Bom dia amigos, sei que o assunto é incomum a este blog, mas umas considerações se fazem necessárias a respeito deste evento que ocupou a mídia desta sexta-feira e sábado, 29 e 30 de dezembro, respectivamente.
Primeiramente como fã de 24, e depois na posição de comentarista oficial da série aqui no CeS, resolvi aproveitar que ainda faltam 15 dias para a estréia da sexta temporada e peguei essas últimas 18 horas de 2006 para falar deste triste momento. Mas, antes disso, um pouco de historinha!
Calma!! Não sou simpatizante de Saddam, nem sunita nem veterano da Guarda Republicana Iraquiana não, mas eu afirmo que este evento ficará nos livros didáticos de história dos próximos anos com uma versão diferente para cada país, dependendo do interesse de cada um. Só para lembrar, educação é o processo pelo qual a sociedade de uma região forma seus cidadãos de acordo com sua cultura, tradição e interesses. Por exemplo (se quiser ir direto ao assunto, pode pular o seguinte trecho em itálico): nos últimos anos tivemos uma polêmica sobre a autenticidade dos livros de geografia de escolas primárias dos Estados Unidos que ilustrariam o Brasil sem a região Norte, fato que foi considerado "história para boi dormir" pela Rede Globo na voz de seu repórter Jorge Pontual, numa matéria sobre teorias conspiratórias. Mas não é baboseira não. A foto a seguir eu tenho em meu computador desde 2001 e ela não é a única evidência dessa prática de espalhar a mentira para as crianças americanas; estudantes brasileiros que moram nos EUA já confirmaram o que viram.
Tá, mas por que tudo isso? Ora, os EUA têm interesse em propagar a idéia de que a Amazônia é mesmo uma região que pertence a todo o mundo, assim como é a Antártida. Isso porque uma das inocentes crianças que aprende geografia dessa forma será presidente dos EUA um dia, e imagina um presidente que cresceu acreditando nisso? Está feita a educação à moda americana; espalhar o boato foi exatamente o interesse da sociedade deles: estimular o mundo a pensar que a Amazônia é um bem comum a todos para então adquirir, paulatinamente, o controle da maior reserva de biodiversidade e recursos hídricos do mundo.
Agora, se você mora ou está nos EUA e pergunta pela rua a pessoas aleatórias o que elas acharam do enforcamento de Saddam, você deverá ouvir as seguintes respostas:
- Foi lindo, ele era mesmo um cão.
- Adorei, ele era um genocida e fazia uso de armas de destruição em massa.
- O mundo terá mais paz agora.
- Não sei direito quem é esse tal de Sr. Hussein, mas sou absolutamente contra pena de morte.
- I don't give a shit to Saddam.
- Is Iraq that country which is somewhere near Florida?? (Não é brincadeira).
E se você verificar qual foi o posicionamento oficial da Casa Branca, verá apenas uma nota assinada por Bush dizendo: "A execução de Saddam representa um importante passo para a instauração da democracia no país." Antes de engolirem isso, perguntem-se: os EUA estão mesmo preocupados com a integridade do Iraque? Não, não estão preocupados nem com a integridade dos soldados deles que lá estão. Mas muitos americanos acreditam nisso, pois foram educados para pensar assim. Essa guerra não dura apenas 3 anos e 9 meses como a maioria pensa, mas sim 15 anos, desde 1991. No período entre 91 e 03, não só foi imposto um bloqueio econômico sobre o Iraque, como o país foi bombardeado diariamente pelos americanos. Não era uma guerra declarada. Mas a invasão de 2003 fora planejada doze anos antes, pelo então presidente George Bush, o pai. O objetivo era o de enfraquecer o país para a futura invasão. Invasão essa que foi possibilitada por um novo Bush no poder, que tinha um trabalho de família a terminar. Para isso, como não tinha competência, teve que pedir auxílio ao partido para fraudar as eleições, e então chegar à Casa Branca mesmo com a minoria dos votos em 2000. Bush precisava ser presidente a qualquer custo. Depois de estar lá, começa-se o preparatório para a invasão, mas, primeiro, é necessário o pretexto. Como não havia nenhum Francisco Ferdinando da vida para ser morto, tiveram que inventar uma história de armas de destruição em massa, coisa que então se revelou absurdamente falsa. Entretanto, muitos até hoje juram que Saddam é cheio de "estoques de armas sujas", principalmente os americanos, afinal, havia o medo dos terroristas. Um conveniente medo do terror. Isso eu mesmo pude verificar, numa vez em que estava jogando Starcraft na internet com um americano: começando em mim:
- Você prefere Clinton ou Bush?
- Bush.
- Por que?
- (sem resposta, o jogo prossegue).
- Você é a favor da invasão do Iraque?
- Sim, pois ele (sic) usará as armas químicas dele, um dia.
Quanta alienação, hein. Ainda bem que a idéia da primeira temporada de 24 havia sido concebida antes de 11/9/1, para que não pensem que a série se promoveu com essa desgraça. Mas acabou tendo grande aceitação por isso, queira ou não. Na segunda temporada, cresce a polêmica: os terroristas, árabes, personificados no personagem Syed Ali, quase detonam uma bomba em LA,
mas não sem antes vermos nosso grande Jack dando umas porradas nele. Isso foi no episódio 2x12, no auge da temporada, quando Jack inventa a 'artimanha' pra convencer Ali de falar sobre a bomba. Acredito que na hora em que o primeiro tiro de festim foi disparado, cresceu o ódio por 24 por parte dos espectadores árabes. Nem devem ter visto o final do episódio. Mas a segunda temporada foi ao ar entre o final de 2002, quando Bush falavam em invadir o Iraque, e abril de 2003, quando a invasão já havia ocorrido. Pronto, o circo já queimava: além da guerra em si, havia um programa de televisão muito bem feito fazendo alusão à desgraça. Infeliz quem pensa assim, isso é desmentido no final da temporada, que por sinal é a minha favorita, quando descobrimos que não são bem os "Árabes" que são os vilões...
E no presente cenário geopolítico atual, quem é o vilão? Impossível dizer. Nem adianta eu colocar minha opinião sobre isso aqui, não valerá de nada. Mas considerações podem e devem ser feitas: Saddam era sim um cachorro, genocida, e por que não, louco e obsessivo por higiene. Executou o genro na mesa de jantar, executou sumariamente os opositores assim que assumiu o poder, usou armas químicas contra curdos que faziam uma rebelião, subjugou a população xiita, maioria do Iraque, isso tudo durante... 24 anos. Sem contar com as sangrentas guerras com os vizinhos, com destaque para o Kwait. Saddam Hussein é, portanto, um assassino em série.
Mas serial killers também têm o direito de serem julgados certo? Sim, têm. Opa! Não sou daqueles que defendem os direitos humanos cegamente, cartilha que, na prática, só é citada quando um fascínora está sendo julgado. Sou contra essa hipocrisia, pois os direitos humanos, na maneira como são conhecidos, são auto-paradoxais: os bandidos que assassinaram minha amiga Maria Claudia Del'Isola aqui em Brasília em 9/12/2004 não deram a mínima pros direitos humanos.
Mas com Saddam é diferente. O mundo só teve a perder com esse espetáculo. O tribunal criado às pressas apenas para julgá-lo foi um showzinho de conveniência em si, pelas leis do Direito Penal Internacional, é ilegítimo o julgamento de crimes cometidos antes da criação do dito tribunal. Saddam também não poderia ser julgado pelos seus compatriotas, já que dentre as acusações havia "crimes contra a humanidade" e um julgamento em solo iraquiano seria tendencioso de cara. E nunca vi alguém ser executado tão depressa após dada a sentença. Três advogados de Saddam foram mortos durante o processo, e um juiz que tendia para a imparcialidade foi substituído por um truculento. Como é improvável que deparemos com outro genocida nos próximos anos (exceto Bush, que ainda temos dois anos para conviver), a chance que o mundo perdeu foi justamente a de dar a esse assassino um julgamento justo, com monitoramento internacional, para que fosse dado o exemplo do que fazer e como com esse tipo de gente. O Tribunal Internacional de Haia foi deixado de lado mesmo. É lá onde foi julgado Slobodan Milosevic, o líder iugoslavo acusado de genocídio e crimes contra a humanidade na guerra do Kosovo, portanto não muito diferente de Saddam.
Tudo em nome da conveniência... quem assiste 24 sabe bem como isso funciona.
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segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
[EXTRA] A Execução de Saddam Hussein
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