim com o crime organizado (como já foi mostrado no episódio anterior) e chegue ao ponto de pedir favores. Um dos principais motivos para isso é que os próprios bandidos entram e saem de cena como personagens caricatos e praticamente descartáveis. Estou finalmente acompanhando "The Wire" e é impossível não fazer comparações. Não temos em "9mm" alguém importante, forte e que consiga até de alguma forma nos convencer da impotência da polícia desamparada.
Como o próprio título do episódio já avisa, a discussão aqui é exatamente essa, como podemos ver na história do delegado Eduardo. Embora trabalhador e acima de tudo honesto, o delegado é levado cada vez mais para um lado obscuro quando presta favores ao seu sogro, um influente político. Essa dependência se bem explorada é interessante justamente levando em conta os outros colegas do distrito. Aliás, a cena em que ele discute com o outro delegado na lanchonete é umas das poucas que conseguem ser bem escritas e acima de tudo bem atuadas. Mas o grande deslize vem no final, quando Eduardo parece ler uma carta durante a entrevista em que coloca toda a culpa desses "estreitos caminhos" numa imprensa considerada fascista por ele. Com repórteres tão idiotas em cena chego até a estranhar uma denúncia como essa...
Nessa semana descobri numa coluna de um grande jornal daqui de São Paulo (deveras tendenciosa, por sinal) que o cinematógrafo apelidou a irritante câmera que não pára de mexer e dar zooms de "Dogma Freak". Só para se ter uma idéia do nível da produção de 9mm. Continua sendo um enorme problema essa vontade de querer transformar em relevância tudo aquilo que não deveria ter. Como a cena em que Horácio responde transtornado sobre a denúncia de ter entrado em contato com o chefe da rede de prostituição, no episódio anterior. Era desnecessário ele agir daquela forma, ainda mais por dar motivos ainda maiores para Luísa desconfiar. Tavares também teve reação parecida quando negociava com Abacate e repentinamente levantou e quase jogou a mesa longe. Além dos dois personagens terem uma imensa diferença de idade, o que nunca poderia fazê-los amigos de infância, essa reaçnao não convenceria ninguém a colaborar. Tavares também protagoniza uma seqüência ridícula ao render Abacate segurando sua arma na horizontal. Pistoleiro numa risível cena de invasão policial.
Fora isso, tivemos a história clichê em que a filha de Luísa está envolvida e a vida ainda mais clichê do policial Horácio. Chega a ser engraçado ele encarando o filho na casa de sua ex-mulher, tocando uma música monótona ao fundo. Lembrou-me um daqueles comerciais da Fundação para Uma Vida Melhor. Só faltou mesmo um slogan no final da cena. O pior é que essas histórias paralelas ainda diminuem o ritmo do episódio, parecendo confusas e até inúteis. Entendo que os roteiristas tem um plano maior para amarrar a temporada, mas acho que isso precisa logo ser explorado. Se é o desejo de justiça de Horácio confrontando a "honestidade" de Eduardo e a perseverança de Luísa, que coloquem logo essas cartas na mesa e não percam o tempo da série e do telespectador.
e.fuzii
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terça-feira, 10 de junho de 2008
[9mm] 1x01 Aqui se faz, Aqui se paga
Depois de um extensa campanha publicitária nas ruas de São Paulo, com direito a pessoas algemadas em avenidas movimentadas e perseguições simuladas nos parques da cidade, estreou hoje a primeira série da Fox produzida inteiramente no Brasil, "9mm - São Paulo". Usando recursos da Ancine, essa primeira temporada (se é que podemos chamar assim) é uma minissérie em quatro capítulos mostrando o cotidiano da Divisão de Homicídios na capital paulista.
Distanciando-se das séries forenses mais conhecidas, como a franquia "C.S.I.", "9mm" foca mais na reviravolta das investigações e nos próprios personagens envolvidos, sejam policiais ou bandidos. Nesse primeiro episódio, a equipe do delegado Eduardo depara-se com o assassinato de uma semi-famosa (leia-se: ex-participante de reality show) envolvida numa rede de prostituição. Enquanto isso, uma garota é encontrada com a suspeita de ter sido violentada pelo pai, que coincidentemente também é acusado de matar sua esposa no dia anterior.
A série é gravada em alta definição (o que não quer dizer muito coisa, já que a Fox não tem um canal para disponibilizar esse tipo de conteúdo no país) e usa do recurso batido de câmera na mão para aproximar o espectador de toda a ação. Porém, na prática o efeito é exatamente o contrário: o espectador acaba irritado pelo constante balanço da câmera e o número incontável de zooms nas cenas de diálogo. A edição também conta com momentos estranhos, tanto na montagem das cenas como nos próprios cortes.
Um dos destaques da série é o experiente investigador Horácio, interpretado por Norival Rizzo, que cercado de dilemas confere um lado mais humano à série. Depois de resolver o caso da forma mais política possível, a decisão de Horácio por fazer justiça com as próprias mãos (de onde vem o título do episódio) é exatamente aquilo que a série deveria distanciar-se: forçar um rótulo de anti-herói. Dentre os outros personagens, temos o delegado Eduardo, que transita entre o policial correto e arrogante, e a investigadora Luisa, que como mãe solteira carrega toda disciplina para dentro da delegacia e para sua casa.
Entretanto, o grande problema é a mão pesada que a maioria das cenas é dirigida. Na ânsia por chocar, a todo momento temos alguém gritando ou mesmo tentando se sobressair. Num dos detalhes da casa de Luisa, por exemplo, além da quebra de ritmo na investigação, ainda somos bombardeados por uma linguagem chula e que tenta numa simples discussão resumir todo o conflito de anos da policial com seu ex-marido. Em outra cena, é Eduardo quem precisa mostrar o quanto é destemido em encarar aqueles que julga como "bundões". Sem contar o chefe da rede de prostituição, que mostra-se tão acima da lei, inatingível em sua mansão ao melhor estilo Miami, mas no final acaba sendo alvo fácil do Horácio.
Se a idéia era mesmo inovar e ousar, começaram da forma errada. Com tantos clichês, cenas de ação mal executadas e diálogos sofríveis (sério, como pode um rapaz favelado usar a expressão "a essa altura"?) a distância que separa uma série como essa de um folhetim é praticamente nula. E pensar que já cogitaram a brilhante idéia de estabelecer cotas para produções nacionais na televisão paga...
9mm - São Paulo
Fox, terças às 22h.
Reprises: quintas às 4h e sextas às 1h.
Imagem: Divulgação
e.fuzii
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