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sexta-feira, 4 de junho de 2010

[Podcast] Episódio 2 - 'Letting Go'

Para dar uma conclusão digna ao final de Lost, reunimos grande parte dos comentaristas do blog para uma conversa especial sobre o impacto desse desfecho. Participaram desta gravação Marcelle, Célia, Hélio, Fuzii, Allan e Rafael, discutindo o próprio episódio final e toda repercussão vista na última semana. Além disso, consideramos também as chances de Lost receber indicações ao Emmy por essa última temporada. Confira:

Duração: 1h20. [Download]

Marcelle e Hélio avaliam também a sexta temporada de House a partir de seu episódio final.

Duração: 24min. [Download]

quarta-feira, 26 de maio de 2010

[LOST] 6x17 The End

por e.fuzii

Enfim, o fim.
Tantos são os detalhes durante essas quase 2 horas, que fica difícil saber por onde começar. Acho que não preciso novamente ressaltar tudo o que a série representou ao longo desses 6 anos, seja para todas as mídias envolvidas, seja para seus telespectadores, inclusive pra mim. A disseminação da série pela internet confunde-se com a criação deste blog (e de tantos outros posteriormente) e de todo um novo círculo de amizades que desenvolvi durante esse tempo. Talvez a grande sacada da série seja a apropriação individual, em meio a tantos paralelos que puderam ser estabelecidos e que logicamente acabaram bem aproveitados nesse desfecho. Já que não quero me tornar defensivo a medida que exponho minha opinião, esse será o tom máximo de saudosismo que pretendo atingir durante o texto. É fato que Lost influenciou muita gente, de modo que muitos só passaram a acompanhar outras séries de televisão depois de sua estreia. Embora não tenha sido esse o meu caso, sei exatamente o peso que é se despedir de algo que a gente tanto gosta.

Por isso, mesmo sabendo que não é a postura mais adequada para analisar um episódio individualmente, esse texto estará separado em duas partes: a primeira parte busca analisar sua importância como final de temporada e a segunda trata da conclusão geral da série. Quero ser o mais conciso possível, até porque em breve planejamos um podcast especial com cada um dos colegas do blog trazendo sua visão sobre esse desfecho de Lost. Portanto, aguardem.


A Sexta Temporada

A razão que permite destacar essa temporada das demais é sua estrutura chamada pelos produtores de flashsideways. Como sabem, nunca cheguei a adotar esse termo e não seria agora também que começaria. Muitos caíram na armadilha de logo chamá-la de realidade paralela, embora hoje sabemos que seria equivocado até mesmo chamá-la de realidade. A promessa era de que quando fosse revelado seu propósito, todas as histórias focando esses personagens também passariam a fazer sentido. Mas infelizmente, essa revelação não chegou a me convencer. Aliás, pelas constantes tentativas de despistar seu público, começando pela própria recriação do vôo 815, só me deixaram ainda mais irritado. A sensação é de ter sido enganado, já que é muito diferente surpreender através do omitir (como fomos no final da terceira temporada) e sugerir relações duvidosas entre esses dois planos. O exemplo mais claro disso foi a repentina impossibilidade de Sun se comunicar em inglês, quando a única interpretação encontrada seria sua consciência em 2004 trazendo danos para sua própria existência na Ilha. No final, a grande revelação é que nada do que acompanhamos nessa nova trama teria qualquer influência nos acontecimentos da Ilha, fazendo dela tão relevante para essa temporada quanto para qualquer outra. Além disso, ao invés de concentrar todos os esforços nessa última fuga, ou pelo menos dar algum suporte para aqueles que finalmente conseguiram sair da Ilha, a conclusão serve para anular tudo isso constatando que a importância sempre esteve no que foi vivido ali. Óbvio que vibrei com o embate final entre Jack e aquele que tomou a forma de John Locke por tanto tempo, ou Hurley com todos os méritos assumindo o posto de guardião da Ilha e pedindo ajuda para Ben, mas perde parte do impacto quando ficamos sabendo que todo se encontrariam no final da mesma forma. Não dá para ignorar ainda o péssimo tratamento dado a alguns dos coadjuvantes, em especial Lapidus, que poderia muito bem ter sido chamado apenas de 'O Piloto' desde o começo, para não deixar dúvidas quanto a sua função no roteiro, e assim poupar o ator de falas absurdamente constrangedoras. Pior temporada da série? Definitivamente sim.


O Final da Série
Foram seis longas temporadas até que finalmente acertasse a primeira (e última) de minhas suposições. Ou que pelo menos estivesse pensando no caminho certo. Desde que Desmond teve sua primeira revelação diante de Penny, já desconfiava que explorariam algo semelhante à reencarnação, em que todos esses personagens estariam destinados a se reencontrar onde quer que estivessem. Mas não esperava que seria literalmente a forma de ilustrar o encontro deles num plano abstrato. Não quero de jeito nenhum defender aqui meus princípios, embora acredite neste conceito de reencarnação, mas a encenação disso durante a temporada inteira cai na mesma categoria da luz amarela na minha opinião, uma tentativa falha de explicar ou convencer sobre a existência do impalpável. Quando tudo é apresentado de forma explícita não há mais espaço para analogias, e perde-se aquilo que cativou o público no início da série: a possibilidade de imaginar. Porém, acho que esse final de caráter puramente espiritual seguia um rumo natural da série após a Ilha exercer cada vez mais influência na vida desses personagens. A presença de Christian Shephard no final, tomando forma de criador e disposto a revelar a função daquele plano para que todos pudessem seguir adiante, serviu apenas para coroar essa linha de pensamento. Através dos tortuosos caminhos escolhidos por esses produtores e concretizados em tantos fenômenos inexplicáveis, acompanhamos um grupo de pessoas buscando pela salvação de si e do próximo para que assim, contradizendo aquela velha frase, também morressem juntos.
Pra ser sincero, os produtores foram bastante espertos em apostar num final profundamente emocional, funcionando quase como um tributo às personagens enquanto garantiam o bem estar de todos. Permitiu ainda explorar momentos chaves da série, através de uma overdose de sequências de despertar. Com certeza a mais esperada delas foi o emocionante reencontro de Juliet e Sawyer, fazendo com que seu singelo "funcionou" ecoasse pela eternidade. Por outro lado, forçaram uma inusitada recordação do romance entre Sayid e Shannon, que não se sabe quando tomou o posto de direito de Nadia (Naveen Andrews nunca imaginou que poderia sofrer tanto nesta temporada). Mas felizmente não reservaram apenas momentos de amor além da vida durante essas revelações. O mais notável deles foi o ultrassom de Sun, que nos fez lembrar de uma das cenas mais emocionantes da série (em D.O.C.), quando Sun tem certeza de que está grávida de Jin. Também foi bastante interessante que o casal principal da série, Jack e Kate, tivessem seus próprios momentos particulares. Kate reforçou sua tendência materna ao presenciar novamente o parto de Aaron, enquanto Jack finalmente foi capaz de compreender sua existência através do contato com o caixão de seu pai, sua razão inicial para embarcar no voo 815. Já Ben Linus teve de se contentar em esperar do lado de fora, mas nem por isso deixou de ter um desfecho satisfatório, cicatrizando as feridas de sua conturbada relação com John Locke e lembrando de sua recente (ao menos para nós) parceria com Hurley na Ilha.
No final, o fio condutor de toda série provou ser mesmo Jack, o homem da ciência que ao longo desses 6 anos aprendeu não ser capaz de consertar tudo e não viu outro meio a não ser aceitar o inexplicável. Seu ciclo na Ilha fechou-se com seu fechar de olhos, no mesmo lugar onde tudo começou. E todos esperavam reunidos na nave da igreja por ele, enquanto recebia os últimos esclarecimentos e assim pudesse seguir em frente. Esse "seguir em frente" é claramente destinado também ao público, aproveitando essa celebração junto de todo o elenco antes da derradeira despedida. É um tipo de desfecho bastante tradicional em séries de longa duração, recentemente explorado por Gilmore Girls com certa eficiência, por exemplo. A grande diferença é que em Lost decidiram favorecer essa estrutura alternativa, o que de certa forma tirou o peso dos acertos e falhas de seus personagens ao longo da história. No ano passado, presenciamos o final de Battlestar Galactica (garanto que só terão spoilers seguindo o link), também dividindo opiniões pelos caminhos que decidiram trilhar no final. Porém, analisando cada um de seus personagens era possível perceber toda a influência dessa jornada, positivas ou negativas, em suas vidas. Já em Lost, infelizmente não. A reunião na igreja mais pareceu um prêmio de consolação para todos aqueles que participaram um dia da série. Garanto até que muitas mortes que tanto nos emocionaram, deixarão de ter o mesmo impacto sabendo dessa felicidade eterna atingida em outro plano. Basicamente, os produtores decidiram concluir a série dando um final agradável e abraçando seus mais fiéis fãs. Não é a toa que por maiores que fossem suas pretensões iniciais (e finais?), Lost termina marcado apenas como um bem sucedido fenômeno cult, apresentando uma modesta audiência de cerca de 13 milhões de espectadores no seu episódio final.

Assim, chegamos ao final. Queria encerrar agradecendo a todos aqueles que comentaram antes de mim neste blog (Ribas, Davi, Wolv, Leco e tantos outros) e àqueles que me aguentaram por mais de três anos. Posso garantir que foi uma experiência compensadora, nos bons e maus momentos. Mas seguimos em frente agora para o mid-season, quando finalmente devo pagar uma dívida antiga e assistir Sopranos do início ao fim. Espero analisar a série, mesmo atrasado, temporada por temporada. Também teremos o Emmy, além da volta de Mad Men. Por isso, espero vocês num próximo comentário. Muito obrigado a todos.

Fotos: Reprodução.

e.fuzii
twitter.com/efuzii

sexta-feira, 21 de maio de 2010

[LOST] 6x16 What They Died For

por e.fuzii
Quando dizia na análise do episódio anterior que os roteiristas poderiam lidar perfeitamente com os principais temas da série sem que para isso precisassem sacrificar seus personagens, era exatamente de uma história assim que estava falando. Mas de certa forma, talvez tenha sido até válido para canalizar logo toda minha frustração em "Across the Sea" e assim aproveitar melhor o desfecho, sem que tivesse de me importar com qualquer das bobagens mitológicas abordadas ali. Bom que Lost conseguiu se recuperar desse tropeço tão rapidamente, ainda que muita gente ache que alguém que critica a série está mesmo torcendo para vê-la ardendo no magma. Se existe algo de pioneiro em Lost é nesse caráter passional de seus seguidores, logicamente aliado às possibilidades da internet, às vezes nem conseguindo assimilar a opinião de alguém antes de levá-la para o lado pessoal. Já acompanhei neste blog todo tipo de reação extremada, de ambos os lados, e às vezes penso em como a série tratou dessas diferenças ao longo de sua trama. Como a maioria de seus personagens eram complexos a ponto de não ser possível rotulá-los a partir de uma única postura ou opinião. De como vemos toda a imensa jornada de Jack ser concluída com a tarefa de proteger a Ilha pelo máximo de tempo que pudesse.
Confesso que amoleci. Para quem se lembra, uma de minhas maiores preocupações em relação ao final, talvez desde a metade da série, era de que tudo pudesse se resumir à busca por redenção. Porém, Jack se candidatando para ser o guardião diante de Jacob e o restante dos sobreviventes, foi uma resolução bastante elegante na minha opinião. Claro que muita coisa ligada ainda ao episódio anterior continua a me incomodar, como esse ritual de passagem através de um simbólico líquido. Principalmente por resolver de forma apressada, mais parecendo um atalho de roteiro, preferia que a história garantisse sustentação por si só. Mas já que Jack foi um dos poucos a ter algum desenvolvimento satisfatório nesta temporada, consigo até relevar. Além disso, temos ainda a constante lembrança da energia luminosa dourada, que ao que tudo indica terá um papel fundamental no embate final com o UnLocke. Estou cada vez mais inclinado a considerar esse o maior erro cometido pelos produtores, em tentar achar um ponto comum entre seu público, transformando a fé em algo concreto e a ciência em algo abstrato. Entendo que serve para Desmond mostrar ser a peça-chave no final, capaz de ter contato direto com a luz, depois tanto insistirem nas suas propriedades especiais. Pra mim, apenas outra prova de como essa luz era dispensável no contexto geral da série, já que Desmond só foi introduzido na segunda temporada.

A reunião ao redor da fogueira, onde queimam pela última vez as cinzas de Jacob, é uma amostra de que se a série estivesse preocupada em responder cada um de seus segredos, somente deixaria mais dúvidas. Apesar de Jacob tentar ser bastante claro que a solidão motivou ele a trazer todos à Ilha, é difícil de acreditar que ele não tenha influenciado todos durante esse processo, como no caso dos números que chegaram ao conhecimento de Hurley antes de ganhar na loteria. Fora que se fosse necessário apenas procurar por um novo candidato, seria fácil demais encontrá-lo entre tantos dos Outros, como por exemplo o leal Richard Alpert, que acabou descartado aqui de forma ainda mais vergonhosa do que Sayid. Acho que teria sido melhor deixá-lo morrer logo na Black Rock então. Mas como disse, questionar só levará a maiores dúvidas, perdendo assim a oportunidade de apreciar o verdadeiro propósito da série. Quando Kate pergunta a razão para ter sido riscada da lista, Jacob responde que foi por ela ter tornado-se mãe, mas que sendo apenas um risco na parede tudo dependia de aceitar ou não. Mas apesar de encontrarem nessa tarefa a razão para a morte de seus companheiros, Jack também precisa tomar essa decisão, fazendo disso uma questão de livre arbítrio. Seria a forma que vejo para desapegar-se de sua vida, assim como vemos na realidade alternativa, com John Locke finalmente decidindo se submeter à cirurgia e percebendo existirem ocorrências que se mostram além de sua vontade própria.
Embora tenha demorado demais para que essa realidade paralela de fato engrenasse, agora é interessante acompanhar cada um dos personagens passando a acreditar no plano de Desmond. Depois de convencer Hurley através do encontro com Libby (que parece ter despertado nele toda noção de sua outra vida), Desmond age de duas formas diferentes para despertar o restante dos personagens. Com Ben e Locke, suas ações beiram a insanidade mas demonstram certa despreocupação com o que possa acontecer nesse mundo. Como se por maior que fosse o crime cometido ele estaria blindado por essa "missão" de colocar as coisas em seu devido lugar. Já com Kate e Sayid, sua aproximação foi parecida com a de Jacob, dando uma segunda chance a quem já sentia-se abandonado na vida. Assim, Desmond pretende reunir todos de baixo do mesmo teto, quando finalmente descobriremos quem é a misteriosa ex-esposa de Jack (que só pode ser Juliet, certo?) e qual seria seu propósito. Ainda que tenha sido uma forma interessante de concluir a história de Ben nessa realidade, satisfeito em ouvir de Danielle sua importância na vida de Alex, espero que ele tenha ainda sentido nessa conclusão além da parceira com o UnLocke. Até porque, agora que Ben está livre de todas as regras impostas durante a vida e pode finalmente acertar as contas com Widmore, sua jornada merece uma resolução digna, ainda mais por ser o personagem que melhor representa a complexidade humana, sejam nos erros ou nos acertos, de toda a série.

Não queria lembrar, mas só faltam três dias até o "The End".

Fotos: Reprodução.

e.fuzii
twitter.com/efuzii

domingo, 16 de maio de 2010

[LOST] 6x15 Across the Sea

por e.fuzii
Bom, sinceramente não sei mais como lidar com você, Lost. Se posso me apropriar de uma comparação feita por uma amiga ainda no início da terceira temporada, minha relação contigo é como num casamento ruim (e nem precisei ser casado para perceber isso). Nessa semana, é com muito pesar que anuncio que estou pedindo divórcio. Busco uma separação amigável, após tantos momentos incontestáveis de felicidade vivendo ao seu lado. Afinal, depois de elogiar o episódio anterior por finalmente nos levar para uma direção correta, revelando os reais planos do Homem de Preto e estabelecendo-o como o grande oponente da temporada, nesta semana fomos desviados novamente do caminho quando voltamos centenas de anos para acompanhar o nascimento de Jacob e o Homem de Preto -- que ainda sem ter seu nome revelado já parece virar paródia dentro da própria série. Como se Lost ainda pudesse se dar ao luxo, tendo personagens completamente devastados para amparar e toda uma realidade alternativa para explicar, de colocar todos os personagens regulares de lado e passar 45 minutos acompanhando uma história linear das duas entidades introduzidas na última temporada. Ou pior, transformá-las em mortais cheios de falhas, sendo que na primeira conversa entre os dois, sentados na praia, ambos demonstram claramente uma enorme distância ao falar dos humanos que chegariam na Black Rock. Ou ainda pior, executar tudo isso com base num roteiro raso e com atuações beirando o ridículo.
Confesso até que tive muita boa vontade com o episódio e só fui mesmo perder qualquer esperança que ainda restasse quando Jacob deu "descarga" no seu irmão na caverna de luz, que acabou assim condenado a virar fumaça por toda eternidade. Acho que o mais grave de um episódio lidando apenas com mitologia estar posicionado a essa altura, como antepenúltimo de TODA a série, é que os produtores tentam reforçar sua importância. Mas apesar de todo esforço, sua importância é aparentemente nula, o que me fez lembrar bastante daqueles episódios anexos de Battlestar Galactica, que poderiam até adicionar certa perspectiva à série mas eram tão dispensáveis que acabavam lançados fora da temporada regular. Aliás, o grande tema encontrado em BSG, constatando que "tudo isso já aconteceu e voltará a acontecer", encontra paralelos também em Lost através desse ciclo que parecem condenados todos aqueles que um dia pisaram na Ilha. Bebês sequestrados e criados por outra mãe, a desconfiança daqueles eternamente conhecidos como Outros, a purgação de um grupo em nome de um bem maior, condutas morais transmitidas de geração em geração, as regras de um jogo que não permite a eliminação de um ao outro, os homens de fé opostos aos homens da ciência. Mesmo que todas essas questões fossem levantadas no decorrer do episódio, pouco me interessam quando relacionadas ao que ocorreu num passado ainda remoto, afetando personagens sem qualquer apelo. Existem dezenas de outras maneiras de dar conta dessas questões, por exemplo, ao tratar do destino de Aaron ou o sentido dessas regras quando aplicadas ao relacionamento entre Widmore e Ben. Como já disse, minha única exigência é uma conclusão digna para aqueles que realmente importam nessa história, não acabando descartados como Sayid foi no episódio anterior. Além disso, diante das resoluções apresentadas em "Across the Sea", não seria demais esperar também que Jack, o homem da ciência que foi convencido a trilhar os caminhos da fé, sobrasse como o próximo guardião da Ilha e assim fosse recompensado por sua jornada redentora. Na minha opinião, é preocupante essa tentativa de encontrar um lugar comum e conciliar as expectativas de seus espectadores, como esse episódio parece sugerir. Ironicamente, neste momento a relação entre devotos e descontentes, que já não era das melhores há algum tempo, atingiu níveis de intolerância nunca antes vistos. A principal razão para isso é que a complexidade da trama, sempre proporcionando uma interpretação ambígua de seu público, foi de uma vez por todas reduzida a uma questão de venerar uma energia luminosa dourada.
Ultimamente, um dos argumentos mais usados por aqueles que tanto defendem Lost, toma como base a tese de que essa história não é minha, não é sua, mas sim desses produtores e roteiristas. Isso me parece no mínimo contraditório, ainda mais para quem tanto preza pela capacidade da série de levantar discussões. Até porque os produtores estão ganhando seu dinheiro de qualquer maneira, agradando ou não. Mas para quem tanto se orgulha de planejar a série desde o início e ainda ter quatro anos para calcular seu desfecho, fica difícil depositar qualquer tipo de confiança a partir de agora. Se eles estivessem determinados mesmo a manter seus mistérios, não teriam dado tanta ênfase em estruturar todo um episódio para revelar as identidades de Adão e Eva, que aparentemente não devem ter relevância alguma para a trama. Então, sinto dizer mas eles sucumbiram aos apelos daqueles que assistem aos episódios com uma lista de perguntas ao lado, riscando cada uma conforme são respondidas. Além disso, não consigo valorizar essa tentativa de explicar aquilo que é profundamente abstrato, como no caso do que alguns consideram milagre ou destino e outros encaram como acaso ou sorte. Se essas são questões que regem nossas próprias vidas, não seria uma série de televisão, por mais importante que fosse, que seria capaz de esclarecê-las com sua mitologia quase bíblica. Afinal, se a intenção era responder seus mistérios com base em metáforas, acabaram falhando vergonhosamente, como prova o já citado caso da caverna com a fonte luminosa. Um elaborado mistério é muito mais instigante do que qualquer explicação rasteira. Mas disso os produtores deveriam saber até melhor do que eu, até pelas próprias palavras da Mãe alertando que qualquer pergunta assim respondida, apenas geraria ainda mais perguntas.

Fotos: Reprodução.

e.fuzii
twitter.com/efuzii

segunda-feira, 10 de maio de 2010

[LOST] 6x14 The Candidate

por e.fuzii
No episódio anterior, depois de todos os principais personagens terem se reunido no mesmo grupo, acompanhamos uma visão geral dos acontecimentos da realidade alternativa, sem focar em nenhum personagem especificamente. Naquele momento, reclamei dessa quebra de estrutura no meio da temporada, mas entendo que de agora em diante todos os episódios precisam carregar a mesma urgência de um final de temporada. Por isso, enquanto desta vez as movimentações pela Ilha ocorriam num ritmo acelerado, acho estranho tanta cadência para retratar outra história do Jack alternativo, que com toda sua teimosia investigava a razão para John Locke não querer se submeter à cirurgia. É verdade que esse paralelo buscou fundamentar a noção de candidato, por Jack e Locke em situações (e realidades) totalmente diferentes terem de sacrificar seus ideais a caminho de uma superação. Mas apesar de Terry O'Quinn ter mais uma chance de mostrar seu talento ao revelar o pesado fardo que deveria carregar pelo resto da vida, a sensação era de tempo perdido enquanto Jack buscava ajuda de Bernard, visitava Anthony Cooper ou encontrava Claire pelos corredores do hospital. Restando agora tão pouco tempo para o final, eram minutos que não mereciam ser desperdiçados assim, com base nas já manjadas conexões entre esses personagens.

Até porque nessa intensa jornada do grupos pela Ilha, o roteiro corria deixando imensos buracos pelo caminho. Agradeceria se alguém pudesse me explicar, por exemplo, o motivo de tanto fascínio pelas jaulas de urso da Hydra, além do próprio Sawyer lamentar que todos estariam fadados a andar em círculos. Basicamente, é o que vemos na primeira metade do episódio com a indecisão entre seguir os passos do Homem de Preto ou sabotá-lo de alguma forma; tentar fugir de avião mas acabar embarcando no submarino e assim por diante. Já há algum tempo que esse roteiro manipulando convenientemente grande parte dos personagens não vem me agradando, e desta vez não foi diferente. Se Widmore surge determinado até a matar Kate se fosse preciso para proteger os candidatos, ele logo desaparece quando UnLocke consegue resgatá-los. Então, seus capangas, que deveriam ao menos representá-lo, passam a servir de meros obstáculos no caminho dos planos do Unlocke. Essa omissão de informação é o que mais vem prejudicando essa temporada na minha opinião e às vezes tenho a impressão que Widmore aparece sempre "atrasado" em relação ao UnLocke, obviamente porque só ele contracena com os principais personagens. Mas pelo menos seu plano ficou bem claro nesse episódio -- o que permite deduzir a razão de Widmore se opor também --, assim que ele mostra-se satisfeito em dizer adeus a todos os candidatos que submergiam cercados pela esperança de deixar a Ilha.

Mas a esperança é breve até que eles descobrem haver uma bomba relógio a bordo do submarino. Trata-se do truque final do Homem de Preto, que ainda sem poder eliminar ninguém, recorre a tentar induzí-los ao erro. Digno dos grandes momentos dramáticos da série, como nos finais de temporada envolvendo as estações Cisne e Espelho, a tensão se estabelece com todos ao redor da bomba, com Sayid sugerindo agir de forma prática, Sawyer tentando controlar sua impulsividade e Jack apostando na resignação. Mas se Jack tivesse ao menos tentado ser um pouco mais convincente, contando de fato o milagre que presenciou com os dinamites da Black Rock, talvez eles não precisassem chegar nessa situação tão extrema. Sawyer puxa o fio indicado por Sayid e repentinamente o contador acelera e deixa todos mais perto da explosão iminente. Resta a Sayid se sacrificar em prol do restante do grupo e assim terminar como herói, mesmo que para mim fosse um adeus um tanto quanto prematuro. Entendo que é quando somos lembrados da frágil condição desses personagens, que são, acima de tudo, sobreviventes nessa história. Mas Sayid merecia também uma preparação mais digna antes de sua despedida. Afinal, desde o início da temporada Naveen Andrews vem enfrentando um de seus momentos mais crítico na série, assim que passou a ser obrigado a vagar em estado zumbi por tanto tempo. Seu retorno instantâneo à velha forma nesse episódio não chegou a me convencer e também pareceu rasa demais as explicações sobre sua milagrosa ressurreição no templo. Além de tudo isso, sem saber o propósito a longo prazo dessa realidade alternativa, fica difícil se comover como uma morte que ainda não parece definitiva, mesmo que ainda acredite que eles serão obrigados a escolher "descartar" essa vida em 2004.
Esse também foi o principal motivo que me impediu de realmente ficar emocionado com a morte conjunta de Jin e Sun. Antes preciso até dizer que toda essa sequência no submarino é conduzida com imensa maestria por Jack Bender. Talvez sua última imagem do casal, com as mãos separando-se debaixo d'água, seja uma das mais poéticas a aparecer na série. Além dele, Michael Giachinno prova a cada oportunidade que não tem limites para sua genialidade, desde as inserções do barulho do monstro de fumaça durante a discussão ao redor da bomba, como também eternizando o momento de despedida do casal de coreanos. Contrariando a famosa frase proferida por Jack de que todos acabariam morrendo sozinhos, é interessante notar que a dúvida sobre qual dos dois Kwon seria o candidato ainda permanece, terminando assim unidos até no mesmo número. Minha única frustração é que o casal decidiu abandonar Ji Yeon, sem ao menos ponderar o destino da filha. Claro que essa indecisão aparece implícita na cena, até pelo casal ter relembrado minutos antes, mas desse jeito pareceu um recurso de roteiro para manter isso longe do caminho e assim não arruinar essa melosa promessa de união eterna. Pode ser também um problema (ainda que imperdoável) durante o corte final, até porque o próprio Lapidus acabou esquecido dentro do submarino pela edição do episódio.
Dessa forma, restando apenas Jack, Sawyer, Hurley e a ainda imortal Kate, curiosamente temos reunidos os mesmos personagens levados por Michael ao encontro dos Outros no final da segunda temporada. Se James condenava Jack até então por ter tomado a decisão que causou a morte de Juliet, dessa vez foi sua escolha que acabou matando outros três. Assim espero que os dois possam enfim colocar esse desentendimento de lado e agir em conjunto para enfrentar a ameaça do Homem de Preto. Esse parece ser o grande mérito do episódio, colocando nós todos novamente ao lado de Jack e seu grupo, diante daquela devastadora cena dos sobreviventes na praia. Apesar de Evangeline Lilly por falta de talento falhar ao tentar comover, temos Hurley não conseguindo conter o choro, que chega quase como um estampido em nossos ouvidos. Mas confesso que ainda me preocupa demais esse ritmo irregular tão perto do final da série, com os roteiristas perdendo até preciosas oportunidades de nos impressionar. Afinal, quem é capaz de discordar que seria extremamente intrigante decifrar por uma semana inteira o sorriso triunfal do UnLocke vendo a partida do submarino, se este tivesse vindo ao final de um episódio? Ou quem sabe, mesmo ao final de um dos blocos?

Fotos: Reprodução.

e.fuzii
twitter.com/efuzii

sexta-feira, 30 de abril de 2010

[Podcast] Episódio 1 - 'Piloto'

Há algum tempo, nós aqui do blog começamos um projeto de fazer podcasts temáticos sobre séries (se não lembra, ou não havia passado por aqui nessa época, basta seguir o marcador). Infelizmente, não passou de alguns programas, até que passamos a participar da discussão semanal dos episódios de Lost ao lado de nossos parceiros do blog TeoriasLost.

Com a falta de textos nestes últimos tempos, resolvemos retomar essa ideia, até como uma forma de repercutir mais os assuntos em pauta. Depois de diversos testes e tentativas frustradas, chegamos nesse primeiro podcast que serve como um episódio piloto, muito mais no sentido experimental do que estabelecendo qualquer tipo de premissa.

E nesse primeiro podcast, ironicamente, decidimos começar falando do final das séries. Por pouco mais de uma hora discutimos algumas séries que se despedem nessa temporada -- ou que no caso de Damages, tem grande probabilidade disso. O resultado você confere a seguir, separado por série para evitar spoilers indesejados aos ouvintes.

Parte 1 - Lost: [Download]

Parte 2 - 24 Horas: [Download]

Parte 3 - Damages: [Download]

Críticas ou sugestões de pauta podem ser deixadas nos comentários. Espero que mesmo não concordando com nossas opiniões, pelo menos se divirtam um pouco com nossa confusão de sotaques. :D

Até mais.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

[LOST] 6x13 The Last Recruit

por e.fuzii
Por mais que os produtores insistissem em dizer que as explicações sobre essa realidade alternativa viriam no momento certo, o episódio dessa semana praticamente provou o contrário. Embora naquele início fosse possível dar maior atenção às transformações que esses personagens sofreram, já nessa altura os roteiristas foram obrigados a apelar para uma mudança na própria estrutura da série, deixando de focar num personagem específico, para conseguir então amarrar todas essas histórias da realidade alternativa. Se não estou enganado, fora episódios especiais como aquele de boas vindas a 1977 ou revelando o acidente a partir de quem estava nos fundos do vôo 815, essa é a primeira vez que temos um episódio assim no meio da temporada. Além disso, algumas situações pareceram apressadas demais, em contraste com a cadência vista até aqui, como Desmond outra vez agindo para promover o encontro entre Jack e Claire -- e esta mostrando não existir limites para sua ingenuidade. Afinal, por mais especial que Desmond possa parecer, não acredito que ele consiga prever exatamente o resultado de cada uma de suas ações. Como por exemplo, o atropelamento de Locke, que levou ao breve contato com Sun nos corredores do hospital e o encontro com Jack ao final, quando dessa vez os dois se encaram numa mesa de operação. Enquanto isso, o destino trata de reunir o restante dos personagens na mesma delegacia, onde Kate já espera pela chegada de Miles e James trazendo Sayid, após conseguirem prendê-lo. Um cenário bem diferente daquele visto na semana passada com Hurley que, até pela mudança de tom, nem deu as caras nesse episódio.
Porém, o grande desenvolvimento ocorreu na Ilha, numa intensa movimentação de peões, garantindo uma nova dinâmica para esse final de série. Depois de guiar o restante dos candidatos até o UnLocke, Hurley assume novamente seu papel de coadjuvante e deixa Jack ter uma conversa particular com a figura que toma a forma de John Locke, mas que confessa já ter se apresentado como seu pai, para assim sucumbir a suas sedutoras palavras. Porque como afirma Claire, só por deixá-lo falar já te alista automaticamente em seu grupo. No entanto, temos uma reversão dessa condição quando Sayid decide poupar a vida de Desmond, depois de convencê-lo do custo que seria ter Nadia de volta. Assumindo uma postura parecida com a de Jacob ao convencer Alpert, talvez isso prove que por maior que seja a influência dessas duas forças, elas não são capazes de mudar a essência desses personagens. Mais uma vez o destino e o livre arbítrio colocados em teste. Outro aspecto interessante foram alguns paralelos com situações já vistas no decorrer da série, como Desmond refletindo calmamente num buraco da Ilha -- lembrando sua época de escotilha --, além de Jack se lançando ao mar sob o olhar de Kate, assim como ocorreu com Sawyer no resgate de helicóptero. Como James é taxativo em dizer que eles não teriam mais razão para voltar, esse esperado embate entre os dois acabou sendo diferente de como imaginava, principalmente em relação a Jack, que embora tivesse recebido a revelação no farol de Jacob, terminou nos braços do UnLocke no final do episódio. Como último a ser recrutado, Jack parece ser o candidato perfeito para satisfazer os planos de deixar alguém protegendo a Ilha, pelo menos enquanto ainda desconhece a redenção que alcançou com seu filho na realidade alternativa. Já Widmore declarando guerra prematura ao Homem de Preto -- embora não faça o menor sentido ameaçar um ser de fumaça com mísseis --, leva a crer que ainda exista outra força exercendo influência na Ilha, talvez até na forma daquela criança que parece aterrorizar o UnLocke.
Fora isso, ainda não me convenceu a forma como Claire foi tão facilmente "domada" por Kate, após mais uma vez ter sido abandonada pelo seus companheiros. Poderia apostar que seu sorriso maroto ainda guarda alguma surpresa. Finalmente acompanhamos ainda o esperado reencontro entre o casal Jin e Sun, mas que infelizmente, foi bastante decepcionante. Depois de três anos separados, uma cena como essa, carregada de tanta emoção, merecia servir de conclusão para um episódio centrado nos coreanos, e não apenas inserida entre a decisão de Jack e os planos frustrados de James. Além disso, a cena em si foi de um tremendo mau gosto, chegando a desviar até nossa atenção num plano geral que mostrava a proximidade que estavam da cerca sônica. A questão de algumas semanas, dizia não ter entendido o porquê de Sun apresentar essa repentina afasia, sem poder se comunicar em inglês. Mas no fórum do site TVWoP, um usuário levantou a hipótese de que seria mais um indício das duas realidades convergindo, o que faz bastante sentido. Só não acho que era necessário usar qualquer tipo de recurso para garantir maior emoção, além de parecer um absurdo que os dois se reencontrem falando uma segunda língua. Para piorar, Lapidus ainda arremata constatando o óbvio, uma linha de diálogo absolutamente dispensável, difícil de imaginar que tenha sido aprovada em tantas fases de produção. Aliás, depois de tantos personagens deixarem a série das formas mais inusitadas possíveis -- entre eles, Ilana no episódio anterior --, só me pergunto qual a importância de Lapidus para esse final, além de servir de piloto numa possível fuga no avião da Ajira.

Semana que vem teremos uma pausa, para enfim acompanharmos os 4 últimos episódios da série em sequência. Hoje estamos a exatamente um mês do episódio duplo final em 23 de maio e já posso sentir até certa nostalgia no ar.

Fotos: Reprodução.

e.fuzii
twitter.com/efuzii

segunda-feira, 19 de abril de 2010

[LOST] 6x12 Everybody Loves Hugo

por e.fuzii
Ao longo de todos esses anos, Hurley sempre mostrou ser aquele personagem carismático que toda série precisa, que com seu jeitão atrapalhado e ingênuo conquistava os espectadores a ponto de ser alguém que todos poderiam confiar. Afinal, não era possível duvidar das boas intenções de Hurley, principalmente sabendo que seu mega prêmio ganho na loteria converteu-se numa maldição ao seu redor, culminando na sua chegada à própria Ilha. Mas como breve recompensa, ou apenas outro desgosto, Hurley pareceu encontrar ali seu verdadeiro amor, Libby, que logo acabou morta por Michael dentro da estação Cisne, mudando o rumo de seu personagem na série. Ele deixou de servir apenas de alívio cômico e foi até importante no final da terceira temporada, quando dirigindo uma Kombi Dharma salvou a vida dos sobreviventes que corriam perigo na praia. Mas agora tão próximo da conclusão, acho merecido que fechem aquela ponta deixada solta na segunda temporada e resgatem toda a sensibilidade de Hurley, principalmente acompanhando sua preocupação ao trocar as flores no túmulo de Libby enquanto indagava a razão dela nunca ter lhe visitado. Questão mais do que justa, que ainda serviu de preparação para o episódio em si, tanto em relação a sua história na realidade alternativa quanto a participação de Michael.

Mesmo que Hurley já tivesse aparecido como coadjuvante antes em algumas dessas tramas de 2004, não esperava que nesse caso ele teria acumulado toda sua fortuna por ser um empreendedor de sucesso. Óbvio que não existindo a Ilha nessa vida, também não existiriam números malditos. Mas ainda que Hugo pudesse ter confiança em si para se arriscar nos negócios, ele nunca teve a mesma coragem para o amor. Até que sua alma gêmea consegue lhe encontrar. Libby carrega consigo as lembranças de seu encontro com Hurley na Ilha, mas parece ainda confusa por sua própria instabilidade mental. Após um pequeno incentivo de Desmond, que está disposto mesmo a consertar a relação dos personagens nessa realidade, Hugo e Libby podem finalmente desfrutar daquele merecido pic-nic na praia. E quando os dois se tocam através de um beijo (semelhante ao momento em que Desmond pega a mão de Penny) tudo passa a fazer sentido para Hugo também.
Como já se suspeitava desde a semana passada, todos aqueles que morreram na Ilha tem uma probabilidade maior de lembrar dos eventos dessa outra realidade. Claro que, como tudo em Lost, não é possível fazer disso uma regra, mas mesmo os casos de Keamy ou Bakunin podem ser explicados pelo fato do espírito de Michael -- assim como todos aqueles que "pecaram" -- continuar preso à Ilha. Aliás, a revelação do que seriam os sussurros, apesar de não ser nada inventiva, pareceu ter sido feita num momento bem oportuno. O único problema é como às vezes essas respostas passam do ponto, ficando escancaradas demais. Michael aparecendo depois dos sussurros e revelando sua condição já parecia suficiente para deduzir tudo, sendo desnecessário que Hurley fizesse aquela pergunta diretamente. Volta a fazer sentido ainda a famigerada teoria do Purgatório, dessa vez aplicada à própria noção da Ilha como rolha para conter o mal. Por isso, ainda acho que o conselho de Michael pode servir apenas para seus próprios interesses, levando Hugo a reunir os candidatos para cumprir o plano do UnLocke, e assim conseguir também sua liberdade.

Porém, confesso que qualquer interesse que ainda tivesse nesse rearranjo de grupos da Ilha foi reduzido a cinzas quando Ilana resolveu prestar uma homenagem ao Arzt da primeira temporada. Não apenas pela paródia, nem pelos efeitos sofríveis ou a estranha edição, mas sim pela própria personagem, que entre os sobreviventes do Ajira era a única que parecia ter alguma importância aos planos de Jacob. Porque se os produtores pediram boa vontade para esperar pela revelação "na hora certa" do que seria a realidade alternativa, agora olhando em retrospecto não faz o menor sentido tanta demora com gente vagando pela floresta, personagens sendo manipulados pelos motivos mais bizarros ou o chatíssimo encontro no Templo do início da temporada. Além do mais para tudo acabar resolvido com o UnLocke esperando calmamente que os outros candidatos aparecessem. Apesar disso, a cena em que Hurley tenta convencer seu grupo a seguí-lo sob as ordens de Jacob foi absolutamente hilária. Não só por lembrar tantas vezes que fomos obrigados a aceitar ordens duvidosas durante todo esse tempo, mas porque Hurley, o então personagem mais confiável da série, parecia claramente estar inventando tudo aquilo enquanto todos ao seu redor percebiam isso. Mas justamente Jack, cansado de liderar os sobreviventes ao fracasso, acaba deixando-se levar pelas convicções de Hurley -- e ficamos impressionados com as transformações de Sayid e Claire em zumbis, hein? -- o que também influencia Sun e Lapidus a seguí-los. Assim, para defender os interesses de Jacob, restam apenas Richard, Ben e Miles que partem em busca de uma forma de destruir o avião da Ajira.
Mas apesar de Hugo ser o personagem central do episódio, o grande destaque mesmo foi o encontro entre UnLocke e Desmond, que com toda sua serenidade para lidar com a situação mostra a importância de ter sido trazido de volta à Ilha por Widmore. Ainda não se pode dizer com certeza que toda essa calma é em razão de estar ciente das duas realidades, mas não deixa de ser curioso que logo após ser jogado para o fundo do poço, Desmond siga para atropelar Locke no estacionamento da escola. Não acho que esses fatos ocorram em paralelo como a edição nos leva a acreditar. Muitos menos consigo crer que esse seja um plano de vingança de Desmond. Até pelo olhar revelador ao final, o mais provável é que esse atropelamento seja a forma que Desmond encontrou para expor Locke a uma condição próxima à morte nessa realidade. Mas se Locke está morto em 2007, será que ele já não teria recebido essas tais revelações? Apesar de tanto ter valorizado no episódio anterior o rumo que a realidade alternativa decidiu tomar, fico ainda desconfiado que essas histórias estejam indo em direção a um final feliz. Mesmo considerando todo o esforço de Desmond, é impossível ignorar o fator Ilha, tanto influenciando a vida de cada um deles como pelo seu significado para a própria série. Por isso, essa aparente conclusão feliz já tão cedo para tantas tramas, só me parece indício de que o final será bastante difícil para todos esses personagens.

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e.fuzii
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sexta-feira, 9 de abril de 2010

[LOST] 6x10 The Package | 6x11 Happily Ever After

por e.fuzii
Desde que comecei a escrever sobre Lost neste blog, nunca havia deixado acumular dois episódios como hoje. Chega a ser vergonhoso, eu sei, mas acho que nem deveria pedir desculpas porque não seria sinceras dessa vez. O fato é que cada vez me empolgava menos escrevendo sobre a série porque tudo se mostrava extremamente óbvio, às vezes sem a menor necessidade de descrever aquilo que todos já estariam vendo. A realidade alternativa, que continuava sendo o maior dos mistérios, às vezes faziam com que alguns espectadores procurassem sentido até onde não tinha. Mas como na semana passada Lindelof garantiu que hoje a prosa já mudaria de rumo, nem me esforcei em terminar o texto. E como suspeitava, não seria nenhum absurdo que o texto da semana passada servisse de introdução para o dessa semana. Ainda assim, ao contrário da maioria dos fiéis espectadores de Lost, sempre fui admirador dos episódios centrados no casal Jin e Sun. Porque mesmo que as histórias fossem em grande parte mundanas, não deixavam de ser importantes para desenvolver cada um dos personagens, levando em conta principalmente a dificuldade que é lidar com um casal já formado desde o início da série. Mas a partir do final da terceira temporada, quando infelizmente foram separados, tanto Jin quanto Sun foram deixados de lado, preteridos pelos novos personagens que apareceram no decorrer da história. Na minha opinião, apenas um dentre vários indícios para quem quiser entender a mudança de rumo da série e por que houve tanta queda de qualidade. Para piorar, ao voltar para a Ilha, a participação de Sun foi reduzida a indagar a todo momento por onde andaria seu marido. Por isso, a única expectativa envolvendo esse episódio era que fosse sacramentado o reencontro dos dois, o que para decepção de muitos acabou não acontecendo. Chega a ser irônico também que nem mesmo o título fosse relacionado a história desses personagens.

Dentre os episódios focados nos coreanos, talvez meu favorito seja The Glass Ballerina, ainda no início da terceira temporada, quando a tradicional honra oriental é discutida através do caso de adultério envolvendo Sun e Jae Lee, seu professor de inglês. Se naquela ocasião a missão de Jin era matar aquele que havia lhe desonrado (mesmo sem saber disso), desta vez é sua cabeça que está a prêmio por conta de seu relacionamento secreto com Sun. O único problema foi que já sabendo há alguns episódios atrás que Jin encontraria Sayid no restaurante, a trama serviu em parte para preencher lacunas e pareceu fechar pontas soltas sem que tivesse uma conclusão convincente. Mesmo assim o roteiro mostrou-se bastante eficiente ao revelar certas surpresas na hora certa, como Jin reforçando que não era casado para o atendente do hotel e Keamy revelando que o dinheiro trazido por Jin colocaria fim em sua própria vida. Se essas histórias que se passam na realidade alternativa representam mesmo aquilo que seria definitivo na vida desses personagens, a mensagem não poderia ser mais clara: é destino de Jin e Sun viver mesmo separados.
Na Ilha, essa separação já dura quase três anos, contando ainda com um breve momento em que estavam situados até em linhas temporais distintas. O desafio do UnLocke nesse caso é exatamente conseguir unir o casal, já que ainda não sabe qual dos dois Kwon é o candidato que permitirá sua saída da Ilha. Ironicamente, enquanto ele tentava recrutar Sun perto da praia, Jin era capturado pelos capangas de Widmore no acampamento. Vale ressaltar a forma como UnLocke tenta convencer Sun, sem nunca obrigá-la a nada. Se Jacob aparece como aquele que destina esses personagens a chegarem onde estão, seu antagonista somente age a partir do consentimento deles -- claro, a não ser que seja obrigado a executá-los. Afinal, mesmo que tenha de apelar para ameaças, UnLocke não decide simplesmente raptar Sun quando ela já está nocauteada por uma árvore na floresta. Por conta desse inusitado acidente (alguém explica o que atraiu a cabeça dela para aquela árvore?), Sun perde a capacidade de se comunicar em inglês, embora ainda consiga entender. Não sei se esse lapso terá algum propósito mais adiante, mas creio que seja apenas outro tributo à primeira temporada, assim como sua pequena plantação ou até a conversa final com Jack na praia. Sun pode ser descrita como esse fruto teimoso citado por Jack, já que pouco se importa com qual lado vai vencer nesta guerra. Tudo o que ela quer é reconstituir sua família e criar sua filha ao lado do marido, nada mais justo para alguém que passou a ser ignorada até pelos próprios escritores dessa história. Ainda mais depois da comovente cena em que Jin vê pela primeira vez as imagens de sua filha, fico em dúvida se teriam coragem de sacrificar um deles no final. Principalmente porque, como sempre defendi, Jin poderia ter morrido na explosão do cargueiro que Sun teria ainda muito a oferecer motivada por esse desejo de vingança. Mas claro que dessa maneira ela dificilmente seria trazida de volta à Ilha junto dos Oceanic Six.

Se infelizmente não tivemos a reunião do casal dessa vez, pelo menos pudemos vibrar com o aguardado embate entre Widmore e UnLocke, certo? Errado, pois mesmo separados por uma cerca sônica, a cena acabou sendo breve e frustrante demais, principalmente porque nessa época de guerra declarada, o encontro não poderia assumir apenas esse tom de discurso político. Por fim, o único fato que acabou valendo mesmo foi o retorno de Desmond, já há algum tempo antecipado por muitos. Sua missão na Ilha ainda não havia sido cumprida, e caberia a ele também salvar essa irregular temporada, colocando a série de volta aos eixos.
Felizmente, Desmond nunca decepcionou. Para ser sincero, grande parte do que vimos em sua realidade alternativa, que tomou conta da maioria do episódio, foram ideias recicladas de ocasiões anteriores, seja nas participações de Ms Hawking como nessa busca frenética por Penny. Já vi gente até comparando com The Constant, o que pra mim soa até como heresia, ou porque a pessoa não lembra ou porque não entendeu as razões que fizeram daquele episódio uma obra-prima. Além disso, sabendo da importância de Desmond nessas múltiplas "instâncias", era mais do que esperado que ele fosse a peça chave para revelar o propósito dessa realidade alternativa. O que me incomoda nessa reta final é que a série esteja sendo levada quase num piloto automática, sem se arriscar ou mesmo tentar surpreender. Mas nem preciso dizer que é um alívio ter alguma explicação do que se trata essa trama que se desenrola em 2004. Até agora, além de se adequar à linha do tempo da Ilha com o retorno de Desmond, não vejo nenhuma outra razão para terem mantido tanto segredo sobre isso.

Pelo menos já temos garantias de que não serve apenas como um epílogo para esses personagens. Afinal, apesar de ter conseguido aquilo que sempre desejou, a aprovação do seu então sogro Charles Widmore, Desmond enfrenta nessa realidade alternativa a falta de sua constante, Penny. Ele é alertado por Charlie, que num momento à beira da morte pareceu vislumbrar Claire nos seus delírios e, óbvio, se apaixonou perdidamente. É curioso como a morte parece ser o momento em que há uma convergência entre essas duas realidades, assim como aconteceu com Juliet nos braços de James no início da temporada. Por isso, como em alguns outros episódios dessa temporada, concentrando-se em abordar questões como fé, livre arbítrio ou destino, por exemplo, creio que o tema mais adequado para discutir essa jornada de Desmond para desvendar a realidade alternativa é através da reencarnação. Para quem acredita, uma das razões que as pessoas teriam para esquecer tudo aquilo que viveram em vidas passadas seria para não cair em dilemas morais. Analisando a situação de Daniel Faraday, que neste caso aparece como filho reconhecido por Widmore, seria bastante desagradável se ele lembrasse que foi sua própria mãe que o impulsionou para a morte certa na sua outra vida. Desconfio até que esse seja o motivo para Eloise tentar proteger essa sua nova vida de todas as mudanças que Desmond pretende fazer, principalmente pela forma como ela aparece "mimando" seu filho Daniel. Além disso, a própria busca pelo amor eterno desses personagens é decorrente da ação de forças além da vida, relações etéreas por assim dizer. Mas é claro que a realidade alternativa não vai (e não deve) se limitar apenas a essa questão, assim como não seria simplesmente resolvida pela busca do amor eterno como numa canção pop qualquer.

Ao contrário de muita gente especulando que o ponto de partida para a divergência dessas duas realidades fosse a explosão da Jughead que vimos no final da temporada passada, agora acredito que esse seria apenas o momento de despertar para esses personagens. Por mais que isso possa soar bastante claro para mim, posso estar redondamente enganado como em grande parte das previsões que fiz durante a série. Como espero que nessa conclusão tudo que vimos até aqui seja bem amarrado, acho que as viagens no tempo que acompanhamos no ano passado serão cruciais. Afinal, todos aqueles que participaram da Iniciativa Dharma contribuíram de certa forma para sua própria sorte, sendo trazido posteriormente/anteriormente para a Ilha. É esse o ponto que talvez explique tudo. A linha do tempo que aparecia contínua acabou se "distorcendo" e formando um verdadeiro ciclo, quando já não se podia distinguir causas de efeitos. Mas apesar de tantas mudanças nos anos 70, aquela que me pareceu mais importante foi quando Daniel Faraday orienta que enterrem a Jughead, no episódio de mesmo nome. Creio que a explosão da bomba na hora "errada" tenha sido a causa da Ilha ter sido submersa e portanto, o ponto de partida para essa nova vida. Infelizmente, não faço a menor ideia do que Desmond pode fazer para mudar isso, mas o final do episódio, quando ele se propõe a revelar a verdade a todos os envolvidos já é indício que será uma decisão a ser tomada em conjunto. Provavelmente mais uma disputa a se configurar, já que alguns estão claramente vivendo uma vida mais serena em 2004.
Mas o grande destaque do episódio foi mesmo o novo primeiro encontro de Desmond e Penny, dessa vez nas arquibancadas do estádio. Se esse episódio trata do amor como destino, o que mais me surpreende é que Henry Ian Cusick e Sonia Walger não formem um casal na vida real. Impressionante como dividindo uma cena por ano praticamente, às vezes até à distância, Desmond e Penny tenham uma química bem melhor do que muitos casais que passam temporadas juntos. Como sempre fui um espectador orientado muito mais pelos personagens da série do que pelos mistérios, já acabei perdendo grande parte do interesse que restava em relação à Ilha. Podemos todos voltar agora a 2004 e tentar consertar tudo aquilo que está errado que não teria mais razão alguma para reclamar.

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e.fuzii
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terça-feira, 30 de março de 2010

[LOST] 6x09 Ab Aeterno

por e.fuzii
A primeira vez que Richard Alpert apareceu em Lost foi recrutando Juliet Burke fora da Ilha, no episódio Not in Portland da terceira temporada. Desde então, seu personagem mostrava-se cada vez mais intrigante, principalmente por sua misteriosa condição de não envelhecer. Cercado por imensa expectativa, Alpert ganhou seu esperado episódio apenas nessa última temporada -- que segundo os produtores é o momento "certo" -- e tinha toda a responsabilidade de ser um acertar de contas desse passado remoto da Ilha. Com mais de 150 anos de existência, histórias interessantes não faltariam. Porém, chega a ser triste constatar que escolheram um período sem apelo algum, mostrando os acontecimentos que levaram Ricardo até aquela Ilha "maldita". Sua história começa em Tenerife, que não por acaso é uma das Ilhas Canárias em que ocorreu o maior acidente aéreo de todos os tempos (como citado por Walter White no episódio de Breaking Bad da semana passada). Além disso, entre o povo local corre uma lenda que garante a existência de uma ilha fantasma, conhecida como San Borondón, que muitos confessam ter visto mas nunca ninguém conseguiu provar. Porém, esse fato não seria suficiente para prender minha atenção nessa história ingênua da época Vitoriana, relatando um caso de amor e perda na vida de Ricardo, tantas vezes vista em outras oportunidades. A questão não é a simples repetição, mas não me garantir envolvimento suficiente para, por exemplo, acreditar nesse caso de amor. Aliás, só mesmo o talento de Nestor Carbonell, que passou por tantos problemas para decididamente voltar à série, para salvar esse longo flashback do desastre completo.

Após ser condenado por um assassinato acidental e buscar pelo perdão nos caminhos da fé, sua grande oportunidade surgiu no "Novo Mundo" (que já nem era tão novo assim), embarcando como prisioneiro no navio Black Rock. Mas sua conturbada chegada à Ilha, em meio a uma dramática tempestade, não foi o final de seu sofrimento. Acompanhamos todo o intrigante suspense vivido por Alpert enquanto ainda preso no porão da embarcação. Provavelmente o momento mais interessante do episódio (além da discussão sobre "o que é a Ilha?" que tratarei mais adiante), quando todos os mistérios da Ilha apresentavam-se diante de seus olhos, mas ele continuava absolutamente imóvel sem poder explorar nada além de seu cativeiro. Um teste de fé, que depois converte-se no seu principal motivo para manter-se por tanto tempo nessa Ilha. Depois de batizado por Jacob, Alpert decide servir como seu representante e pede pela vida eterna, podendo assim finalmente redimir-se de seus pecados. No entanto, em razão de revelações insatisfatórias e um roteiro pouco inspirado, esse episódio infelizmente não conseguiu me cativar. Em respeito à série acabei até reassistindo antes de escrever, principalmente depois de tantos elogios que li da crítica especializada. Não costumo fazer isso, mas para manter uma certa organização e concisão, citarei aquilo que mais me incomodou em tópicos:

1) "Estamos no Inferno". Desanimei assim que Alpert disse que todos estavam mortos, o que provavelmente se estendeu pelo resto do episódio. Essa foi uma das primeiras teorias que surgiu por parte dos fãs -- apenas substituindo por Purgatório -- e nem consigo acreditar que a essa altura alguém ainda ouse brincar com isso. Mais inacreditável ainda é ver Alpert depois de 150 anos regredir a esse ponto, principalmente quando já vimos ele mesmo recrutando Juliet no mundo exterior e até visitando John Locke durante a infância. Fora isso, é no mínimo estranho que Alpert cogite mudar de lado repentinamente, quando há poucos dias atrás estava disposto a desistir de viver. Óbvio que essa crise só serviu para motivar seu flashback.
2) Richard Alpert é apenas outro peão. Depois de tantos anos ao lado de Jacob, minha última esperança era que pelo menos Alpert tivesse alguma noção do propósito de cada um ali. Mas ele decidiu surtar e sair correndo pela floresta. Pra dizer a verdade não chega a me incomodar esse jogo milenar, ou mesmo que Jacob e seu antagonista tenham sido introduzidos tão tarde nessa história. Até por dedicarem tanto tempo a essa realidade alternativa já é indício que os personagens tem importância nessa conclusão. Afinal, foi na geração deles que Jacob sucumbiu. Mas nesse ritmo não sei mais em quem confiar, se o próprio UnLocke parece continuar com suas manipulações. Se só nos resta confiar no que Widmore estiver disposto a revelar, aí sim estamos definitivamente todos perdidos.

3) Black Rock atropelando a estátua de quatro dedos. Como muitos já sabem, minha implicância com essa parte da mitologia pesada é antiga. Mas realmente espero que todos aqueles que gostam sejam ao menos recompensados com resoluções dignas. Essa situação, com certeza, não deve servir de exemplo. Se há alguns meses atrás algum fã tivesse aparecido com a teoria de que a estátua seria destruída na chegada do Black Rock, provavelmente seria ridicularizado. A questão não é dar respostas simples, como muitos tentam defender os produtores, mas ser útil no contexto geral da série. Afinal, antes mesmo do episódio, todo mundo já sabia que ali era a morada de Jacob e um indício de que outra civilização havia passado pela Ilha. Até o final, nada mudou. Mesmo o fato de Richard Alpert ter chegado a bordo da embarcação já podia ser deduzido há alguns episódios atrás, quando ele dizia estar revisitando aquele lugar. Também não me agrada que usem sempre essa mesma justificativa de que tudo foi desejo de Jacob, como no caso da tempestade que "atraiu" o barco. Aí já parece desculpa de roteirista preguiçoso…

4) Isabella. Com o perdão da comparação, essa personagem me lembrou a Harper que surgiu como terapeuta de Juliet em The Other Woman e nunca mais voltou a aparecer. Pelo menos sua aparição naquela ocasião, tentando convencer Juliet que deveria impedir a liberação de gás na estação Tempestade, foi bastante parecida. Sobrou até para Hurley bancar o intérprete sobrenatural e passar a mensagem do além para Alpert, usando a velha fórmula que já estamos cansados de ver: revelar um segredo que só os dois conheciam para assim convencê-lo da aparição verdadeira de sua amada. E antes que venham com pedras, sim acredito em casos assim, então não adianta vir reclamar de má vontade.
Diante de todas essas razões, diria que o episódio praticamente se anulou, deixando um saldo quase zero no final. Fiquei com uma sensação de desperdício, como se tivessem forçado Alpert a surtar pela floresta para no final reestabelecer sua condição inicial. Embora reconheça que seria difícil encaixar esse flashback anteriormente, acho que de certa forma o foco dado até aqui às realidades paralelas acabou sendo desviado também. A única coisa que realmente me pareceu interessante foi saber mais sobre essa dinâmica envolvendo Jacob e o Homem de Preto, revelando a estratégia de cada um para vencer esse duelo. Se não fosse até falta de respeito pedir pela saída de Terry O'Quinn, diria que faz falta ver Titus Welliver atuando também em 2007. Enquanto Jacob tenta trazer novos habitantes para a Ilha e provar que eles escolherão o "melhor" caminho, o Homem de Preto tenta a todo custo corrompê-los e eliminar seu antagonista. Numa inspirada comparação com a rolha que não deixa a maldade espalhar-se pelo mundo, Jacob acredita que mantém isolado o problema na Ilha. Mas falta entender por que estando morto, o UnLocke ainda precisa buscar pelo seu substituto. É interessante também tentar encaixar as histórias que acompanhamos até aqui nas regras desse jogo. Sabemos, por exemplo, que Locke recusou-se a matar seu pai, embora fosse um requisito para tornar-se líder dos Outros na época, e acabou fazendo Sawyer vingar-se de Anthony Cooper. No entanto, vemos que Locke teve seu nome riscado da lista de candidatos e James não. Talvez fosse uma questão de balancear o mal, retribuindo aquilo que sofreu, mas ainda tenho dúvidas se aqueles nomes na caverna são mesmo de substitutos de Jacob. Embora, como disse antes, acredite nesses personagens como peças fundamentais para sua conclusão -- e o plano independente de Sawyer só vem confirmar isso --, meu único receio é exagerarem demais nesse embate de "bem contra mal" e a série descambar para uma lição de moral no final. Seria provavelmente a forma mais frustrante de terminar a série, principalmente por tanto tempo proporcionar tamanha discussão a partir dos mais variados pontos de vista.

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sexta-feira, 19 de março de 2010

[LOST] 6x08 Recon

por e.fuzii
Assim que soube que Sawyer teria um episódio como personagem principal, fiquei curioso para saber como encaixariam sua história nesse conceito de realidades "paralelas". Isso porque LaFleur já havia sido, na minha opinião, a mais perfeita forma de redimir um personagem na série e até alcançar sua redenção. Por sorte, foram sensatos em nem tentar por um momento usar dessa carta novamente. Como essa realidade alternativa sempre deixou claro com as constantes referências ao espelho, estamos basicamente diante de um reconhecimento (assim como também sugere esse título), ou seja, tentando perceber aquilo que mudou na vida desses personagens na ausência da Ilha e, muito provavelmente, de Jacob. Não é qualquer série que pode se dar ao luxo de, após cinco temporadas, decidir jogar seus principais personagens nas situações mais inusitadas sem cair numa paródia de si própria e, acima de tudo, não perder a essência de cada um deles. Por isso, não posso deixar de reconhecer os méritos de Lost, em pelo menos arriscar-se a propor uma outra forma de investigar seus personagens, ainda mais tão perto de sua conclusão. Essa semana, acompanhamos um outro James Ford, ainda atormentado pela morte dos pais após o golpe aplicado por Anthony Cooper -- o que só me deixou mais intrigado com sua relação com Locke --, mas que decidiu seguir a carreira de policial para canalizar esse seu desejo de justiça. Mais uma vez uma decisão que muda os rumos de seu destino. Se no passado James chegou a garantir a Charlie que nunca havia feito algo de bom em sua vida, nesse cenário ele não é capaz de sequer encarar sua imperfeita imagem refletida no espelho, carregada pela culpa de ter mentido ao seu parceiro Miles. Confesso que essa trama só ficou mesmo interessante por investir nessa dinâmica dos tempos áureos de Iniciativa Dharma. Desde sua primeira cena, quando James prende uma criminosa num quarto de hotel, acompanhamos intensos jogos psicológicos e de confiança, tanto na Ilha quanto em Los Angeles, como já era esperado num episódio centrado em Sawyer. No entanto, não posso deixar de reconhecer que essa aparição de Charlotte pareceu também outro golpe aplicado nos espectadores. Além da condição absurda de encontrar a pasta com informações confidenciais acidentalmente numa gaveta de James (o último lugar que ele deixaria alguém mexer), sua participação terminou sem propósito algum. Desconfio até que ela estivesse substituindo Cassidy, já que a atriz Kim Dickens está comprometida com as filmagens da aguardada série 'Treme', de David Simmons. Mas a maior frustração foi que, ao contrário da maioria dessas histórias de 2004, essa não me pareceu ter um sentido de conclusão. Podemos até especular que esse encontro final com Kate seja o pontapé inicial para que a conexão entre essas duas linhas do tempo comece a ser revelada, já que quando Sawyer facilita sua fuga no aeroporto, fica a impressão de que os dois possam ter lembranças além daquela realidade. Mas para desespero de alguns esse final talvez seja indício de mais um episódio focado em Kate pela frente…
Porém, enquanto James relutava em contar a verdade para seu parceiro em 2004, Sawyer abusou exatamente de sua sinceridade para ganhar a confiança tanto do UnLocke quanto de Widmore. E nesse caso, mesmo cumprindo seu desejo de matar Anthony Cooper, sabemos que ele nunca alcançou a paz por conta disso. Muito pelo contrário aliás, já que tentam manipulá-lo de todos os lados agora. Enviado numa missão de reconhecimento na ilha onde se localizava a Hydra, Sawyer se depara com a jaula onde ficou preso frente a frente com Kate, com o vestido dela ainda ali pendurado. Não acredito que essas memórias trouxessem de volta toda aquela paixão, mas talvez fossem a certeza de que ele não precisaria terminar (ou "morrer") sozinho nessa realidade. Ao contrário dos outros sobreviventes, que escolheram um dos lados para praticamente apostarem suas vidas, Sawyer prefere jogar esses oponentes um contra o outro para buscar seu próprio objetivo: partir da Ilha levando aqueles com quem ele realmente se importa. Resta saber quanto tempo ele conseguirá permanecer neutro nessa disputa. Com a chegada de Charles Widmore, mais dúvidas também surgem, principalmente quando lamenta que Sawyer saiba tão pouco sobre ele. Mas chega mesma a ser bastante confuso que após toda aquela disputa com Ben pelo controle da Ilha no passado, ele volte justamente para atrair o UnLocke para uma armadilha. Tudo leva a crer também que Desmond (sozinho ou acompanhado) esteja preso com os cadeados naquele compartimento secreto do submarino, embora minha torcida por isso provavelmente prevaleça sobre uma análise mais sensata.
Já a relação entre Kate e Claire, que vinha a cada semana ficando mais tensa, pode ser resumida para mim na confusa direção (assinada pelo competente Jack Bender, diga-se) de uma cena envolvendo o grupo liderado pelo UnLocke. Quando ele revela àqueles que "resgatou" no Templo que o restante morreu vítima do monstro de fumaça, sua primeira reação é acalmar as crianças, quase como num instinto paterno. Mas nesse momento, a câmera perde totalmente o sentido e decide focar na estranha tentativa de Claire em pegar na mão de Kate. Apesar de achar engraçado o fato de Sayid nem reagir quando Kate estava em perigo, o que me preocupa é essa situação de loucura ser confortável demais para explicar qualquer reação de Claire ou Sayid -- como já aconteceu com ele anteriormente, aliás. E principalmente pelas duas mulheres estarem riscadas na lista de candidatos, essa disputa pela guarda de Aaron acaba sendo um tanto quanto dispensável no contexto geral. Vale a pena talvez pela tentativa do UnLocke de acalmar os ânimos das duas e mostrar até certa humanidade ao revelar a Kate que também sofreu com uma mãe perturbada, ainda que suas lembranças pudessem se confundir com as do próprio Locke. Mesmo suas razões para canalizar o desespero de Claire para fazer o seu bem, deixando-a procurar seu filho inutilmente com os Outros, me pareceram bastante dignas. Mas nada mais interessante do que a forma como ele descreve os problemas que enfrentou durante a vida e que ainda não conseguiu superar, mas poderiam ter sido evitados numa situação diferente. Não são afinal, esses tipos de problemas que todos esses personagens tiveram de lidar durante o decorrer da série? E não é nessa realidade alternativa que muitos deles encontram enfim uma nova chance?

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e.fuzii
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sexta-feira, 12 de março de 2010

[LOST] 6x07 Dr Linus

por e.fuzii
Para todos aqueles que pediram por mais tempo acompanhando o professor Benjamin Linus em The Substitute -- ou até sugeriram um spin-off dessa premissa -- esse episódio não poderia ter começado mais promissor. Logo de início, Ben narra a seus alunos o exílio de Napoleão Bonaparte na ilha de Elba, privado de seus poderes mas mantendo o cargo de Imperador, que é uma situação bastante semelhante com a que ele viveu durante toda a série, sendo respeitado como líder mas sem poder tomar nem um passo a frente por conta própria. Ou pior, sem entender com precisão toda dinâmica que envolvia cada ordem que recebia para proteger a Ilha. O próprio Benjamin já havia sido condenado ao exílio antes, quando expulso da Ilha ao girar a roda de burro por conta própria. Mas apesar de encontrar uma forma de retornar, ainda que contrariando todas as regras vigentes, seu período de domínio havia chegado ao fim. Enfrentando a mais profunda frustração, Ben atingiu o limite de seu desespero quando assassinou Jacob, aquele que resolveu seguir cegamente em busca de poder, mas em troca perdeu seu único elo com a humanidade: a filha Alex. Afinal, como já estamos cansados de saber, para caminhar ao lado de Jacob é preciso ter fé. E nada mais significativo do que ver Richard Alpert disposto a abrir mão de sua própria vida após ser abandonado pelo seu líder, percebendo que esse caminho havia chegado ao fim inutilmente.
Já no 2004-alternativo, Dr Linus mostra-se incomodado com a postura do diretor Reynolds em administrar a escola. Mesmo assim ele precisa de um empurrãozinho do professor substituto John Locke para decidir fazer alguma coisa. A verdade é que esse Ben Linus apresenta-se como um professor contido e até conformado com sua vida, sendo alvo até das brincadeira de Arzt -- que volta a aparecer justamente num episódio que relembra os explosivos do Black Rock. Podemos perceber sua postura ao cuidar de seu pai, trocando seu tubo de oxigênio e ouvindo suas lamentações por um dia ter deixado a Ilha. É a primeira vez que alguém menciona a Ilha nessa realidade alternativa, provando que ainda não havia submergido pelo menos até a Iniciativa Dharma se estabelecer. Roger até pondera sobre como seria a vida deles caso tivessem permanecido lá, indício de que eles nunca foram forçados a sair -- no caso do Incidente, por exemplo --, mas que foi sim tomada essa decisão. Ben ouve tudo isso em silêncio, talvez tendo até noção exata das consequências dessa escolha. Diante das coincidências inusitadas que cercam essa linha do tempo, a começar pela presença de Alex como aluna do colégio (alguém consegue explicar como Rousseau foi também parar em Los Angeles?), Ben baseia-se numa denúncia de escândalo envolvendo Reynolds e uma enfermeira para tomar o cargo do diretor. O que ele não esperava era ser surpreendido por uma ameaça ao futuro de Alex caso levasse adiante seu plano de chantagem. Talvez por todo seu retraimento, Ben não tivesse coragem de enfrentar essas ameaças, ainda que todas aquelas informações lhe deixassem numa vantagem confortável, podendo exigir o que quisesse do diretor. Porém, entendo que esse dilema era necessário como paralelo para aquilo que acontecia e já aconteceu com Ben na Ilha. Como na maioria das outras tramas dessa realidade alternativa, essa situação serviu como uma segunda chance de Ben em relação a Alex, escolhendo garantir o futuro da garota ao invés de seguir sua ambição de tornar-se diretor.
Enquanto isso na Ilha, acompanhamos o grupo liderado por Ilana chegando novamente à praia, numa trama bastante enxuta dessa vez. Intercalada com todo o plano de chantagem do Dr Linus em 2004, houve uma prolongada sequência de Ilana mantendo Ben como refém, fazendo com que ele cavasse literalmente sua própria cova. Talvez fosse uma lição óbvia demais, mas para mim funciona exatamente por colocar Ben em controle de sua morte, em contraste com a condição de Richard Alpert, dependente da boa vontade de Jack e Hurley para morrer. No Black Rock, lugar onde Alpert diz estar retornando, Jack deixa para trás todo seu ceticismo e finalmente aceita que seu destino não depende apenas dele. Com base na informação de que os candidatos não poderiam morrer, ele decide testar aquilo que viu no farol, que tinha um propósito para chegar à Ilha, e assim reacende também a crença de Alpert, disposto agora a também se unir ao grupo na praia. Parece ter ficado claro que Jacob age aplicando testes em seus seguidores, e apesar de ter demorado a fazer sentido para Ben Linus, seu caso não foi diferente. Ele precisava passar por todas essas provações, de modo que segundo a leitura de Miles, Jacob confiava na retidão de Ben até os últimos momentos. Mas abandonado como estava, Ben resolveu agarrar-se à sedutora chance oferecida pelo UnLocke, ao menos até que fosse impedido por Ilana.
Acho que nem preciso destacar a atuação de Michael Emerson, mais uma vez transmitindo em cada palavra o desamparo de seu personagem, fazendo com que sentisse até pena de sua condição. Se quisesse, Emerson teria amplas chances de ganhar mais um Emmy através dessa cena com Ilana (*). Afinal, nesse dilema o episódio se resolveu, com Ilana perdoando-o pela morte de Jacob aquele que ela considerava como pai, enquanto Ben desiste de sua ambição pelo poder e decide encarar as consequências. Para alguns talvez seja fácil demais escrever uma série baseada na fé, já que hoje podemos considerar até que a morte de Jacob serviu como sacrifício para tirar Ben do caminho da auto-destruição. Mas inevitável dizer que está funcionando. No final, temos mais uma daquelas saudosas montagens dos personagens se reencontrando na praia com a bela trilha de Giacchino ao fundo. Até que Widmore aparece num submarino, pronto para mais uma vez invadir a Ilha. Provavelmente era aquele que Jacob já esperava, mas por qual razão nem imagino. É preciso lembrar que foi Widmore quem instruiu Locke a retornar para a Ilha, achando que a tal guerra estava para acontecer e o lado errado sairia vencedor. Talvez nem fosse a hora certa dele aparecer, já que só agora as duas equipes rivais parecem bem definidas. Mas será curioso, e até irônico, se ele tiver de caminhar ao lado de Benjamin nessa reta final de Lost.

(*) Após vencer o Emmy no ano de 2007, Terry O'Quinn decidiu se retirar da disputa do prêmio para dar maior chance aos seus colegas serem indicados. Imagino que essa será a postura seguida por Michael Emerson também. A não ser que todos decidam se inscrever por ser a última temporada da série.

Fotos: Reprodução.

e.fuzii
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segunda-feira, 8 de março de 2010

[LOST] 6x06 Sundown

por e.fuzii
Aos poucos que por acaso se importaram com a falta dos comentários sobre esse episódio aqui no blog, peço sinceras desculpas. Não preciso entrar em detalhes sobre motivos pessoais, mas a principal explicação é que essa foi a primeira vez na temporada que me senti decepcionado ao final do episódio. E como já passou quase uma semana e sei que escrever/ler reclamações é muitas vezes desgastante, serei conciso dessa vez. Óbvio que essa decepção não é pelo fato de Sayid ter sido o personagem principal da semana, até porque normalmente seus episódios são repletos de momentos de ação, algo que essa temporada ainda estava devendo. E dessa vez, não foi diferente. Mas o maior problema esteve na conclusão desse arco envolvendo o misterioso Templo dos Outros, mantido em segredo por mais de 3 temporadas, que não serviu para nada além de ponto de encontro e palco de uma provável ressurreição de Sayid. Os dois personagens introduzidos nessa ocasião, Dogen e Lennon, foram apenas desperdício de tempo e talento dos atores. Nem mesmo quando Dogen conta sobre o acidente do filho e de como foi levado até a Ilha chega a ser interessante, porque não sai do padrão que já conhecemos de recrutamento de Jacob. Pra mim, isso é motivo de preocupação porque foi o primeiro dos grandes mistérios da série revelados nessa última temporada, e que pareceu ter sido simplesmente riscado de uma lista de pendências. Mesmo não sendo admirador desse lado da mitologia da série (ou talvez por essa razão), não me importo com o que venham inventar para garantir explicações para os descontentes, contanto que não atrapalhe o desenrolar da trama. Sinto também que em muitos casos, quanto mais adiam para revelar algum mistério, mais frustrante acaba sendo. Por exemplo, o que não consigo entender ainda é por que manter em segredo algo tão simples como o nome desse antagonista de Jacob. A não ser que signifique uma verdadeira reviravolta, ou por ser um personagem já conhecido ou relacionado a alguma figura importante, parece que estão apenas se divertindo vendo quantos nomes e trocadilhos conseguimos inventar para se referir a ele.
Por outro lado, Sayid proporcionou a tensão que esse episódio precisava, servindo mais uma vez de peça fundamental a cumprir ordens e ser movido de um lado para o outro. Embora fosse uma tendência que sempre tentasse resistir, Sayid quando convencido é capaz de seguir até suas últimas consequências, seja torturando um prisioneiro, matando uma galinha ou tirando a vida de uma criança na ligeira esperança de eliminá-la de seu futuro. Mas ele sempre viveu cercado de culpa, a ponto de em seu 2004-alternativo ter renunciado ao amor de Nadia, que acaba formando uma família ao lado do irmão de Sayid. Nesse caso, ele parece ter encontrado uma ilusória paz e resiste aos apelos do irmão para resolver suas pendências. Mas basta ser capturado e ameaçado por ninguém menos que o aterrorizante Keamy, para sua verdadeira natureza se manifestar. Depois de tomar controle da situação e colocar Keamy na mira de sua arma, Sayid sente-se obrigado a puxar o gatilho, mesmo diante dos apelos para que esquecessem do passado. É assim também que se dá um inusitado encontro com Ben no Templo, que tenta convencê-lo de que ainda resta tempo para se salvar. Mas Sayid finalmente decide abandonar esse seu conflito interior. Assim como o pôr do Sol, trocando o dia pela noite, serve de contagem regressiva para o UnLocke agir, é inevitável que a escuridão dominasse Sayid.

Na verdade, achei que o roteiro mostrou-se bastante turbulento ao tratar desse ciclo de manipulações, apesar desse estado zumbi de Sayid ser cômodo para qualquer tipo de explicação. Mas pareceu fácil demais ganhar sua confiança, tanto desafiado por Dogen como descobrindo pelo UnLocke que havia sido traído. Além disso, chega a ser inexplicável que Dogen fosse tão ingênuo na volta do iraquiano ao Templo, mesmo que já conformado com sua morte. Pelo menos agora os personagens estão separados em dois grupos que, embora pareçam representar a dualidade bem e mal, continuam sem uma linha divisória clara. Principalmente porque ainda não sabemos se o plano que seguem é confiável. Até a chance que o UnLocke dá aos habitantes do Templo -- mesmo com base em ameaças -- prova que a forma de seduzir é muito parecida com a de Jacob. Afinal, o UnLocke não promete a volta de Nadia, mas apenas sugere que existe essa possibilidade, cabendo a ele acreditar ou não. São em casos assim que chego a concordar com quem prevê que essa linha do tempo alternativa em 2004 será oferecida aos personagens, caso decidam acompanhá-lo e abandonem a Ilha. Mas é importante sempre lembrar que quem não acreditava na capacidade dos homens de viverem em paz era o próprio Homem de Preto, portanto acho pouco provável que ele instigue os personagens a ponto de extrair o pior deles.

Fotos: Reprodução.

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