
Don – "So you'll move again."
As pessoas não mudam, já dizia Don Draper em mais de uma ocasião. Em diversas entrevistas, Matthew Weiner também confessa acreditar que seus personagens podem até se adaptar a novas convenções de uma época, mas seus ideais permanecem imutáveis. Don e Betty somente buscam por uma existência ideal. Chega a ser irônico fechar a temporada em uma conversa íntima após tantos conflitos entre os dois, com Betty armando um encontro surpresa antes que o ex-marido colocasse a antiga casa à venda. Mas quem acaba surpreendida é Betty, que ao receber o anúncio do noivado de Don cita prontamente o nome de Bethany, como se aquilo ainda estivesse engasgado em sua garganta. O único conselho que Don deixa para sua ex-mulher quando admite estar passando por tantas dificuldades quanto antes, é que se nada desse certo bastava mudar-se e procurar por um novo lugar. A mudança de ares sempre teve uma influência positiva para esses dois, tanto é que a viagem à Itália na temporada passada representou quase que um último fôlego para esse casamento. A promessa de um recomeço, com Don literalmente reconquistando sua mulher, parecia irresistível para o casal, que poderia viver ali eternamente. Não ficam claras as intenções de Betty em cena -- se há algo perfeito aqui é January Jones transmitindo toda a instabilidade mental da personagem --, mas se aquela cozinha vazia foi o palco onde eles constituíram uma família há até alguns dias, este encontro serve apenas para concluir seu fracasso. Seria ainda uma forma dela não assumir toda culpa sozinha. Não cabe aqui julgar a decisão dos dois, seja por Betty agir com sua imaturidade para resolver tudo do seu jeito ou Don escolhendo uma pretendente que fosse menos desafiadora. Mas não é interessante que esse quarto ano, que apresentou uma série buscando caminhos mais introspectivos, investigando seus personagens e apresentando até em alguns casos um crescimento notável, termine assim num verdadeiro anticlímax. Se para mim a temporada já vinha sendo a mais irregular até aqui, com vários momentos brilhantes e alguns um tanto óbvios e até enfadonhos, esse foi definitivamente o pior season finale apresentado pela série.
Muita gente condenou dizendo que a história foi basicamente uma preparação para um final de novela: um casamento, uma gravidez. Mas esta não é a questão, porque de forma alguma é antecipado um final feliz. E muito menos me pareceu forçado. Numa de suas primeiras reuniões com Don Draper, Faye Miller alerta reconhecer o tipo de homem que está lidando, aquele que estaria casado novamente em menos de um ano. Sinto até certa tristeza por ela não ter conseguido traduzir suas previsões em pressentimento a tempo, assim evitando seguir adiante com esse relacionamento. Terminou decepcionada como já esperava porque tentou levar Don a tomar um passo adiante, fazer as pazes com seu passado. Porém, assim como seu filho Bobby que prefere a atração da Disneyland que dá nome a esse episódio, Don não quer se manter preso ao elefante em sua consciência, mas sim desfrutar das alturas alcançadas por um foguete. Ele sabe também o quanto suas visitas à Califórnia, seu refúgio até poucos meses atrás, renovam seu espírito. Por isso, Megan é a menos culpada neste caso, sendo vítima deste repentino pedido de casamento. Acho que essa decisão só funciona porque é muito bem fundamenta, tanto por estar relacionada ao momento de inspiração para escrever a carta aberta no episódio anterior, quanto por Don ser retratado mais de uma vez ponderando antes de tomar a decisão. Era como se ele estivesse realmente analisando toda esta conspiração, tentando aceitar esse deus ex machina preparado pelo roteiro desde que o anel de Anna chega às suas mãos. E se ainda tivesse de avaliar, Megan seria perfeita para assumir o cargo tanto de esposa quanto de madrasta de seus filhos. Ela se apaixonou pelo bom coração de um Don Draper idealizado, enquanto toda família fica admirada pela sua capacidade de minimizar qualquer acidente e oferecer apoio, desde aquele tombo de Sally nos corredores da SCDP. Já a situação de Joan me pareceu bem mais complicada, principalmente por ser um segredo com data de validade para ser revelado. Ainda que soe piegas até demais, é possível relevar porque sua vontade de tornar-se mãe antecedia essa gravidez indesejada. Não posso negar que era um truque manjado, mas que acaba deixando o futuro totalmente incerto, sem saber se o marido assumiria o filho mesmo sabendo que não é dele, ou se Roger surpreenderia no final das contas. A única certeza é que mesmo cercado por uma guerra, Greg continua sendo o mesmo idiota, preocupado apenas com a fartura dos seios de sua mulher.
Se tivesse de resumir, minha maior decepção com esse final foi exatamente essa falta de perspectivas para o futuro. Em temporadas anteriores era tomada por uma ansiedade que me consumia pelo resto do ano, mas confesso que agora tudo que sinto é uma leve preocupação. Embora ainda deposite total confiança que serei surpreendido, essa saída encontrada para o dilema de Don me pareceu bastante cômoda, quase que restabelecendo o status quo. Estaria Don condenado a repetir seus mesmos erros para sempre? Claro que não se sabe ao certo quanto tempo pode se passar entre temporadas ou mesmo se ele estaria casado com Megan até lá. Porque apesar dela não exigir nenhum tipo de garantia para aceitar seu pedido de casamento, Megan entra neste relacionamento já sabendo da fama de infiel de seu parceiro. Chegou a me surpreender durante a conversa de Joan e Peggy -- achei que ali até perderam a oportunidade de constatar a repetição do tema da gravidez -- quando elas temem que Megan seja promovida a redatora, já que não imagino Don suportando ver sua mulher em ação pelos corredores da SCDP. E falando na empresa, se existia crise, esta já parece ter sido contornada agora que Don causou boa impressão aos membros da Sociedade do Câncer e Peggy conseguiu finalmente quebrar o jejum de quase 10 meses sem novos clientes. Mas uma pena que seu triunfo não poderia ter vindo numa hora mais inoportuna, ficando totalmente ofuscado pelo anúncio do casamento de Don e Megan. Apesar de Roger ser o protagonista das piadas sobre o evento, é impossível não rir pela expressão de surpresa de Pete, que era o único a saber do segredo envolvendo Faye. Assim, toda a crise parece minimizada por esse sentimento agradável, reforçando o grande tema dessa temporada, o eterno conflito entre os negócios e a vida pessoal. É dessa forma que Don tenta explicar a Peggy seu amor por Megan, comparando o futuro promissor das duas e revelando uma profunda admiração por parte dela. Se Megan serviria como a ponte para ligar esses dois universos, Peggy nem precisaria dizer que isso é uma enorme bobagem. Mas será difícil ocorrer qualquer mudança porque já virou convicção para a maioria deles, como fica claro na cena em que os sócios tentam forçar Ken a fazer uso da influência de seu sogro com um dos clientes, e ele responde que não é igual Pete, que recebe o comentário como se fosse um elogio. Com certeza, eles não tem a mais vaga ideia do que ele quis dizer com "vida real".Apesar desta frustração momentânea e de uma repetição de temas que podem se tornar a longo prazo um problema, Mad Men continua sendo de longe a melhor série da atualidade. Mas nem sempre ela pode agradar a todo mundo. Talvez fosse isso que Matt Weiner queria dizer quando declarou que o finale confundiria as expectativas de muita gente. Ou talvez seja apenas mais uma vez o conflito entre aquilo que a série propõe e tudo o que esperamos dela. Certamente sentirei sua falta e de escrever esses textos semanais. A quem acompanhou essa jornada por mais um ano, muito obrigado. Agradeço também a todas as mensagens de apoio recebidas por blog, twitter ou e-mail. Até a próxima temporada.
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O único dano colateral desta sua manobra foi a saída de Faye Miller, retirada da empresa para evitar qualquer desconforto com outros clientes. No entanto, ela até se mostra aliviada na presença de Don, já que agora não precisaria mais manter essa relação em segredo. Mas ele não parece tão entusiasmado assim, principalmente quando Faye sugere que Megan pode fazer reserva para seus próximos jantares. Ela nem imagina o impedimento que pode surgir daí, mesmo que Megan garantisse que não esperava por um relacionamento duradouro. Don se mostra pouco à vontade para revelar a intimidade dos dois, o que pode representar o grande risco de Faye terminar magoada. Vale destacar também a cena de despedida de Peggy e Faye, que apesar de contracenarem juntas anteriormente, nunca haviam tido uma interação tão direta. Ainda que seja comum no ambiente de trabalho tentar consolar quem acaba de ser demitido, suas palavras me pareceram bastante sinceras, dizendo admirar o trabalho de Faye e garantindo que sentirá sua falta. Ambas carregam tantas semelhanças que mesmo levando em conta a diferença de idade, elas certamente mereciam mais oportunidades juntas.



Roger sempre teve problemas para respeitar essa linha que separa sua vida pessoal da profissional, como no seu caso com Joan que se estende até hoje e o casamento com Jane, a ex-secretária de Don. Chega a ser irritante acompanhar sua postura de rendição, mostrando-se tão ultrapassado para lidar com esse abandono que ainda parece preso ao episódio anterior, esforçando-se para proteger um segredo que nem existe mais. Mas vale destacar a habilidade de interpretação de Roger ao fingir falar ao telefone ou mesmo arrumando uma falsa viagem para renegociar com a Lucky Strike. Curioso também notar como Roger é o único entre os personagens principais a ainda fumar em cena -- Joan ameaça, mas não chega a acender um cigarro. Por toda a influência que a Lucky Strike exercia sobre a empresa e nos próprios personagens, sua saída deve certamente significar novos rumos para muitos deles, talvez até uma chance de aproveitar a própria metáfora de se enxergar com maior clareza além de toda a fumaça. Roger procura pelo conforto nos braços de Joan, mas ela decide dar um basta nessa relação por precisar de tanta ajuda quanto ele ("não sou a solução de seus problemas, sou apenas mais um problema"). Resta a Roger voltar para casa, onde é logo recebido por Jane com uma surpresa: a publicação por conta própria de sua biografia. Mas isso não seria capaz de consolá-lo. Aliás, talvez o maior golpe a sua moral fosse justamente não conseguir vender os direitos nem de sua vida pessoal e nem de suas experiências profissionais. Assim, Roger entrega o livro com a dedicatória mais impessoal possível para Jane, valorizando seu papel apenas como esposa, e tem de engolir toda sua vaidade antes de finalmente abraçá-la.
Apesar de ser uma cena já recorrente dentro da série (basta lembrar de Pete e Trudy na semana passada), não é coincidência que Don Draper termine da mesma forma abraçando Faye Miller. Mas ele vive uma situação bem mais turbulenta. Afinal, é ele quem tem de segurar o rojão enquanto Roger e Lane estão ausentes e Cooper continua servindo apenas como mera figura na SCDP. Em meio a toda essa confusão, além de tentar forçar Faye a quebrar sua ética profissional para ajudar a empresa, Don cai nas graças de sua secretária Megan. E por fim, acaba bem sucedido nos dois casos: Faye resiste mas marca uma reunião com um de seus insatisfeitos clientes e Megan age com extremo desapego em relação ao sexo casual em sua sala. Assim como Allison, ela também desconfia que Peggy tenha usado do mesmo plano para alcançar sua posição atual, mas não se ilude esperando por um compromisso sério. Assistir Don Draper colocando em risco o relacionamento mais sólido que teve desde sua separação chega a ser doloroso, principalmente pela mudança de Faye Miller ao longo da temporada. Se antes ela bloqueava todas as suas investidas e previa cada um de seus truques, agora está disposta a arriscar tudo por essa paixão. Nem é preciso se esforçar muito para prever que esse relacionamento deve terminar de forma desastrosa, trazendo prejuízos tanto para Don Draper quanto para a SCDP.
Mas não foi apenas neste paralelo entre Don e Roger que os limites pessoal/profissional foram testados. Para começar, a faísca que desencadeia todo esse incêndio na SCDP surge justamente quando Ken Cosgrove está jantando com a família de sua noiva (e espero que Ray Wise tenha maior presença daqui pra frente) e encontra um colega da DDBO que resiste antes de contar sobre a mudança de agência da Lucky Strike. Já Peggy reencontra Abe através de Joyce (outra vez) e terminam selando as pazes em seu apartamento. Se não me engano é a primeira vez que Peggy acorda no dia seguinte com tanta satisfação estampada no rosto. Mas ela mesma constata que sua felicidade pessoal precisa ser deixada de lado enquanto a empresa vive esse momento de crise. Evitando o assédio de Stan e até superando mais uma de suas brincadeiras, Peggy consegue impressionar os clientes com uma apresentação digna de Don Draper, usando suas próprias sensações para valorizar a campanha. Enquanto isso, Pete divide seu tempo entre a SCDP e a sala de espera da maternidade. Depois de perder a conta da Glo-Coat, Don chega a acusar Pete de estar displicente para lidar com tantos problemas, esquecendo de tudo que ele foi capaz de fazer para salvar sua pele na semana passada. A ironia maior é que mesmo após receber a notícia do nascimento de sua filha, Pete decide seguir ao funeral de um respeitado publicitário em busca de novos clientes ainda fragilizados. O discurso de seus colegas descrevem um homem que se entregou ao trabalho e teve poucas oportunidades de mostrar carinho por sua família, assim como a maioria dos personagens que conhecemos na série. Para aumentar ainda mais o clima de terror, Ted Chaough aparece na maternidade oferecendo a Pete uma oportunidade de se tornar sócio da CGC. Talvez fosse o caminho mais fácil para assegurar o futuro de sua família, antes de ser tragado junto de uma possível falência. Mas certamente Pete seria a última pessoa que a SCDP gostaria de ter como concorrente, já que ele seria um dos poucos a ter informações confidenciais suficientes para derrubar quaisquer muralhas chinesas que fossem colocadas em seu caminho.
Enquanto isso, Don Draper nunca se sentiu tão encurralado na vida, com sua falsa identidade correndo sério risco de ser denunciada. Ainda que cada vez mais gente fosse cúmplice de sua farsa, Don ainda não estava preparado para enfrentar uma detalhada investigação do departamento de defesa americano. Se fosse descoberto, não haveria negociações, seria o fim. Assim, sem ter a calorosa costa oeste para se refugiar e as palavras de conforto de Anna Draper, ele chega a se desesperar e até ter um ataque de pânico ao avistar dois possíveis agentes nos corredores de seu prédio. No entanto, depois de todas as suas experiências ao longo dos últimos episódios, já é possível notar certo progresso quando Don chama às pressas seu advogado para deixar garantido o futuro financeiro de seus filhos. Quem acaba prestando socorro nesta situação é Faye Miller, que não é apenas a última a saber sobre sua identidade verdadeira, mas também a primeira pessoa que Don decidiu confiar este segredo voluntariamente. Ela até propõe que ele abra logo o jogo e arque com as consequências, mas tudo o que ele mais teme na vida é voltar a ser o frágil e ingênuo Dick Whitman, aquele que tomou essa decisão quando garoto. Como disse na semana passada, acho improvável que essa relação seja duradoura, ainda mais agora que Faye assumiu claramente uma posição de terapeuta perante Don. Quanto mais ela tentar resgatá-lo, mais ele tentará fugir.
Sem encontrar outra alternativa viável, Don decide recorrer a Pete para resolver seu problema, assim colocando-o também contra a parede. Como Don Draper ainda é importante demais para a agência e para o próprio futuro de Pete, ele sabe o que deve fazer: abrir mão de sua conta e levar toda a culpa pelo ocorrido. Por mais revoltante que possa ser, o problema de qualquer segredo é que ele sempre leva a outro segredo. Não importa o que ele venha dizer para convencer Trudy (parecendo quase um balão rosa de tão volumosa) de que é "um cara honesto", porque ao longo de todo esse tempo presenciamos diversas atitudes de Pete que ele também não seria capaz de se orgulhar. Afinal, em meio às voltas do mundo, tudo isso não passa de uma consequência para a atitude precipitada de Pete ainda na primeira temporada, quando tentou chantagear Don com a carta de seu irmão. Esta mesma precipitação é vista quando Don promete os ingressos dos Beatles para Sally sem que ainda estivessem em suas mãos, certamente tentando reparar seus erros da semana anterior. Essa promessa cria uma expectativa durante todo o episódio, que acaba felizmente resolvida no seu final. Assim, Don Draper volta a sua antiga postura, de quebra deixando a porta aberta para uma nova paixão. Quem sabe Megan não seja sua primeira secretária a encontrar uma saída além de ser demitida, pedir as contas ou bater as botas...


















Na semana passada, comentei
Não poderia concluir este texto sem prestar minha última homenagem a Ida Blankenship, que passou da condição de alívio cômico para sarcástica voz de sua geração. Se logo em sua estreia 