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Por Danielle MEu não esperava ser surpreendida nesta season. Mas não por baixa expectativa, apenas porque Dexter não é Lost, não é uma série que se prende a viradas mirabolantes, suspense indecifrável ou gancho persistente. Começa e termina com seus conflitos sem maiores delongas. O que é mais caro são os personagens, suas motivações, seus diálogos internos, suas verborragias, enfim, o mote são as pessoas, como elas reagem frente aos fatos que se apresentam. E por isso a considero absolutamente humana, imprevisível e coerente. Imprevisível porque quase nunca sei como eles reagirão. Os acontecimentos, os crimes, ficam para segundo plano. Sempre.
Essa temporada não foi unânime. Muitos consideraram inferior. Olha, sempre vejo Dexter com a certeza de presenciar algo em constante evolução. Ora, nenhuma season é semelhante a outra. Seja no defecho, no desenvolvimento e, principalmente, nas ações - e reações, de Dex.
Posso ser você ***
Mas esta season, ahh, esta season levou Dexter ao mais alto patamar de série dramática.
O fim de Arthur foi previsto tranquilamente por mim e por vários. Jogou a toalha mesmo. Mas quando a gente acha que acabou, que já foi coisa suficiente, vem aquele desfecho que me me fez ficar bamba. JURO! Fiquei trêmula. Não acreditava que Rita, e com ela o conceito de família para Dex, terminasse daquele jeito. Mesmo que a cena final seja um pouco óbvia e em demasia didática, ver Harrison na mesma posição que o pai, banhado - ungido - no sangue, mostra claramente que as projeções de Dex, que dez minutos antes eu sonhara ter acabado, não tem como cessar. Ser o que é. Tem peso maior? Há anos associo Dex aos preceitos existencialistas. Não poderia ser melhor, quando ele decide ser diferente, lá vem a vida, ou quiçá, a essência, empurrando de volta ao seu mundo.
Dez minutos antes do derradeiro acontecimento, Dex no mais maravilhoso monólogo interior até então, discursava sobre sua importância para Debra, Rita, e as crianças. Falava também, pela primeira vez na série, sobre a vontade de mudar. Ser diferente. Não permitir mais acesso ao "passageiro negro". Ele não queria mais se adaptar, mas se transformar, de fato. Já achava que só isso era mote suficiente para a próxima season.
Mas não! A série ganhou outro rumo. E na quinta e última temporada, não sei o que esperar de Dexter, a não ser, é claro, continuar a melhor série dramática da atualidade. Aliás, teve sua melhor audiência na noite de domingo passado. Showtime nunca conheceu tantos números!
A brilhante cena inicial, confrontando os dois inimigos tão parecidos, que já sentiram como podem ser vulneráveis, foi de arrepiar. Trinity pronunciando Dexter Morgan. Se tivesse falado "passageiro negro", rá, eu surtava. Mas aí termina a similaridade entre os dois. Arthur só compreende quem é seu algoz no final, apesar de tê-lo causado um dano irreparável. Como se, pela última vez, Trinity emergisse em Arthur para mostrar ao seu aprendiz o que os demônios internos podem fazer. Fica a pergunta. Vingança pura e simples? Mas seguindo o mesmo ritual? Ou Trinity/Arthur tinha algo a mais para ensinar a Dex? Não sei. Família é mais que pessoal, para Arthur era missão divina, mesmo que a gente tenha o senso comum de saber que todo maluco psicopata tem em sua megalomania a certeza que fala por Deus. Mas enfim, o título do completo de Dexter em português, o livro, também aborda isso: "A mão esquerda de Deus". "Cada um faz seu próprio destino", mas Dex não conseguiu apagar mesmo o que era e o que fez. Talvez se tivesse deixado esse caso pra lá.
Saída pelo caixão, Freud explica ***A família de Arthur saiu humilhada, eles sabiam que o marido e pai era um monstro, mas não conheciam a extensão do que ele era capaz. Agora serão sempre a família do monstro. Escancarado. Essa era uma das piores projeções para Dex.
Mas a idéia de conhecer intimamente um monstro e isso torna-se público, não é nada se comparada ao que Arthur fez a Dex.
E ele perdeu muito nesta temporada. Perdeu Debra, na forçosa cena de contar o que sabia, por mais que eu entenda que era o contexto necessário, achei apressada. Taí uma revelação que merecia um episódio inteiro. E claro, perdeu Rita. Se começasse a mudança naquele exato momento em que Debra conversa com ele. Tudo poderia ser diferente.No
score dos serial killers, Trinity venceu.
Bom, foi isso. O melhor desfecho de Dexter desde a primeira temporada. Feliz Natal e um ótimo 2010! Estarei por aqui ano que vem! Mal posso esperar. MESMO!
Cenas pra gente não esquecer:
- Senhoras e senhores, Jeniffer Carpenter merece a indicação ao Emmy por este ano. A desbocada Debra foi responsável por grandes momentos nesta temporada. A moça segurou muito bem! A sua cena final com o irmão, mesmo que apressada, foi absolutamente maravilhosa: "você foi a única constante boa da minha vida".
- John Lithgow foi um escolha inspirada. Ele conseguiu colocar nuances impressionante para seu Arthur. Pavoroso e gentil. Bela criação de um serial killer. Aliás, considero o melhor de Dexter até então.
- LaGuerta e Angel conseguiram salvar um romance que poderia ser tedioso para nós. Mas o bom humor e química da dupla espantou isso.
-Masouka teve bons momentos, um dos grandes coadjuvantes da série.
-A opção por modificar como Harry aparece, não mais em Flashbacks, agora como a consciência do filho, foi arriscada e parecia que não iria deslanchar. Mas no final, mostrou-se acertada e deu frescor ao código Harry.
-Dex perder a cabeça em tantos níveis.
-O desfecho mais incrível de todas as seasons.
*** Fotos: Reprodução
/danna_