Como escreveu o Hélio em seu texto, estivemos acompanhando a Mostra de São Paulo no último mês. Ele mais do que eu, na verdade. Contabilizando tudo que tinha visto antes e depois, assisti a 25 filmes no total e embora não tenha sido um ano tão bom na seleção da Mostra, algumas coisas me impressionaram bastante. A seguir coloco também meus favoritos, que servem como recomendações:
Tulpan, de Sergey Dvortsevoy
É uma obra-prima! Nas 5 primeiras cenas do filme, já estava completamente impressionado com o domínio que o diretor tem de sua câmera. Muitas conversas são filmadas num plano fechado enquanto várias coisas acontecem ao redor e às vezes as próprias ações são interrompidas quando alguém "invade" a cena. Parece até documentário -- chega a ser difícil distinguir quem é ator ali e quem não é --, com diversas situações espontâneas acontecendo, principalmente os fascinantes sobrinhos de Asa. Por outro lado, a montagem também mostra-se espantosa: todas as cenas são relevantes para contruir sua belíssima trama.
Sonata de Tóquio, de Kiyoshi Kurosawa
O "outro" Kurosawa nunca teve reconhecimento anteriormente, principalmente por suas obras de típico terror japonês, que virariam produto de exportação nos últimos tempos. Mas com esse novo filme, o cineasta resolveu apresentar sua visão de um drama familiar. Em pouco mais de duas horas, é possível perceber um retrato fiel da crise da sociedade patriarcal japonesa, com todos os assuntos sendo tratados com propriedade: a disciplina escolar, a escassez de empregos, uma velha geração sendo substituída no trabalho, a falta do militarismo japonês, a questão da mulher, a rigidez e orgulho japoneses. O ponto de partida é a demissão do patriarca da família, mas que logo vai dando espaço aos outros 3 membros do lar dos Sasaki aparecerem também, num processo de conhecimento, desenvolvimento, reestruturação e conclusão, semelhante a própria "sonata" do título. E nesse caminho de transformação, o mais intessante é como a própria estrutura da obra é afetada: em dado momento, já não sabemos mais se o protagonista ainda é o marido ou se é a mulher.
Horas de Verão, de Olivier Assayas
A abertura do filme já denuncia que tudo se passa se não ao redor, pelo menos relacionado a casa que une a família nas "horas de verão" do título. Após a morte da matriarca que ali habitava, o filme poderia simplesmente tratar do entrave sobre o destino da herança que os três filhos recebem. Mas não, aqui a questão é dar valor às memórias dessa família. Todos os objetos e a própria casa vão sendo vendidos, doados a museus ou mantidos como relíquias. Em meio a tudo isso, a discussão aqui estabelece as diferenças entre o valor monetário e sentimental das peças, enquanto questiona a própria forma de se apreciar a arte nos museus. Mas apenas isso seria talvez detalhista demais, então numa interpretação mais "macrocósmica" podemos perceber o quanto a modernidade e a globalização -- com cada um dos filhos vivendo num país diferente -- tem deixado valores para trás. E isso não vêm na forma de uma crítica, mas sim da constatação de que a beleza do mundo continua aí para ser vivida e sempre lembrada.
Para bons entendedores, a boa notícia é que o filme já está disponível em DVD na França.
Caixa de Pandora, de Yesim Ustaogu
Esse foi um dos meus filmes surpresas da Mostra. Numa outra sessão ouvi alguém falando bem e decidi escolher por ele ao invés de enfrentar os conflitos (em todos os sentidos) de Che. Não me arrependi, e aposto que na sessão lotada muita gente também saiu surpreendido. A história gira até em algo recorrente nesses últimos tempos, uma senhora sofrendo de Alzheimer. Depois de sair vagando misteriosamente na região montanhosa que habita, a velhinha acaba sendo resgatada e seus filhos resolvem trazê-la para a cidade grande para receber cuidado especializado. E como o próprio título já sugere, a alegoria da caixa de Pandora surge diante de nossos olhos. Enquanto os filhos não conseguem se unir no objetivo comum de cuidar da mãe, vamos conhecendo melhor a disfuncional família, cheia de fraquezas e covardias. O porto seguro da velhinha acaba sendo o neto, que assim como ela -- com poucas perspectivas de seu passado esquecido --, só resta ansear pelo futuro. Na companhia dos dois, temos cenas excelentes, carregadas de emoção e veladas pelo silêncio, chegando até a ser cômicas em alguns momentos. Tudo isso graças ao retrato primoroso da adorável velhinha, vindo da melhor atriz dessa Mostra para mim, Tsilla Chelton.
Depois da Escola, de Antonio Campos
Com a falta do vencedor da Palma de Ouro deste ano, "Entre Les Murs" de Laurent Cantet, essa estréia de Antonio Campos compensou como uma grata surpresa para mim. Ambientado em um colégio-internato próximo de Nova York, o filme mostra com propriedade a era da "explosão da comunicação" em que vivemos, com vídeos virais distribuídos por toda a internet, banalizando a violência e o sexo. Por outro lado, o que vemos nas personagens é exatamente um problema crônico de comunicação: a certo ponto, em meio a um telefonema, o protagonista Robert resolve queixar-se a sua mãe sobre como ele vive deslocado naquele lugar, e ela rapidamente sugere que eles mudem de assunto para algo mais aprazível. As duas cenas durante o almoço dos garotos, com alta dose de grosseria machista, também são exemplos. Mas o ápice do filme ocorre com Robert filmando sem querer duas irmãs morrendo de overdose num dos corredores do colégio. Toda a sua impotência com a situação -- durante e depois --, mostram o garoto a ponto de explodir, enquanto as outras pessoas tentam apagar essa mancha do passado, sempre reconhecendo as duas garotas como ótimas pessoas. Remanescente direto em tom e estilo de "Elefante", Antonio Campos mostra de uma forma bastante introspectiva um personagem encurralado, que poderia estar "explodindo" em qualquer lugar do mundo. Destaque também para a primeira relação séria de Robert com Amy, que rende belíssimas cenas intimistas entre os dois.
e.fuzii
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
[Mostra Int. de Cinema - SP] Take Two
Marcadores: Mostra Internacional de Cinema SP
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
[Mostra Int. de Cinema - SP] Take One
Desde o final do mês de Julho, quando Dani falou sobre o filme de "Arquivo X", que não há no blog um comentário sobre cinema. Vamos, então, reparar este erro destacando alguns dos principais filmes vistos na 32ª Mostra Internacional de São Paulo, um dos maiores eventos cinematográficos do país que encerra sua repescagem hoje. Dos comentaristas do blog, eu e Fuzii estivemos lá e vimos alguns dos principais filmes do ano que (espera-se) cheguem logo ao circuito comercial.
Começando por mim, eis aqui meus filmes prediletos da Mostra que recomendo para todo fã do bom cinema:
1. Tulpan, de Sergey Dvortsevoy
Asa é um jovem que acaba de retornar da marinha. Sua família é de nômades que vivem nas distantes estepes do Cazaquistão, cuidando de ovelhas no meio do nada, em região seca e constantes tempestades de areia. Mas Asa quer ficar e se tornar pastor de ovelhas. Pra isso, precisa se casar, mas a única jovem disponível no local o dispensa, por ter orelhas “grandes demais”. Com este simples argumento, é de se pensar que veremos um filme sobre um rapaz tentando conquistar uma moça, em meio a uma região exótica de cultura bem distante da nossa. Mas “Tulpan” ultrapassa toda obviedade e encanta com seu olhar muito próximo e ético para o cotidiano da família do protagonista. O que mais impressiona é como a câmera se relaciona com os personagens, em planos-seqüência belíssimos que captam a vida acontecendo na tela, mas sem esquecer-se do extra-campo, valorizando todas as particularidades de cada membro daquela família, e um som fantástico que enfatiza o onipresente vento da região, além das lindas canções entoadas por uma garotinha. Como se não bastasse, “Tulpan” é engraçado e tenso: dificilmente você verá uma seqüência de parto tão angustiante quanto a existente no filme. E é o parto de uma ovelha! A boa notícia é que o filme foi exibido com legendas em português, o que garante a distribuição para breve.
2. Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes
O filme mais engenhoso e criativo visto nesta Mostra, o português “Aquele Querido Mês de Agosto” é parte documentário, parte ficção. E nem uma coisa, nem outra. O diretor Miguel Gomes registra as festividades do mês de agosto em uma região de Portugal, trazendo relatos de moradores, histórias curiosas de habitantes e particularidades do local. Claramente dividido em duas partes, o filme começa de forma documental para na sua segunda metade trazer uma história de amor fictícia que o espectador poderá identificar vários elementos vistos anteriormente. Mas a ficção se mistura com cenas documentais e uma das coisas que impressiona no filme é a fluidez que nunca torna a experiência de assisti-lo algo difícil, confuso e maçante. Na verdade, é impossível não pedir por uma revisão de “Aquele Querido Mês de Agosto”, tamanha a sua riqueza e complexidade, tanto na realização quanto na quantidade de informações vistas, mas sem deixar o espectador desavisado com um grande “não entendi” na cabeça. Além de tudo é hilário, pontuado por incríveis canções portuguesas. Gomes fez um filme sobre o prazer de se fazer cinema, onde a metalinguagem está presente o tempo todo. É uma obra onde vemos cineasta discutindo com o técnico de som, uma das muitas seqüências geniais de um filme absolutamente maravilhoso e surpreendente.
3. Leonera, de Pablo Trapero
Julia está grávida e, acusada de matar o homem com quem vivia, é enviada para uma prisão onde ficam gestantes e mães com filhos até quatro anos de idade. Sucesso no último Festival de Cannes (mas sem ter levado prêmio algum), este novo filme de Pablo Trapero segue uma tendência do atual cinema argentino de acompanhar trajetórias de personagens comuns com um foco firme na realidade, privilegiando corpos e sensações causadas por estes. Trapero, autor de obras muito interessantes como “Nascido e Criado”, “Família Rodante” e “Do Outro Lado da Lei”, faz seu melhor filme. “Leonera” se passa quase todo numa prisão e o diretor foge de estereótipos como o do “policial cruel”, “prisioneiro malvado”, etc. Trapero esquadrinha cada canto do presídio em lindos movimentos de câmera e acompanha sua protagonista evitando julgamentos morais e estabelecendo vínculo com o espectador sem apelar para maniqueísmos. Nunca sabemos, por exemplo, se Julia cometeu mesmo o crime e, tal como nos filmes dos irmãos Dardenne, só nos resta ficar incomodados ou torcer pela personagem, em seus atos imprevisíveis. A atriz Martina Gusman está excepcional ao dar vida a essa verdadeira força da natureza que encontra no filho a razão de viver. Ao final, lembrei de “Kill Bill”, também sobre uma leoa que faz de tudo por sua cria.
4. Segurando as Pontas, de David Gordon Green
Um oficial da justiça acaba de comprar a “pineapple express”, baseado raro de excelente qualidade. Ao testemunhar um crime, deixa a maconha como rastro que levará os assassinos até seu traficante. Agora ambos têm que fugir e encontrar uma solução para a enrascada que se meteram. No meio de tantos filmes de propostas mais “sérias”, é preciso ressaltar uma obra que se compromete com o mais puro humor e “Segurando as Pontas” traz um amontoado de piadas que faz com que todo o cinema ria alto do início ao fim da projeção. A trupe liderada por Judd Apatow e Seth Rogen faz uma espécie de continuação para o brilhante “Superbad”, que trazia adolescentes se preparando para a maturidade, tentando lidar com sexo, bebidas e, principalmente, a possibilidade de separação do que parece ser mais caro a estes autores, a amizade. “Segurando as Pontas” dá continuidade a esse desenvolvimento da vida, agora com jovens adultos se inserindo no mercado de trabalho, fugindo de compromissos amorosos mais sérios e passando da inocência do álcool para drogas ilícitas. E a amizade entre homens continua sendo a coisa mais séria do mundo. O que faz ser um grande filme é essa possibilidade de percebermos um coerente conjunto, uma visão de mundo muito particular e até mesmo ética da vida, em uma trama absolutamente hilária, de diálogos inteligentes, passando do humor sutil para o mais escrachado com uma facilidade que só os grandes comediantes são capazes. Desde a abertura, seqüência em preto-e-branco engraçadíssima que nos mostra como a maconha foi considerada ilegal nos EUA, o filme nos joga em situações absurdas com resoluções surpreendentes e que pedem toda a aceitação do espectador. Há vários personagens engraçados, mas é James Franco no papel do traficante que se sobressai absoluto, se revelando um ator cômico incrível. Inexplicavelmente, saiu a informação que o filme infelizmente será lançado no Brasil diretamente em DVD. Uma pena, porque pela sessão que estive, seria sucesso garantido.
5. Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte
Um filme protagonizado pelo mais novo galã global, Cauã Reymond, pode ser bom? Cheio de preconceito, fui ver “Se Nada Mais Der Certo” e achei não só o melhor filme nacional visto este ano, como o próprio Reymond está muito bom no papel de um jornalista que vive de bicos e, totalmente endividado, irá se envolver com uma pequena traficante e um taxista, na busca de soluções “alternativas” quando nada mais dá certo. O filme de José Eduardo Belmonte é uma pérola ao retratar a difícil vida da classe média brasileira, sem tornar seus personagens representantes de qualquer classe ou de qualquer discurso: eles existem por si mesmos, têm vida própria e o grande achado do filme é ver como estas pessoas constroem laços entre elas em meio à dura realidade que os atravessa. Belmonte foge de clichês, não vitimiza seus personagens ou tem uma visão pessimista da nossa sociedade, fazendo críticas sóbrias e interessantes. Ao menos uma seqüência ficará marcada: um assalto ao som de Saltimbancos, com assaltantes usando máscaras de FHC, Sarney e Collor, em montagem paralela a um debate entre Lula e Serra exibido na TV (o filme se passa durante as eleições de 2006). Esta é uma das muitas cenas bem dirigidas por Belmonte, que aposta em narrações em off, fragmentação da narrativa, frases de efeito que pontuam a trama e outros tantos recursos que nunca tornam a obra algo esquizofrênico, há um todo muito coeso e seguro. No fim, é a história de gente fodida que faz do encontro entre elas maneira de sustentação para a vida. No elenco, destaque absoluto para Caroline Abras que faz da traficante Marcin a personagem mais fascinante e interessante do filme. De se notar também a bela metáfora da figurinha do Campeonato Brasileiro de Futebol que a criança falta para completar seu álbum: a de um jogador que desafiou a corrupção dos cartolas do futebol. Discreto e bonito, como todo o filme.
Outros cinco grandes filmes vistos:
6. Horas de Verão, de Olivier Assayas
7. Sonata de Tokio, de Kiyoshi Kurosawa
8. Lições Particulares, de Joachim Lafosse
9. Encarnación, de Anahí Berneri
10. Acne, de Federico Veiroj
Hélio.
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