
Ano passado me comprometi a escrever sobre a 6ª temporada de “House” e falhei miseravelmente, comentando apenas os três primeiros episódios. Os motivos foram vários, mas um deles sem dúvida foi a total falta de estímulo com uma série cada vez menos interessante. Foi uma temporada fraca, de poucos momentos memoráveis, que curiosamente teve um episódio final muito bom, embora com uma conclusão nada promissora.
Não acredito que “House” volte aos bons tempos de suas primeiras temporadas. Tentarei resumir aqui o percurso que a série fez e quais motivos vejo como responsáveis pela baixa qualidade atual. Por isso, também não tentarei escrever sobre a nova temporada que começa esta semana. Não faz sentido, para mim, reclamar das mesmas coisas a cada novo episódio, ou citar as boas piadas, descrever o caso da semana e rir do último comportamento inusitado de House. Vários blogs farão isso melhor que eu. Mas escreverei sobre esta sétima temporada quando achar que devo.
Segue o (um pouco extenso) resumo crítico da série:
Autores de séries de TV sempre passam por conflitos que ultrapassam as histórias que criam: a recepção da audiência pode alterar em muito os planos originais. Se a série faz sucesso, pode se estender e resultar em tramas que não estavam previstas para acontecer (Prison Break); pode ultrapassar o material que lhe deu origem e seguir com suas próprias pernas (Dexter); os fãs podem até mesmo serem responsáveis por todo o fio condutor de um ano inteiro (a 3ª temporada de Nip/Tuck). E ainda tem os problemas diversos que podem surgir com o passar dos anos, que podem mudar as tramas de forma irreversível, como brigas e confusões no elenco (Lost, Grey’s Anatomy) ou mesmo a morte inesperada de um ator (The Sopranos).
Os autores de House passam pelo conflito mais interessante. Não só porque este conflito se renova a cada nova temporada, mas porque diz respeito à própria natureza da série, estrutura e protagonista: a necessidade de mudança e evolução naquilo que fez sucesso exatamente por não mudar e não evoluir.
É incrível o sucesso das primeiras temporadas de "House." Numa época em que as mais aclamadas e prestigiadas séries de TV exigem cada vez mais atenção e dedicação do telespectador, "House" adota uma estrutura clássica que permite que qualquer pessoa veja seus episódios sem necessidade de um acompanhamento rigoroso. Você pode ver um episódio qualquer da primeira temporada e depois ver outro do ano seguinte que não se perderá.
A estrutura quase sempre é a mesma: alguém manifesta um terrível sintoma na abertura do episódio (e com o tempo os roteiristas começarão a brincar com nossa expectativa sobre quem será o acometido da vez), o Dr. House e sua equipe tiram algumas conclusões precipitadas, tratamento é realizado, há uma piora considerável, diagnósticos são discutidos, paciente apresenta sintomas cada vez mais inusitados, novos diagnósticos, e acaba com House descobrindo a solução do problema, normalmente com uma epifania que surge de algum diálogo prosaico com um dos personagens. Os episódios funcionam como elegantes quebra-cabeças, como uma boa história de detetive, onde House usa a lógica de um Sherlock Holmes (são vários os aspectos na série que fazem alusão ao personagem de Conan Doyle) e nos entretêm com o processo investigativo.
Junta-se a isto a própria personalidade do protagonista, razão maior do sucesso da série. Grosso, mal educado, sarcástico e extremamente desagradável, Gregory House se tornou um dos maiores ícones culturais deste século. O personagem fascina tanto porque o incômodo que ele causa é na ordem moral das coisas. Ele não se importa para ideias pré-concebidas sobre o que é o Bem. Tão pouco pode ser visto como uma pessoa má. Se a moral dita em quê devemos acreditar, pensar e fazer, House não está inscrita nela, pois pensa e age de acordo com o que considera certo para aquela situação específica. Não há o Bem e o Mal em si. Com isto, implica que House acaba por não respeitar as normas de boa convivência e, livre das amarras que todos, um dia ou outro, já desejaram se libertar, cria esta enorme admiração que o mundo todo tem pelo personagem (pesquisa em 2008 apontou a série como a mais vista do planeta).
E então, por praticamente três temporadas a série funciona maravilhosamente bem se sustentando na força do seu personagem (sempre impressiona o brilhantismo dos diálogos, aliando humor e discussões filosóficas; e a atuação/presença de Hugh Laurie) e na estrutura dos roteiros que, para compensar o engessamento, nos traziam casos médicos incríveis.
Infelizmente, isso parece não ser suficiente para os autores (e espectadores?) que, aos poucos, começam a “movimentar” tramas e personagens, provavelmente pensando no bem e na verossimilhança de uma lógica narrativa e psicológica que pede por evolução constante. Esta lógica, que não deveria fazer parte da série, exige, por exemplo, que Dr. House não pode fazer tudo o que faz sem alguém que questione seus atos. E já na primeira temporada temos um novo diretor na Clínica que dificultará seu trabalho. No terceiro ano, teremos um policial que fará a vida do protagonista um inferno. Não por acaso, os episódios que envolvem estas tramas são os mais fracos até este ponto.
Mas o grande tiro no pé vem ao final da terceira temporada: na lógica “psicológica”, não parece mais ser aceitável que a equipe de House permaneça daquela forma, e então Foreman pede demissão, Chase é demitido e Cameron toma as dores de todo mundo e pede as contas. House começa o ano seguinte sozinho e a ideia aí (boa, aliás) é que mesmo ele precisa de um outro para fazer o que faz melhor. Na premiere da quarta temporada, House até pede a um faxineiro da Clínica, para especular possíveis diagnósticos para a paciente da semana.
O que temos em seguida é a escolha da nova equipe, com episódios bem divertidos, principalmente pela possibilidade de House conhecer, e provocar ao máximo, médicos com as mais diversas personalidades. E ainda demitindo-os, um a um. O mais interessante talvez seja a eliminação do melhor deles, um senhor que descobrimos depois que sequer tem licença médica. Claro que isso não seria um motivo pra House, e a justificativa é que eles pensam de uma forma muito parecida. É algo que está bastante presente na série: precisamos de um outro, sim, mas para que nos complete pela diferença e não pela semelhança.
Embora seja prazeroso acompanhar este arco da série, traz conseqüências desastrosas que duram até hoje: a contratação de Thirteen, Taub e Kutner só fez descentralizar e tirar de foco ainda mais o que sempre interessou na série, ou seja, House e as investigações médicas. Isso porque os novos médicos tornaram-se substitutos dos anteriores apenas na equipe de diagnóstico, com os autores da série incapazes de se livrarem de Foreman, Chase e Cameron. O resultado disto é que, a partir daí, os roteiristas passam a lidar com um grupo maior de personagens, arranjando dramas pessoais para cada um deles. E tome-lhe doença degenerativa para Thirteen, casamento problemático para Taub, romance entre Foreman e Thirteen, etc. E com isso, cada vez mais freqüente o péssimo recurso de fazer um paralelo entre o paciente da semana com os dramas vividos por um dos personagens. A série que fazia sucesso com uma fórmula simples começa a dar espaço para elementos que pouco importam.
Enquanto a estrutura vai sendo corrompida, o protagonista vive seu próprio dilema existencial. Porque se House é o desordeiro, que causa mal estar, ele precisa ser domesticado, se adequar à norma. O grande desafio dos autores da série está em colocarem seu protagonista em verdadeiras provas de fogo, mas fazê-lo passar ileso, sem mudanças. House não pode mudar, porque se deixar de ser House, qual seria o sentido da série?
No entanto, na lógica que impera, tramas e personagens precisam se desenvolver, evoluir. E é neste paradoxo que a série se enfiou, com situações que mobilizam House cada vez mais. Um investimento exagerado na relação entre ele e Wilson (final da quarta temporada), no vício de vicodin (final da quinta temporada), no interesse amoroso por Cuddy (as duas últimas temporadas). Tudo forçando uma mudança em House que nunca vem. E nem poderia.
O problema é que se quer seguir uma suposta verossimilhança, inserindo falsos dramas, pois logo a série retorna ao seu status quo. Basta lembrar que toda a baboseira psicológica vista na premiere da sexta temporada (“Broken”, criticado negativamente aqui) é ignorada pela série por quase 20 episódios, sendo retomada apenas na reta final para resultar no mote deste novo ano (House e Cuddy se amando). House não mudou nada no sexto ano e os episódios só não foram tão bons por conta do excesso de personagens, conforme já discutido (e uma dose de humor “over”, onde o marco talvez esteja na quarta temporada no episódio em que um paciente “mimetiza” a personalidade de quem está por perto). Tanto que o melhor episódio da temporada foi mesmo o finale “Help Me”, onde temos apenas o protagonista durante todo o tempo, mostrando que a série não precisa de mais nada.
Por tudo isto, a série deixou de ser aquele entretenimento inteligente das primeiras temporadas e virou um pastiche de si mesma. Era original usando o mais simples e banal dos formatos, e passou a ser apenas mais um entre vários dramas que investem em romances e relacionamentos complicados, por conta de uma necessidade (inventada) de evolução e desenvolvimento de personagens. Justo “House”, a série cujo protagonista nunca foi fã de convenções.
Hélio Flores
twitter.com/helioflores
Para dar uma conclusão digna ao final de Lost, reunimos grande parte dos comentaristas do blog para uma conversa especial sobre o impacto desse desfecho. Participaram desta gravação Marcelle, Célia, Hélio, Fuzii, Allan e Rafael, discutindo o próprio episódio final e toda repercussão vista na última semana. Além disso, consideramos também as chances de Lost receber indicações ao Emmy por essa última temporada. Confira:
Marcelle e Hélio avaliam também a sexta temporada de House a partir de seu episódio final.





E que tal Alvie, o colega de quarto do protagonista? Falastrão, agitado e rapper, Alvie não demonstra um único sintoma durante todo o episódio, nenhum sofrimento ou transtorno. No entanto é ele quem protagoniza aquela constrangedora cena ao final, ao ver House indo embora, de que quer melhorar também e aceita tomar remédios. E sobre medicação, há implicações éticas que acho que não vale à pena discutir neste espaço. Basta dizer que a série vende a idéia de que House “melhorou”, em parte porque aceitou tomar medicamentos que, aparentemente, trazem felicidade.
Gostando ou não de “Broken”, parece marcar um momento de virada na série. Até que ponto as mudanças em House vão transparecer em seu trabalho? Como administrar essas mudanças, mantendo o que faz a alegria de tantos fãs (a grosseria, o sarcasmo, a frieza)? Gostaria muito que os autores passassem por cima do que vimos nesta internação do personagem e deixasse as coisas como estavam. Talvez fosse incoerente, mas o que foi coerente neste season premiere?
