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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

[The Wire] 1x13 - Sentencing

E chegamos ao final da brilhante Primeira Temporada de "The Wire", concluindo apenas uma etapa da maratona que ainda deverá cobrir mais outras quatro temporadas desta que é considerada uma das melhores séries de todos os tempos.


1x13 - Sentencing



"All in the game..." - Traditional West Baltimore


Uma das coisas mais fascinantes deste season finale é a capacidade que os autores da série tiveram em “revisitar” toda a temporada. Diálogos, situações, esclarecimentos. Muita coisa é retomada, mas sem com que isso trave o desenvolvimento narrativo, que as coisas sigam adiante.


Há uma noção bem clara de repetição (Poot assume posição e falas de D’Angelo; Bubbles volta às drogas e roubos; Stringer continua com os negócios; Omar volta a fazer o que faz melhor), ao mesmo tempo que nos traz um encerramento altamente satisfatório ao notarmos que, embora o movimento pareça cíclico, os personagens foram afetados de maneira irreversível – o jogo continua, a guerra não acaba, mas as peças já não são como eram antes e, seja lá o que venha na segunda temporada, não é possível para os autores (e nem deve ser a intenção) manter o status quo.


Claro que encerramento satisfatório não significa o mesmo para alguns personagens: toda a investigação do destacamento resulta em penas brandas para Avon, McNulty vai parar onde não gostaria de ir (como já havia dito no piloto e, episódios depois, alertado por Lester), Daniels não consegue sua promoção por fazer o que considerava certo, Greggs continua no hospital. O FBI mostra-se uma instituição tão desinteressada nos casos de drogas, quanto Burrell mostrou-se um obstáculo na investigação do dinheiro. A América anunciada no piloto de The Wire chega aqui ao seu ponto mais pessimista e trágico.


Esta crítica feita pela série encontra ressonância na forma como dá peso à violência dos atos da gangue de Barksdale. A estupenda seqüência em que D’Angelo se oferece para entregar o tio tem aquele momento em que relembramos todos os homicídios da temporada, com uma advogada devidamente horrorizada com o que vê. E que força dramática tem a foto de Wallace, por tudo que conhecemos dos acontecimentos...


Esta seqüência, que culmina no discurso de D’Angelo sobre a falta de opções e liberdade do meio violento onde cresceu, é a mais emocionalmente forte do episódio, juntamente com o encontro entre McNulty e Greggs. São momentos cuja carga dramática é intensificada (para além das grandes atuações de Gilliard Jr. e Dominic West) por toda a construção e relação entre personagens, cuidadosamente realizadas durante toda a temporada. Da mesma forma que é totalmente compreensível que alguém como D’Angelo mude de idéia após ouvir de sua mãe o discurso sobre a importância da família.


Além de encerrar a temporada de forma brilhante, a curiosidade sobre o que virá a seguir é enorme, mesmo que não tenha acabado com um cliffhanger. Isso se deve pela separação da maior parte dos personagens (alguns na prisão, outros em funções diversas) e “The Wire” já provou que não trabalha na chave da conveniência do roteiro. Ou seja, não me parece que Avon e D’Angelo simplesmente fugirão da cadeia, ou que McNulty voltará para a Homicídios, e que toda a turma se reúna novamente para tentar desmontar o esquema de Stringer. A série é cuidadosa demais com detalhes, com um desenvolvimento realista dos acontecimentos e, apesar de eu já saber que alguns personagens permanecem até a quinta temporada, é estimulante pensar no que os autores planejaram para criar mais situações e temporadas completas que fascinaram tanta gente.


A viagem, até aqui, foi incrível e está apenas começando. Vamos à segunda temporada.




Hélio Flores
twitter.com/helioflores

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

[The Wire] 1x12 - Cleaning Up

Continuando a maratona "The Wire", breves comentários (com spoilers) do penúltimo episódio da brilhante Primeira Temporada:


1x12 - Cleaning Up


"This is me, yo, right here." - Wallace


Este deve ser um dos episódios mais marcantes de toda a série, ao confirmar as expectativas de que Wallace não iria durar muito. Cruel, impactante, triste. Poucas pessoas morreram nesta temporada, e apenas Stinkum que vimos no momento de sua morte. Aqui, somos dolorosamente obrigados a acompanhar a decisão, o planejamento, os momentos que antecedem a súplica de Wallace, enquanto molhava as próprias calças. Pior: executado pelos seus dois amigos, Poot e Bodie. Ainda mais forte pelo peso da decisão destes dois, trêmulos, um pouco hesitantes, mas conscientes de que só assim para fazer parte do jogo.


A morte de Wallace faz parte da limpeza feita por Avon e Stringer, que cautelosos e espertos como sempre, sentiram a necessidade de mudar todo seu esquema, após a descoberta de seu esconderijo principal, o que incluía eliminar qualquer pessoa que pudesse lhes prejudicar. Mais uma vez, as decisões dos personagens vão além da necessidade e conveniência do roteiro: a segurança que testemunha a favor de D’Angelo no piloto nunca esteve na mira da polícia e sequer voltou a aparecer na série desde seu testemunho; no entanto, é um desenvolvimento natural e verossímil que seja assassinada agora (por outro lado, lamentei que McNulty e Daniels não foram tão espertos, pois ao procurarem por Wallace não lembraram de como o garoto falou bem de D’Angelo. Se tivessem procurado por D, talvez a tragédia fosse impedida).


Com a mudança dos pagers, a orientação de não mais usar os telefones públicos e o abandono do Orlando´s, não sobrou muito para o destacamento, obrigado a prender Avon e D’Angelo com acusações menores, deixando Stringer solto – e que contraste a tentação de McNulty, no alto da escada, em eliminar Stringer ali mesmo, com a decisão de Poot, bem antes no episódio, em eliminar Wallace, antes de subir a escada, com Daniels e Bodie em lados opostos das respectivas seqüências.


Este penúltimo episódio resolve tantas coisas, que fica difícil imaginar qual será a direção do season finale, exceto pensar que D’Angelo poderá ter participação maior e preocupante para seu tio (grande momento de Larry Gilliard Jr. ao confrontar Stringer sobre Wallace).


Por fim, importante ressaltar que as informações que McNulty recebeu do FBI sobre Daniels estavam corretas, mas ficamos sabendo disto no mesmo momento em que o Tenente finalmente desafia a autoridade de Burrell. Com as mortes de Brandon, Wallace e a situação de Greggs, Daniels tem levado a investigação cada vez mais para o lado pessoal, e agora já está disposto a perder toda sua influência política para acabar com Barksdale. Seu confronto com o senador é muito bom, e a ameaça feita a Burrell deve lhe garantir ainda algum tempo neste destacamento. Gostaria apenas que Burrell tivesse algum momento que nos fizesse admirá-lo por qualquer motivo que seja, tal como ocorreu com Rawls no episódio anterior. Da forma como está, Burrell é o personagem mais irritante, com suas constantes ordens que só atrapalham as investigações, sendo o vilão da série, mais até do que Avon ou Stringer.




Hélio Flores
twitter.com/helioflores

terça-feira, 31 de agosto de 2010

[The Wire] 1x11 - The Hunt

Maratona "The Wire" chegando na reta final da Primeira Temporada da série, com comentários (com spoilers) do episódio 11:


1x11 - The Hunt


"Dope on the damn table." - Daniels

Para uma série que investe tanto em detalhes, era óbvio que este episódio tinha que começar exatamente onde o último acabou, usando as primeiras horas de investigação do ataque a Orlando e Greggs para acompanharmos como os personagens se comportam e lidam com a situação.

Eu tinha reclamado de como a operação foi muito mal planejada por uma polícia bem menos cuidadosa que os criminosos, mas também fica claro o quanto foi ruim para Avon a tentativa de matar uma policial, sendo obrigado a se livrar de Little Man, e Wee-Bey tendo que fugir. E se pensei que tudo isso ao menos serviria para incentivar o destacamento, acabou prejudicando a investigação, com a necessidade de resultados, precocemente invadindo o esconderijo de Avon. Erros e problemas para todos os lados.

Toda a situação permitiu mais tempo de tela a Rawls, mostrando astúcia e competência na cena do crime, e ainda reconfortando McNulty para que este não se sentisse culpado (no melhor estilo Rawls de ser, obviamente). Lester também mostrou porque é o homem mais inteligente do destacamento e, com a ajuda de Prez, não demora em descobrir os responsáveis pelo crime (mais uma vez, algo que já sabíamos, mas novamente prazeroso pela lógica utilizada pelos personagens). Na verdade, a riqueza de detalhes que se acumulam durante a série é tão grande, que nada parece ser desperdiçado – até mesmo uma mancha de marcador em um sofá retorna para um efeito dramático.

Os últimos episódios têm dado uma atenção a Bubbles que não se relaciona diretamente ao caso Barksdale. Aqui, retorna ao centro da trama principal, ao buscar informações sobre quem poderia estar envolvido no crime. Pior para ele, que esperava uma ajuda de Greggs exatamente quando ela leva os tiros, e agora seu maior relacionamento é com McNulty, egocêntrico e insensível o suficiente para vê-lo apenas como o informante drogado que pode servir para alguma coisa.

McNulty também usa Rhonda para chegar ao advogado de Avon, e são sempre atitudes que confirmam o mal que ele faz às pessoas (como Bunk disse alguns episódios atrás), mas desta vez como não concordar com ele sobre toda a ambição envolvida e interesses que acabam por dificultar o trabalho contra as drogas e o crime? O próprio juiz Phelan já não é mais “your daddy”, pensando no seu próprio futuro.

Algo curioso que me chamou a atenção neste episódio foram os pequenos detalhes relacionados a preconceito: primeiro o Comissário confunde o Tenente Daniels com um homem branco; depois, Burrell e demais se incomodam ao descobrir que Kima tem uma namorada; e, por fim, o próprio Burrell, único negro entre o alto comando, sequer é enquadrado na imagem da TV, no momento em que a apreensão de drogas é noticiada, resultando numa cena hilária.

Única crítica que tenho a fazer é toda a seqüência envolvendo Wee-Bey e D’Angelo, uma bobagem já vista tantas vezes em que alguém acha que será morto, mas na verdade o que acontece é algo bem bobo. Como D ter que cuidar dos peixes de Bey. Muito mais interessante é o encerramento do episódio, em que Prez anota como irrelevante uma conversa em que Wallace planeja voltar à Baltimore. A transição da tela de gravação desta chamada para o monitor no leito de Greggs é o sutil prenúncio do que deve vir por aí.



Hélio Flores
twitter.com/helioflores

domingo, 29 de agosto de 2010

[The Wire] 1x10 - The Cost

Continuando com a maratona "The Wire", comentários (com spoilers) do episódio 10 da Primeira Temporada:


1x10 - The Cost

"And then he dropped the bracelets..." - Greggs

Um problema em ver The Wire apenas agora é o cuidado que se deve ter com spoilers, que incluem até informações mínimas, como saber a quantidade de episódios em que um ator participa. É que são muitos personagens e a trama inevitavelmente resultará em baixas no elenco. E com o destacamento cada vez mais pressionado para encerrar as investigações sobre Avon Barksdale, a tensão começa a ser uma constante: quem será preso? Quem morrerá?

Eu não sei se Kima Greggs vai sobreviver. Por um lado, sua personagem sempre teve destaque, desde o início, inclusive uma das poucas a ter sua vida pessoal mais desenvolvida pela série. Por outro, deu pra pressentir a tragédia quando, momentos antes, Kima narra o momento em que decidiu que esta era a profissão que gostaria de seguir – algo que nunca agradou sua namorada. E aí é onde este episódio me incomodou um pouco: The Wire nunca é óbvia, mas todo o planejamento para culminar naquele final veio de um roteiro um pouco apressado, onde as coisas ocorrem de forma rápida e pouco cuidadosa.

Claro, a emboscada sendo apenas ouvida pelo rádio dos demais policiais é angustiante; o desespero de Daniels, Carver, etc. é comovente; tudo é de muito bom gosto e empolgante. Mas em uma série que tem o mérito de nos brindar com personagens inteligentes e cautelosos (Stringer Bell exemplar na conversa com Omar, Avon cortando a conversa até Shardene sair da sala), é terrível imaginar que este plano de compra-detenção foi a melhor opção que a polícia encontrou. Greggs acompanhando Orlando (que já estava “queimado”) naquele local e com tão pouca proteção? Sério?

Independente do que acontecerá a Greggs (no momento, acredito que esteja morta mesmo), será um impulso enorme para o destacamento ser mais valorizado, em busca de Avon, tornando tudo bem mais pessoal para Daniels e cia. Algo que parece chegar no momento certo, já que o próprio juiz Phelan começa a lidar com as conseqüências de permitir que esta investigação vá adiante.

Além de toda a situação com Orlando surgir e se resolver rápido demais, tivemos Wallace também, facilmente colaborando com a polícia. Não que eu esperasse o contrário (a série vinha construindo isto há alguns episódios), mas já é outro personagem que está com a maior cara de MORTO até o final da temporada. O que será uma tragédia, já que o garoto vem sendo uma das figuras mais carismáticas até agora.

No episódio, ainda ficamos sabendo como a esposa de McNulty descobriu de sua traição; Bubbles tentando se manter limpo; Omar foge para New York (torcemos que por pouco tempo), enquanto Avon fica ainda mais difícil, com Stringer recomendando um afastamento mais direto dos negócios. E Shardene começa seu trabalho como “espiã” (curioso que lembra um arco dramático de “The Sopranos” que, se não me engano, surge no mesmo período desta primeira temporada de "The Wire"). Tivemos também mais uma participação de “Proposition Joe” (não lembro se o nome foi dito no episódio anterior), que promete ser outro personagem interessante e hilário.



Hélio Flores
twitter.com/helioflores

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

[The Wire] 1x09 - Game Day

Dando continuidade à maratona "The Wire", comentários (com spoilers) do episódio 9 da Primeira Temporada:

1x09 - Game Day

"Maybe we won." - Herc

O que os personagens jogam parece mais com xadrez, mas o jogo da vez é o basquete, com a famosa disputa entre Eastside e Westside, oportunidade única que a polícia tem de dar uma boa olhada em Avon. Daniels não resiste em persegui-lo (louco para que isso tudo acabe) e só mostra como Barksdale é cuidadoso e esperto. Mas como Avon já disse para D’Angelo, isto é vida e por mais cautela que se tenha, é impossível garantias. Isto é comprovado quando Omar chega tão perto de matar Avon, naquele final tenso (embora um tanto conveniente, roteiro não costuma ser assim em The Wire, mas tudo bem) que curiosamente remete à frase do próprio Omar no episódio anterior (“vindo ao Rei, melhor não falhar”).

Se Avon ainda pensava em considerar os conselhos de Stringer, bem provável que agora parta com tudo, o que certamente não será bom pra ninguém (a propósito, me incomoda um pouco a incrível auto-confiança de Omar ao roubar as drogas; pelo fantástico trabalho do ator e construção do personagem, é bastante verossímil o medo que ele desperta, mas me pergunto se ninguém um dia vai pensar em atirar na sua cabeça da próxima vez que se expor assim). O jogo, como no xadrez, vai ficando mais aberto, com peças inevitavelmente sendo sacrificadas e todos mais expostos.

Mas nem todo mundo quer jogar: Wallace pretende voltar aos estudos (e quer momento mais simpático de D’Angelo ao incentivar o garoto?), enquanto Bubbles parte para mais uma tentativa de se livrar das drogas, com a ajuda de uma parente (ou ex-mulher?). Outros investem em novas jogadas (a montagem em que Lester explica como encontrarão documentos e propriedades que se ligam à Avon não é original, mas sintetiza tudo de forma muito eficaz), se aproximando do inimigo através de novas peças no jogo (Shardene, para a polícia; o “técnico” do time de Westside para Omar) ou mesmo burlando algumas normas (Carver e Herc ouvindo conversas eróticas que acabaram dando em algo; McNulty fingindo que Sydnor estava no alto do prédio confirmando uma ligação).

Episódio incrível. De novo.



Hélio Flores
twitter.com/helioflores

terça-feira, 24 de agosto de 2010

[The Wire] 1x07 - One Arrest; 1x08 - Lessons

Demorou, mas a maratona "The Wire" está de volta. Por conta do atraso, seguem comentários (com spoilers) de mais dois episódios. Depois, tentarei manter a média de um episódio a cada dois ou três dias. Quem sabe até o final do ano a gente consiga comentar as cinco temporadas da série...

1x07 - One Arrest

"A man must have a code." - Bunk

Passando da metade da temporada, The Wire já tem uma riquíssima coleção de personagens, bem definidos mas, como todo ser humano, sempre capazes de nos surpreender. A esta altura, já dá pra acompanhar com um prazer enorme qualquer coisa que eles façam, embora a trama seja tão bem estruturada e amarrada, que na maioria das vezes é reação à cadeia de eventos que liga todos e tal reação gera novos e imprevistos caminhos.

Aqui, vê-se com muito gosto todo o trabalho de Lester e Prez decifrando os códigos do grupo de Barksdale, toda a discussão e o trabalho de antes e depois da apreensão da mercadoria transportada, em especial com a dupla “Batman & Robin” formada por Herc e Carver; Jay sacaneando Santangelo com a dica da vidente; a reação de Bubbles ao ouvir o depoimento de um dependente químico, enquanto Johnny não leva a sério; o fato de que quem estava com Stinkum era o jovem que perdeu um olho para Prez, não deixando para trás a violência do personagem que tem se tornado cada vez mais simpático; e, principalmente, a única cena de Wallace, se drogando: vem logo depois de Poot dizer para Bodie que após a morte de Brandon, Wallace não saía de casa, e talvez seja o momento mais forte e triste do episódio. E é uma cena que dura poucos segundos. Se diz tanto, é só graças ao cuidadoso trabalho construído desde o início da série.

O mesmo, inclusive, pode ser dito da cena final, com McNulty batendo na casa de Rhonda. Há uma simpatia enorme pelo detetive quando diz “Adoro este maldito trabalho e eles vão acabar comigo”, porque sabemos o quão sincero ele está sendo.

McNulty sabe dos planos de Rawls, graças à Santangelo que, apesar de incompetente, não sacaneia colegas de trabalho. Todo homem deve ter um código, como diz Bunk. O de Omar é não matar pessoas que não façam parte do jogo, como fez Bird ao matar William Gant. O de Bird certamente é o de não dedurar o chefe, sendo tão desagradável durante o interrogatório que fica até difícil condenar a surra que ele leva (e vejam que são os superiores quem batem!).

Os principais avanços da trama ficaram por conta da apreensão da mercadoria, especialmente porque se Lester é inteligente ao decidir que Stinkum não pode ser preso, Avon e Stringer também são, percebendo que há algo errado, levando Stringer a destruir os telefones públicos grampeados. A comparação que D’Angelo fez (“The Buys”) com o jogo de xadrez não se resume apenas à posição e modo de se movimentar das peças. O que temos aqui é uma verdadeira disputa entre o destacamento comandado por Daniels e a gangue de Avon, em que cada jogada brilhante é percebida pelo adversário que, conseqüentemente, retribuirá com outro movimento inesperado.

E quem ganha nesse jogo estratégico somos nós.


1x08 - Lessons

"Come at the king, you best no miss." - Omar

Acontece tantas coisas em “The Wire”, que acabo esquecendo de comentar algumas, que tiveram maior desenvolvimento aqui: primeiro, como McNulty nem percebe o que faz com os filhos, trazendo-os para seu trabalho, levando-os com Omar para um necrotério e agora fazendo-os seguir ninguém menos que Stringer Bell, na abertura do episódio que se encerra com a cruel constatação de um Bunk mega bêbado de que McNulty não faz bem às pessoas (e aqui ele prejudica a investigação de um colega, além de acusar Daniels de “rabo preso” com Burrell, embora neste caso tenha motivos para suspeitar disso). Interessante como esta natureza de McNulty fica evidente logo após o episódio anterior se encerrar de uma forma que desperta simpatia pelo personagem.

Outro ponto que eu não havia comentado foi sobre a proposta que Orlando faz a D’Angelo que acaba mal para o primeiro, quando isso chega aos ouvidos de Avon (que curiosamente não parece se irritar com o fato de uma suposta concorrência nas drogas, mas sim a possibilidade de ter o nome de Orlando manchado). E isso graças a uma tremenda ingenuidade de D, que se sente cada vez mais deslocado deste meio, assumindo isto para Shardene momentos antes de saber sobre a morte de Stinkum. Sempre interessante ficar imaginando como os personagens vão reagir.

Também não havia comentado no episódio anterior a ida de Daniels a um importante evento, cheio de políticos, onde ele conhece um motorista, que agora acaba sendo detido com dinheiro vindo de Barksdale. Como sempre, a seqüência serve para falar um pouco mais sobre os personagens (Daniels se sente melhor discutindo sobre um jogo na cozinha, com motoristas do que com os patrões destes), mas que mais adiante tem função dramática maior.

A grande sacada aqui se resume no que Daniels sintetiza da mensagem enviada por Burrell: quando se segue drogas, tem um caso de drogas; quando se segue dinheiro, não se sabe aonde vai parar. A maior ambição de The Wire está em fazer um painel mais completo possível, com todas as ramificações do mundo das drogas. Toda a trama envolvendo a prisão do motorista não chega a lugar algum (ele é solto e a decisão de encerrar o destacamento é cancelada), mas enriquece o universo da série, mostrando algumas das dificuldades do trabalho de Daniels, McNulty e Cia., quando interesses e pessoas maiores podem estar envolvidas das mais variadas formas.

Como se já não fosse suficiente para um episódio, este chama-se “Lessons” e temos alguns personagens envolvidos com estudos: Wallace (ainda deprimido) tenta ajudar uma das crianças com problemas de matemática e percebe como a dureza e pressão da realidade forçam um aprendizado que a escola não dá conta; Herc e Carver, mais uma vez como alívio cômico, fazem exame para Sargento; e McNulty descobre que Stringer Bell toma aulas em um colégio comunitário para melhor administrar seus negócios (raro momento em que personagem e espectador descobrem juntos alguma coisa).

As frases que abrem o episódio normalmente estão relacionadas com o “tema maior” (por assim dizer) em questão, mas desta vez se refere quase que exclusivamente ao tiroteio (também raro para uma série policial) em que Omar se vinga de Stinkum e Wee-Bey, mostrando porque se deve temer este homem, que aproveita suas visitas ao destacamento para pegar informações do mural de investigação (e o que é aquela cena em que Omar segura uma criança no colo e observa o que os rapazes de Avon fazem com sua van? Não sei se é pra sentir pena dele, temer pela criança ou pelos próprios criminosos que sentirão sua fúria).



Hélio Flores
twitter.com/helioflores

domingo, 15 de agosto de 2010

[The Wire] 1x05 - The Pager; 1x06 - The Wire

Continuando com a maratona e sem saber se poderei postar nos próximos dias, seguem comentários (com spoilers) de mais dois episódios da primeira temporada de "The Wire".

1x05 - The Pager

"... a little slow, a little late." - Avon Barksdale

Com episódios de 60 minutos de duração, fica difícil acompanhar tudo o que acontece em “The Wire”, em especial porque a série dá um espaço quase que igualitário ao grande número de personagens. Aqui, muita coisa acontece, algumas sem relação direta com outras, mas que servem para amplificar nossa percepção dos personagens e que com certeza terão implicações futuras.

Entre estas seqüências: Carver e Herc colocando em ação os planos do episódio anterior, fracassando (como era de se esperar) ao interrogarem Bodie numa cômica interação entre os três; Bubbles visitando seu amigo no hospital, e aqui cabe um grande elogio à série que consegue fluir entre cenas de humor (como a do trio Carver/Herc/Bodie) e de muita sensibilidade, como a relação destes dois, que ainda não ficou clara e nem sei se é necessário explicar alguma coisa; McNulty e seus problemas conjugais, sofrendo para montar uma cama que não será usada pelos seus filhos; e, por fim, D’Angelo, desconfortável em um restaurante chique, depois descobrindo que Stinkum ganhou um ponto de vendas, e se aproximando ainda mais da stripper.

Mas o principal está ligado à introdução do episódio e à frase de Avon, pós-créditos iniciais. Finalmente tivemos mais tempo com o chefão das drogas, e o episódio abre com uma suposta paranóia sua, após o telefone de uma namorada tocar e ver pessoas estranhas perto da casa dela. Suposta, porque embora pareça excessivo (as pessoas de fato não eram relevantes, mas nada sabemos sobre o telefonema), deixa claro do porquê a polícia ter dificuldade em conseguir uma única foto sua. Avon é mais um personagem interessante, perigoso e temido como deve ser, mas mais esperto e sensato do que normalmente personagens do gênero costumam ser – e eu iria dizer também justo, pela forma como trata Stinkum e conversa com o sobrinho D, mas logo me lembrei do pobre Scar. Seu discurso sobre a constante vigilância e cuidado, ao mesmo tempo da impossibilidade disto (“It´s life”) é muito bom.

E é por isso que conhecemos Avon e seu modo de pensar e agir no mesmo episódio que as coisas começam a piorar para seu lado, com informações chegando à polícia de todos os lados: a investigação da namorada morta leva ao Orlando´s; a clonagem do pager de D’Angelo produz resultados (e mais uma vez a série surpreende no tratamento de personagens, com Prez desvendando o código utilizado nos pagers); Freamon discute com Daniels a necessidade de uma escuta nos telefones públicos; Stringer diz a D’Angelo que talvez haja um traidor em seu grupo; Omar passa informações importantes a Greggs e McNulty sobre Bird (citado antes no episódio pelo próprio Avon, como alguém que junto com Wee-Bey cuidaria de Scar). O cerco começa a se fechar e tudo teria ficado muito mais complicado, caso as ligações, na brilhante e muito bem montada seqüência final, tivessem sido acompanhadas pela equipe de Daniels.

Por último, Omar começa a se mostrar bastante interessante e Michael K. Williams tem uma presença em cena incrível. Apenas sua aparição faz com que vendedores de drogas saiam correndo, assustados (grande momento com assovio de Omar amplificado). Não gosta que Brandon diga palavrões, não gosta de delatores, está dois passos à frente de Greggs e McNulty (sabendo, inclusive, sobre Bubbles) e sabe contornar a situação até mesmo quando McNulty o informa sobre a morte de Bailey. Já deixa uma grande curiosidade sobre como será sua reação quando souber da encrenca que o namorado se meteu.


1x06 - The Wire

"... and all the pieces matter." - Freamon


Desta vez, conhecemos um pouco mais sobre Wallace. O autores não esquecem que, apesar de tudo, trata-se de uma criança (dois episódios atrás, vimos Wallace distraído com um brinquedo, durante o trabalho) tentando lidar com o meio em que foi inserido precocemente. Mora com Poot e mais seis crianças menores, e tem a responsabilidade de fazê-los ir à escola. Ainda não tem interesse sexual e se incomoda com a morte de Brandon (mais com a morte em si e não com a forma violenta que fizeram), afetado pelos argumentos que D’Angelo usou em outro episódio sobre a possibilidade de estar neste negócio sem a violência praticada. A gente sabe que está diante de uma série especial, quando dedica tempo para fazer um retrato delicado assim de um personagem periférico. Afinal, “todas as peças importam”.

Nessa abordagem de “todas as peças”, o menos interessante foi o roubo de Bubbles e Johnny, por mais que a relação entre os dois tenha gerado um bom momento no episódio anterior. Bubbles é curioso, drogando-se e passando a perna em Wallace no piloto, e depois mostrando-se responsável, sensato e esperto nos episódios seguintes, para agora nem hesitar em largar o “trabalho honesto” para participar do golpe de Johnny. Mas se é pra acreditar na frase dita por Freamon, resta aguardar pra ver se isso dá em alguma coisa.

O ponto principal do episódio foi a tentativa de Rawls em indiciar D’Angelo pelo homicídio da ex-namorada de Avon, o que acabaria com toda a operação de Daniels, exatamente quando começa a dar resultados com a escuta nos telefones públicos, com Freamon e Prez já conseguindo os números de Stringer e Stinkum, enquanto Omar se oferece como testemunha para o caso William Gant, em resposta à morte de Brandon.

Daniels arrisca seu prestígio político com os melhores argumentos, embora o que talvez tenha feito a diferença foi a descoberta de que, se já houvessem grampeado os telefones na noite anterior, poderiam ter impedido a morte de Brandon – e mais uma vez um bom tempo é utilizado para os policiais descobrirem algo que o espectador já sabe, sem que isso faça perder o interesse da cena (e ainda há coisas que sabemos e que provavelmente eles nunca saberão, como o fato de Santangelo ter perdido a visita de Avon à D’Angelo).

No mais, Bodie volta às ruas para revolta de Carver e Herc (mas que não deixam de dar uma carona para o garoto), com a ajuda do ótimo advogado de Avon; e D’Angelo mostra que, apesar de seu código moral, está pronto para rebater os argumentos de Wallace sobre a morte de Brandon (ainda que sejam seus próprios argumentos) e para lidar com quem tem roubado dele, na maldosa cena com os ovos jogados na calçada, embora lhe sobre alguma bondade ao não denunciar Cass e Sterling para Avon. Afinal, ambos só roubaram por conta dos cortes sugeridos por Stringer para achar o traidor do bando (e aqui é o melhor exemplo de como a série segue o ritmo dos personagens e não da conveniência de roteiro: num filme/série policial, quando há suspeita de um traidor, é porque realmente existe um traidor e cabe a cada filme/série resolver como se dará a descoberta; nesta situação, NÃO houve um traidor, sabemos que Omar agiu sozinho, mas pelas circunstâncias é bastante natural que Stringer tenha suspeitado de alguém de dentro).

Mais um grande episódio, curioso também por amplificar a sensação de vigilância com os movimentos de câmera, desde o início com planos mais longos (a abertura acompanha um fio até a janela quebrada de Wallace, e depois a câmera acompanha sua rotina matinal até acordar as outras crianças) e em várias ocasiões assumindo o ponto de vista dos personagens em momentos de constante atenção.

Hélio Flores
twitter.com/helioflores

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

[The Wire] 1x04 - Old Cases

Dando continuidade à maratona, spoilers do quarto episódio da primeira temporada de "The Wire":

1x04 - Old Cases
"It´s a thin line 'tween heaven and here." - Bubbles

Uma abertura brilhante esta com os policiais tentando mover uma mesa, basicamente um curta hilário (mesmo já prevendo como ia terminar) que diz muito sobre como este grupo tem tudo para dar errado, sem boa comunicação, com Lester Freamon sendo o cara mais esperto da sala, ainda mais evidente após os eventos deste episódio, ao conseguir o número do pager de D’Angelo.


Este talvez seja o melhor episódio até aqui. É incrível como os personagens ainda estão sendo apresentados (informações sobre Freamon, Omar e conhecemos a mulher de McNulty), ao mesmo tempo que a trama se desenvolve a partir de pequenas seqüências marcantes, seja pela qualidade do texto, das atuações, dos aspectos técnicos ou seja lá o que for. Tudo funciona em dobro, porque é brilhante por si só, mas está sempre relacionado a algo mais. Na cena mais genial de todas, Bunk e McNulty reconstituem um crime sem falar um com o outro, apenas com “Fucks” e derivados (a frase de Bubbles que abre o episódio diz muito sobre o que a série pretende explorar, mas é de se lamentar que não tenha sido “Fuckity Fuck Fuck. What the Fuck? Motherfucker... Fuck fuck fuck. Fuck me”), mostrando a grande sintonia entre os dois, já vista no interrogatório de D’Angelo, num trabalho impecável de direção e montagem (porque acompanhamos e entendemos todo o processo apenas com a movimentação dos atores em cena).

Curioso é que o episódio já deixa o espectador ciente de como foi o crime, pois bem antes temos o relato do próprio assassino, D’Angelo (e percebi que ainda não fiz um único elogio à incrível atuação de Larry Gilliard Jr. na série, aqui ainda beneficiado pelo movimento da câmera). O outro grande momento de texto e atuação veio de Jay Landsman, convencendo Major Rawls em dar uma chance para McNulty reparar seus erros – e acreditei no início que a intenção dele era exatamente o contrário, numa lábia vulgar e absolutamente convincente (que também amplia nossas impressões sobre McNulty).


Há muito mais para se dizer sobre o episódio e, no que diz respeito ao avanço da trama em si, o mais importante certamente é que as atenções de ambos os lados (polícia e Barksdale) voltaram-se para Omar, personagem inusitado, corajoso (ou louco?) de roubar de Avon (perigoso o suficiente para fazer um subalterno preferir pegar cinco anos de prisão a denunciá-lo), aparentemente bondoso e “padrinho” em seu bairro e, mais interessante, gay. É o terceiro personagem homossexual da série (com as outras duas encerrando o episódio em um momento muito íntimo) e não tenho idéia de até que ponto isso servirá à trama. O fato é que Avon paga bem pela cabeça de Omar, enquanto McNulty e Greggs pretendem segui-lo para chegarem ao chefe da gangue.


No mais, sempre engraçado acompanhar os policiais mais “errados” no caso, com Carver e Herc acreditando que resolverão tudo ameaçando Bodie (que consegue escapar do reformatório antes da chegada da dupla), enquanto Polk tenta seguir a dica de Mahon de como pegar o caminho mais rápido para a aposentadoria. Realmente, a abertura diz tudo sobre este grupo.


Hélio Flores
twitter.com/helioflores

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

[The Wire] 1x03 - The Buys

Dando continuidade à maratona, spoilers do terceiro episódio da primeira temporada de "The Wire":

1x03 - The Buys

"The king stay the king." - D'Angelo

Vendo em retrospecto, um fã de “The Wire” poderá dizer que o fato marcante deste episódio é a primeira aparição de Omar. Sei, por fotos e citações de alguns fãs, que se tornará um personagem importante. Como alguém que está conhecendo a série agora, só posso dizer que é mais uma adição ao elenco para complicar ainda mais as coisas. Se a guerra entre a polícia e a gangue de Barksdale já apontava para futuras complicações, um terceiro elemento neste conflito surge sem muitas explicações e sabe-se lá o que pode ocorrer daí. Uma gangue rival? Pequenos roubos feitos por conta própria?


Enquanto as respostas não vêm, mais um pouco de desenvolvimento de nossos personagens: Daniels se mostra íntegro com sua equipe, defendendo mesmo alguém como Prez (o que lhe faz ficar bem com superiores); McNulty mais uma vez insubordinado, negando-se a participar da fracassada operação de Daniels, além de descobrirmos que a separação de sua esposa se deu por traição, tendo um caso com a assistente da promotoria Rhonda; Bubbles cada vez mais essencial para a equipe, mostrando os erros do disfarce de Sydnor; Freamon mostrando-se necessário quando realmente precisa, ao conseguir a primeira foto de Avon para a equipe. Talvez o mais importante, no entanto, veio no final, com McNulty recebendo informações de seu amigo do FBI que supostamente implicariam Daniels em alguma atividade corrupta.


E, mais uma vez, sou surpreendido pela conduta de um personagem: se no piloto, D’Angelo se mostrou mais esperto e moralmente preocupado do que aparentava, e no episódio seguinte Prez se mostrou mais perigoso que atrapalhado, agora foi Greggs quem deixou mais evidente que a série não trabalha com personagens simplistas. Quando Bodie agride um dos policiais inúteis (ainda não sei diferenciar um do outro) e Carver começa a espancá-lo por isto, a impressão que fica é que Greggs corre para intervir, impedindo o colega. Mas o que vemos é a policial (que tínhamos como a “boazinha” e correta) sendo ainda mais violenta que ele, mostrando que em um grupo como a polícia, a agressão a um afeta a todos.


Do lado dos criminosos, D’Angelo continua sendo o grande destaque, protagonizando as três melhores cenas do episódio: a introdução, quando ele desenvolve o questionamento de McNulty no episódio anterior, sobre como seria tão mais fácil o negócio das drogas, caso não usassem de violência; afinal, a polícia só aparece por causa dos corpos. Depois, a explicação de como jogar xadrez, mostrando novamente como ele conhece a natureza dos negócios (o Rei é único e continuará sendo Rei), com os peões sendo os primeiros a morrer (e, de fato, num jogo de xadrez raramente um peão consegue chegar até a última casa para se transformar em Rainha). Lamento apenas ele não ter chegado à explicação dos movimentos do Cavalo e do Bispo. Por fim, a conversa com Stringer, onde este descreve os negócios com uma frieza e verdade assustadora, apontando como as drogas não precisam ser de qualidade, já que a clientela estará sempre pagando por qualquer porcaria (“Se for forte, vendemos; se for fraca, vendemos o dobro”).


Seja lá para onde a série caminha, este episódio deixou a sensação de que em breve as coisas ficarão bem mais sujas.



Hélio Flores
twitter.com/helioflores

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

[The Wire] 1x02 - The Detail

Como já informado no texto anterior sobre a série, comecei uma maratona de "The Wire" e postarei no blog minhas impressões sobre cada episódio. A ideia é escrever logo depois de ver o episódio, o que ficou marcado no momento. Como acontece muita coisa (são muitos personagens que circulam pela trama) e não costumo fazer anotações enquanto assisto, os textos não trazem tudo que eu gostaria de abordar, mas são cheios de spoilers e só recomendo a leitura pra quem já viu o episódio em questão.


1x02 - The Detail

"You cannot lose if you do not play." - Marla Daniels

Como no piloto, este começa com um cadáver, mas desta vez que terá implicâncias mais reais para os personagens: a testemunha William Gant, que pode estar relacionado aos Barksdale – ou não, já que uma vez que D’Angelo foi absolvido, por que matá-lo?


O que basicamente temos aqui é uma definição maior do formato que provavelmente será adotado pela série: um acompanhamento minucioso dos eventos, que se desenvolvem tão lentamente, que o que interessa são os detalhes e os personagens. A conversa entre D’Angelo e seu tio, por exemplo, começa com o primeiro contando como foi o interrogatório de McNulty e Bunk, algo que sabíamos exatamente como aconteceu. Mas Avon não sabia e em outra série, provavelmente, seria o tipo de cena excluída por repetir o que o espectador já conhece. Aqui, serve para conhecermos a dinâmica entre os personagens, como o chefe Barksdale lida com os seus e reforça o que já tínhamos percebido de como D’Angelo vê toda a violência dos negócios.


Também acompanhamos a formação da “força-tarefa” comandada por Daniels, com o pior que a polícia pode oferecer, no pior local de trabalho possível. Novos personagens são introduzidos e só imagino que terão destaque porque um deles é feito pelo Clarke Peters, embora seja o policial Pryzbylewski o que mais chama a atenção no episódio, inicialmente pintado como um bobalhão, mas que se torna assustador quando agride um jovem de 14 anos, numa seqüência que define bem o transtorno que Daniels terá com “Prez” e a dupla já conhecida por ele (e pouco experiente) Herc e Carver.


O episódio estimula a curiosidade em saber no que resultará essa operação formada por gente tão incompetente (apesar de McNulty, Greggs e Daniels serem ótimos no que fazem), num sistema que claramente não se importa com o que eles estão fazendo, mas que inevitavelmente terá que lidar com as dimensões cada vez maiores dos eventos que, se foram iniciados por McNulty no episódio anterior, aqui continuam sendo desenvolvidos por ele, ao mais uma vez procurar o Juiz Phelan e piorando ainda mais sua situação diante dos superiores. O personagem continua sendo o centro da trama (e ainda temos uma rápida visão de seu caótico e vazio apartamento), embora Daniels tenha um maior destaque aqui, com todo o peso e responsabilidade em suas mãos que parece ser aliviado apenas se seguir o conselho de sua esposa (“Você não pode perder, se não jogar”). Tudo indica uma aproximação maior entre os dois protagonistas (únicos a quererem investigar com mais atenção a morte da testemunha) que, obviamente, tem que passar por um conflito envolvendo confiança.


Toda a articulação entre os personagens (que inclui ainda a participação crucial de Bubbles, o usuário de drogas do piloto) se dá com ótimos diálogos, onde o destaque fica com a discussão sobre o criador dos Nuggets ter ficado rico ou não com sua invenção. Se a série planeja um desenvolvimento detalhado, extenso e lento dos personagens e acontecimentos, será necessário esse tipo de diálogo que é, ao mesmo tempo, esperto, engraçado e que diz alguma coisa sobre os temas e a visão de mundo dos autores da série. No caso específico, D’Angelo provavelmente ressentido com sua nova posição filosofando sobre a máquina capitalista (“It´s about money!”) que enriquece apenas os patrões. E é curioso que depois, quando é interrogado na polícia, McNulty diz quase a mesma coisa que ele, mas completa questionando-o por quê no mundo das drogas, além do dinheiro, é preciso matar.


São estes pequenos detalhes, nos diálogos mais corriqueiros, onde se encontra a beleza maior, provável trunfo da série: os autores não apenas se propõem um retrato realista deste mundo que focaram, mas também comentam criticamente um certo estado de coisas.



Hélio Flores
twitter.com/helioflores

sábado, 7 de agosto de 2010

[The Wire] 1x01 - The Target

Curiosa a fama de "The Wire". A crítica especializada considera "a melhor série de todos os tempos". Aqueles que já viram, normalmente acabam concordando. O problema é que poucas pessoas viram. Nas premiações, é um fracasso: com cinco temporadas, nunca foi indicada ao Globo de Ouro, e apenas duas indicações ao Emmy (ambas para roteiro). Também pudera. Dizem que é uma série policial complicada, cheia de personagens, gente feia e suja, temas pesados como drogas e violência. Não é das mais agradáveis. Então por que tantos elogios de quem conhece a série?


Depois de várias recomendações de amigos, resolvi encarar "The Wire". E confiando que estaria vendo uma obra-prima, resolvi escrever algumas linhas IMEDIATAMENTE APÓS assistir aos episódios. O que verão aqui, portanto, é uma cobertura de quem acaba de descobrir a série e que vai sendo surpreendido aos poucos pelos desdobramentos e reviravoltas da trama (e como é difícil fugir de spoilers na internet!).


A ideia era escrever pouco, mas tanta coisa acontece nos episódios que fica difícil resumir em um ou dois parágrafos. De qualquer forma, sinto que os textos nem sempre estão muito elaborados e, como me comprometi a só ver um episódio depois de ter escrito sobre o anterior, às vezes fui descuidado mesmo, porque uma vez que você começa a ver "The Wire", acreditem em mim, você não quer mais parar e quer ver tudo o mais rápido possível (atualmente, encerrei a primeira temporada e vou postando os comentários aos poucos).


Então recomendo pra você que não conhece a série: veja, veja, veja. E embarque comigo nesta maratona.


Piloto - The Target



"...when it´s not your turn" - McNulty


A série já me ganhou com seu início, uma introdução que deixa claro o talento na escrita. O policial que em breve saberemos se tratar do Detetive McNulty, interroga uma testemunha, ambos sentados na calçada olhando para o corpo de Snot Boogie. “A mãe se dá ao trabalho de registrar o filho como Omar Isaiah Betts, pra ser chamado de Snot (Meleca)”, diz o Detetive, que ainda especula sobre como o nome surgiu, provavelmente com alguém o apelidando ao invés de ajudá-lo oferecendo um lenço. O diálogo é esperto, engraçado e continua com a testemunha descrevendo quem era Snot: o cara que apanhava sempre que jogava dados com a turma, pois pegava o dinheiro e saía correndo. E Snot sempre fazia isso. “Mas então por que vocês deixavam ele jogar?”, o espectador com certeza se pergunta, e felizmente McNulty também, para a testemunha que nunca viu isso como problema: “Tínhamos que deixar. Isto é América, cara”.


Esta frase que encerra a introdução ecoará por todo o piloto, que nos apresenta uma dúzia de personagens, em todas as frentes deste contexto maior que parece ser o mote da série: a luta entre a polícia (ou melhor, o Estado) contra o crime organizado e o tráfico de drogas. Conhecemos McNulty e seus colegas da Divisão de Homícidios, além de policiais da Narcóticos, a promotoria, mas também o outro lado, a gangue que domina uma região em Baltimore liderada por Stringer Bell e Avon Barksdale. O episódio dá conta até mesmo de introduzir dois usuários de drogas, sugerindo a ambição de “The Wire” em lidar com um painel completo desta guerra que define a América onde vive a testemunha da introdução.


Nem mesmo seria uma guerra, segundo um policial. Afinal, as guerras acabam. Além do mais, todos os esforços têm sido voltados para o terrorismo, esta sim uma guerra que vale a pena lutar (como fica claro numa notícia na TV), deixando os personagens desamparados no que diz respeito a recursos e pessoal.


É neste tom de desesperança que McNulty e demais colegas se sustentam, cientes de como o sistema funciona (e no início do episódio temos um julgamento por homicídio em que o réu, sobrinho de Barksdale, se vê inocentado graças à intervenção de Stringer), mas movidos por alguma crença ou inquietação que não os deixam ficar de fora dos acontecimentos. Tudo tem início com McNulty dando com a língua nos dentes e revelando para um Juiz informações sobre quem são Barksdale e Stringer, o que força uma mobilização entre as Divisões que não agrada a ninguém. Inicialmente, achei que McNulty havia feito de propósito, mas depois ele admite o erro. De qualquer forma, diz ao Juiz que não se importa, mas está presente no julgamento de um caso que não é seu. Poderia aceitar sem questionamentos o “modus operandi” imposto pelo comandante da Narcóticos, Daniels, mas quer fazer o que considera o certo (ainda mais depois de ter visto as novas tecnologias de escuta usadas pelo FBI). McNulty não acredita, mas ainda assim sente que algo precisa ser feito. Como seu parceiro Bunk, que não resiste em atender um chamado, mesmo com seus colegas (inclusive McNulty) criticando-o, sempre torcendo para que os casos de homicídio não caiam sobre eles.


Do outro lado, conhecemos pouco dos personagens e quais são os negócios ilícitos envolvidos para além de insignificantes pontos de venda de drogas, onde vai parar D’Angelo Barksdale (ou apenas D), o sobrinho de Avon inocentado no início do piloto e que é rebaixado em sua função, por conta da irresponsabilidade do crime que o levou a julgamento. D é o único, entre os criminosos, que conhecemos melhor e, como McNulty, sofre de uma inquietação com o que acontece ao seu redor: mostrado inicialmente como relapso, divertindo-se com a reviravolta do julgamento sem se dar conta de tudo o que está envolvido, é curioso como ele se comporta em relação ao usuário que tentou dar um golpe com notas falsas, incomodando-se com a violência (justo ele que fora indiscreto ao matar alguém) e mostrando-se mais esperto do que aparentava ao perceber que a forma como os garotos vendem drogas facilita a ação da polícia (a “compra-detenção” que Daniels planeja para a operação). E é com D que o episódio termina, quando ele vê que os rastros para sua condenação vão sendo apagados, com o assassinato da testemunha de acusação (algo do qual ele claramente não fez parte). Nesta cena, aliás, usa-se o recurso do flashback para lembrarmos de quem se trata a vítima William Gant, algo até compreensível após o número de personagens apresentados, mas pelo pouco que soube da série, não me parece que será algo usado com freqüência (assim espero).


Um piloto praticamente impecável, com texto e diálogos excelentes, que chama a atenção pelo número de personagens apresentados, mas que (como a nova série dos realizadores, “Treme”) tem forte presença em cada uma das cenas que aparecem, uma trama que permite várias possibilidades estimulantes, mesmo com o já batido mundo do crime organizado, tão explorado pelo cinema, e é tematicamente forte, com toda essa ideia de explorar uma América desiludida, perdida e constantemente vigiada (em algumas cenas vemos personagens através de televisores, sendo filmados). Claro, não dá pra ter uma noção do que vem por aí, mas é bom notar que nesta vastidão de pessoas, apenas a policial Kima tem sua vida pessoal mostrada no piloto, mesmo que rapidamente (apenas que tem um relacionamento com outra mulher), algo que pareceu destoar do restante do episódio, já que até o próprio McNulty é mostrado apenas em seu trabalho (uma breve conversa com Bunk sugere que ele tem uma ex-mulher e filhos, talvez?). Kima também conhece um dos usuários de drogas que provavelmente terá participação crucial nos próximos episódios.



Hélio Flores
twitter.com/helioflores