quarta-feira, 28 de setembro de 2011

[Breaking Bad] 4x10/4x11 - Salud/Crawl Space


"Hahahahaha... hahahahaha!!" - Walter "The Joker" White


Deixar para escrever um texto sobre dois episódios de Breaking Bad tem suas vantagens e desvantagens. O problema maior é dar conta de tudo o que acontece, todas as grandes cenas, atuações, diálogos e desdobramentos de uma série que parece não ter limites para sua criatividade. Por outro lado, o segundo episódio esclarece e nos surpreende com elementos que até tentamos, mas passamos longe de adivinhar.


O caso Beneke, por exemplo: em “Salud”, Skyler confirma nossas suspeitas de que ela dará a Ted o dinheiro que ele precisa, usando Saul inicialmente, mas logo tendo que revelar o que fez, quando ele compra uma Mercedes ao invés de pagar a Receita. Ted faz isso para manter as aparências e voltar aos negócios e o episódio gira em torno disso, com Jesse também simulando algo que ele não é para os químicos do Cartel (conquistando a admiração de Gus e Mike), e Walt preocupado com a imagem de frágil que o filho presenciou, quando na verdade este considera a persona Heisenberg que o pai encarna como irreal. E, claro, Gus mantendo as aparências para eliminar boa parte do Cartel na espetacular sequência que encerra o episódio.


Quando Skyler conta a Ted que o dinheiro é dela (um ato arrogante e impensado, mas quem pode condená-la depois de ouvir as justificativas descabidas de Ted?), já podemos imaginar que o personagem não vai durar muito, ou com Walt descobrindo o que houve e, quem sabe, finalmente usando a ricina, ou ainda a própria Skyler sujando as mãos. Até pude visualizar um final de temporada idêntico ao anterior, com Skyler e Ted no lugar de Jesse e Gale. Mas mesmo quando algo parece ser inevitável, a série dá um jeito de nos surpreender e o destino de Ted é selado logo depois em “Crawl Space”, numa cena recheada de humor negro que lembra os irmãos Coen, mestres em encenar o patético e o ridículo de situações como esta. Breaking Bad tem os pés fincados na realidade, mas o acaso, a sorte e o azar sempre rondam os personagens, pregando peças inesperadas – e Ted já havia sido alertado quando tropeça no tapete ao abrir a porta para Skyler.


O fascinante nesta trama envolvendo Beneke é que, enquanto pensávamos que seus problemas com a Receita levariam a uma investigação do lava-a-jato, na verdade as conseqüências são bem piores e mais imediatas: a perda desse dinheiro no exato momento em que Walt é demitido e ameaçado de morte acaba de vez com a oportunidade do protagonista em desaparecer com a família, sugestão que Saul deu no início da temporada e agora impossível por falta de recursos financeiros (o dinheiro dado a Ted mais a compra do lava-a-jato, pagamento de Saul, despesas médicas de Hank, os dois carros de Walt Jr., tudo isso deve ser equivalente aos 2 ou 3 meses que Walt trabalha para Gus).


É admirável esta espiral de acontecimentos, tudo culminando na desesperadora sequência final de “Crawl Space”, que talvez seja pra mim o maior momento de uma série com quatro temporadas de quantidade enorme de momentos inesquecíveis. Tudo nesta cena é perfeitamente orquestrado, editado e sonorizado causando o máximo de impacto. É uma série que evita usar trilha sonora em cenas dramáticas, mas aqui uma batida começa no momento em que Skyler chega em casa, e é cortada com o grito de Walt “WHERE IS THE MONEY?!”, voltando com mais intensidade quando ela revela o que fez. A risada maníaca de Walt começa no exato momento em que toca o telefone, com Skyler se afastando lentamente do quadro e o que já era desesperador chega a níveis insuportáveis com a quantidade de elementos em cena: a batida, a risada, a perplexidade de Skyler, o desespero de Marie. E, por fim, Walt enquadrado. Esgotado e paralisado, o rosto com as marcas da briga com Jesse e do acidente provocado para Hank não chegar ao laboratório, o corpo certamente machucado pelos choques que levou de Tyrus. E agora, o que fazer?


Este final de episódio é tão intenso, que poderia parar por aqui. Mas tentando comentar mais algumas coisas:


- Antes deste fim em que Bryan Cranston já confirma mais uma vez seu Emmy, o ator já havia dado seu enésimo show particular quando supostamente se despede em definitivo de Saul. Walt insiste para que Saul avise Hank, provavelmente porque mesmo desaparecendo a vergonha em ser descoberto seria demais. O que significa que é mais provável Heisenberg surgir de novo, do que pedir ajuda a Narcóticos para proteger sua família. O problema é: o que Gus fará/pensará quando souber que Hank e Marie estão protegidos pela polícia?


- Não costumo buscar muitas informações sobre os episódios e não li nada a respeito sobre como foi feita a cena em que Gus ameaça Walt no deserto, com a nuvem fazendo sombra enquanto eles conversam. Alguém sabe dizer se foi efeito digital? Ou esperaram o momento certo para filmar? Seja como for, um outro belo momento da série, que impressiona por não estar deslocada ou chamar a atenção para si, coerente com o drama em cena.


- Gus vinha tendo a simpatia dos fãs, conquistando e dando a Jesse o apoio que nunca teve com Walt, tendo seu passado revelado em “Hermanos” e eliminando Don Eladio de forma impecável (o melhor momento pra mim foi o modo metódico de Gus para vomitar o veneno que tinha ingerido), enquanto Walt vinha de atos cada vez mais desprezíveis. É incrível, portanto, como os papéis mudam completamente sem soar falso: agora torcemos por Walt, que comove pelo seu desespero, pelo arrependimento do que fez a Jesse diante de Walt Jr. (aliás, chamar o filho de Jesse certamente terá conseqüências futuras), e esperamos que ele dê um jeito em Gus, especialmente depois que este mostra o quanto é o “bad guy” desta história ameaçando a família de Walt (o jeito que ele diz “infant daughter” é assustador).


- Bom ver Jesse em situação totalmente oposta a do início da temporada: em paz com Andrea, admirado por Gus e Mike e, apesar de cortar relações com Walt, não deseja sua morte, a ponto de mais uma vez confrontar Gus, quando este sugere que ele assuma o laboratório. Se me dissessem ano passado que esta seria a situação do personagem no final desta temporada, diria que não há lógica nenhuma ou consistência nos personagens...


- Jesse consegue cozinhar a droga no México, mas chega a pouco mais que 96% de pureza, o mesmo que Gale. Walt chega a 99%. Achava que era o suficiente para manter os dois no laboratório por mais algum tempo, mas pelo visto Gus desistiu de ter a melhor droga, tamanha a imprevisibilidade dos atos de Walt.


- Fico pensando se não há algo mais por trás do fato de Gus querer que Hector olhe nos olhos dele. Já são dois episódios com esta tortura psicológica, e desta vez o Tio ainda descobre que Jesse teve parte na morte de sua família. Não duvido que isto ainda terá uma importância inesperada na trama. E Mark Margolis impressiona sem emitir uma única palavra. Que elenco admirável.


- Nas discussões sobre “Salud”, vi muita gente comentando que Mike ia matar Jesse antes de levar um tiro. Dava pra contestar esse absurdo com vários argumentos, mas acho que as bolsas de sangue do tipo de Jesse que estavam preparadas pra uma ocasional emergência devem ser o suficiente pra encerrar a discussão.


Faltam dois episódios para acabar a temporada e o spoiler que tenho é: alguns de nós morreremos no final. Ou pelo menos quase.




quinta-feira, 22 de setembro de 2011

[Prófugos] 3

 Por Danielle M


Prófugos agora atacando em três frentes. os fugitivos, Tegui e a polícia, e o cartel concorrente aos Ferragut. Deu mais dinâmica a história e apresentou os coadjuvantes de forma digna.

Depois do sequestro e fuga descarados do hospital, levando o "sem nome" testemunha, os prófugos daquela maneira bem peculiar de Moreno, conseguem arrancar, literalmente hohoho, a sua identidade. Aguilera junior, filho de Aguilera pai e traficante concorrente sanguinário que está por trás de toda malfadada situação do cais de Valparaíso. A cena que eles estão com junior demora um século em silêncio. Incomodou porque a gente já sabia que Moreno iria colocar em prática todas as suas técnicas de tortura aperfeiçoadas na ditadura Pinochet. Salamanca nem se incomodou, e mesmo com os outros rapazes fazendo carinha de nojinho, Moreno conseguiu tudo.E o tudo foi tenso. Salamanca sabe que Aguilera sequestrou sua filha. Exige a troca. Filho por filho. E desta troca e seus desdobramentos tratou o terceiro episódio de Prófugos.

 Mario Moreno, narcotraficante do coração.

 Bom, como eu já tinha cantando a pedra, começaram os flashbacks. Oscar Salamanca, revolucionário dos anos 70, participante ativo da guerrilha urbana no Chile de Pinochet, é perseguido pela polícia. Tem uma discussão séria em casa com a esposa sobre suas ações. Salamanca tem essa visão de que tudo que faz é movido por motivos maiores, alheios a sua vontade. Ele age por um bem maior. Mesmo como traficante, ele ainda se vê numa missão superior. Sua filha, Irma, é este bem maior. A relação com a menina é distante, não por vontade própria, sua esposa morreu na frente da criança. Obrigado a entregar aos avós, a menina tem uma péssima visão do pai. Culpa cristã ruleia.

Na outra frente de atuação está Tegui. Ele liga para a polícia e fala com o chefe, já estava imaginando o tamanho da burrada , putz ainda confia neles? Ainda bem que foi o derradeiro "teste". Marca um lugar e o chefão manda os traficantes do cartel Aguilera. Tegui tem a convicção de que foi traído, seu chefe é um filho da puta completamente ligado aos traficantes. Não deixa a coisa pra lá não, até porque a situação do policial disfarçado é a pior de todos. se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Tegui pega o chefinho e o cara acaba virando moeda de troca também, de uma maneira bem torta, mas vira.

 Quem quer matar seu chefe?


Toda a sequencia nas montanhas geladas dos Andes é incrível. Assim como o "núcleo Aguilera". O cartel antagônico aos do Ferragut impressiona pela, hmm, organização.  São os verdadeiros responsáveis por toda via crucis dos prófugos, incluindo a perseguição aos seus familiares. Irma é estuprada antes, mas a troca é concretizada num teleférico.  Como Aguilera junior foi morto pelo método Moreno de interrogar testemunhas, o jeito foi disfarçar o chefinho de Tegui.

Quase ao fim do episódio, apesar de toda ação, achei que foi até mais devagar do que os outros dois anteriores. Não estava aquela correria frenetica toda. Até respirei. Engano. Não é que Moreno apronta? Achei até que ele estava quieto e cool demais. Ele tira o defunto Aguilera junior do carro, o arrasta sob a neve marcando uma trilha de sangue. Ao perceber que não é o seu amado filho na troca, Aguilera pai vai atrás. Segue a trilha e encontra a cabeça de seu filho na neve. Justiça poética hein, Moreno? Gritei um palavrão daqueles. Tô pra falar que a psiquê de Moreno é a que mais me interessa. Torturador e assassino sim, mas quando ele arranca a cabeça do herdeiro Aguilera o que o move é a vingança. Eles mataram a sua companheira grávida, talvez, quem sabe, a única pessoa que lhe dava um aspecto de viver na normalidade. Mesmo que na superfície.

** fotos reprodução

danimistica@gmail.com

domingo, 18 de setembro de 2011

[Prófugos] 2



Por Danielle M

Neste 2o episódio de Prófugos, o que se desenhava no piloto toma cor e forma agora. A negociação do cartel Ferragut que deu errado e levou os quatro narcotraficantes, Vicente, Mario, Tegui e Oscar a fugir, confirmar os sinais de que corrupção policial e concorrência entre carteis são os motivos para encrenca toda.


O chefe encarregado da Polícia Federal chilena afasta a promotora do caso e tenta encobrir o único sobrevivente, fora os prófugos, hohoho, da chacina do Porto em Valparaíso.  A identidade do sobrevivente é até então desconhecida, todo o mistério faz com que a promotora perceba que tem coisa por aí. Ela acaba encontrando o seu ex namorado, o policial disfarçado Alvaro (Tegui), que sai do esconderijo onde estão os seus "camparsas" para tentar entender o que diabo está acontecendo. Tegui fica sabendo da testemunha e junto aos companheiros fugitivos realizam o sequestro dentro do hospital, praticamente na cara de todo mundo e ainda saem de helicóptero.

Neste episódio fica claro para os prófugos que eles estão sendo perseguidos desde o começo. Imagens do noticiário mostra parte da ação do grupo na Bolívia. Trata-se de uma emboscada, não há dúvidas. Mas para Tegui, que denunciou toda a empreitada, local da entrega, enfim, tudo, é preciso correr atrás para compreender porque seus companheiros policiais atiraram contra ele. Ao saber da testemunha, Tegui tem a certeza de que poderá desvendar o que há por trás de toda ação, bom, ele já tem uma vaga idéia de que foi traído. Com esta testemunha eles também podem conseguir alguma barganha com a polícia. Mas Tegui precisa de mais elementos para  reverter toda a sua situação, já que a esta altura dos acontecimentos ele é tão narcotraficante e fugitivo como os outros.

 Interessante também neste capítulo a dimensão humana dos fugitivos. Até Moreno, o mais violento e cruel, fica absolutamente destabilizado quando escuta ao telefone, no momento em que falava com sua companheira e pedia para que saisse de sua casa, o seu assassinato. Não perdoaram a moça e olha que ela estava grávida. Como nada é aleatório e a caçada aos prófugos não se resume ao bando, a filha de Oscar também é vítima da perseguição. Ela é retirada, ainda viva,  de sua família, com direito a matança geral. Os quatro entendem que não devem temer apenas a polícia.

Próximo ao final do segundo capítulo, a identidade da testemunha é revelada. Trata-se do filho do dono do cartel concorrente aos Ferragut .E quem avisa sobre isso ao pai do moço? Ora vejam só, o chefe da polícia contra o tráfico. Taí Tegui o seu inimigo.

 Cartel concorrente e polícia atrás dos prófugos, trabalhando "em conjunto". Não vejo a hora das coisas inverterem.

Cenas e/ou diálogos interessantes:

-Vicente Ferragut entendendo, finalmente, que estavam sendo perseguidos desde o começo.
- Moreno escutando o assassinato de sua companheira grávida sem poder fazer nada. E enchendo o nariz de cocaína logo depois.
- Oscar pondo um fim ao sofrimento da avó de sua filha com um tiro certeiro, após chegar a casa da família e constatar seu sequestro.
- Oscar e um ex companheiro conversando sobre o que se transformaram: - Nós lutávamos contra a ditadura, companheiro. Hoje somos traficantes. O que deu errado?



 **Foto: reprodução

danimistica@gmail.com

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

[Breaking Bad] 4x08/4x09 - Hermanos/Bug


Por uma série de questões não pude escrever sobre o episódio da semana passada, "Hermanos". Pra compensar, posto um texto único já com comentários sobre o episódio de ontem, "Bug". Não está bem estruturado, é cheio de idas e vindas, transitando por ambos os episódios. Portanto, sugestão é que seja lido após o nono episódio ser visto. Também foi escrito às pressas, com "Bug" visto uma única vez (costumo rever os episódios para só depois comentá-los). Então durante a semana posso acrescentar mais algumas impressões, caso tenha tempo, que irão pra caixa de comentários. Tenho certeza que muitas coisas interessantes ficaram de fora do texto abaixo, ou por esquecimento ou por não ter percebido numa primeira visão do episódio.



“Guess there's a lot of angles to consider.” – Jesse


E como há ângulos. Breaking Bad chegou a um ponto que é possível dedicar quase um episódio inteiro a um coadjuvante que só surgiu no fim da 2ª temporada, com direito a um longo flashback contando seu passado, e ainda fazer desta hora uma das melhores da TV deste ano. A proposta de “Hermanos” chega no momento ideal, quando Gus se vê cercado por todos os lados: Hank, o Cartel, Walt. E é um episódio extremamente bem dirigido e montado, não por algum arroubo técnico ou solução visual criativa, mas é estruturado de forma que tenhamos três grandes momentos de tensão, todos se resumindo a personagens conversando entre si – o interrogatório de Gus, Hank e Walter no estacionamento do Los Pollos, o flashback.


E aí vem um episódio como “Bug”, que coloca Walt no centro novamente e, mais importante, sua relação com Jesse, que sempre foi a grande protagonista da série. Em Breaking Bad somos surpreendidos constantemente pelo que vai acontecer no episódio seguinte, mas não é que os roteiristas criam do nada, e até vão diretamente ao ponto: se Walt vê uma mensagem no celular de Jesse que o faz suspeitar do parceiro, parece óbvio que ele usará o equipamento que descobriu através de Hank como é fácil comprar e utilizar; da mesma forma, se temos Hank contando aos colegas policiais suas suspeitas sobre Gus, logo em seguida temos um interrogatório (a propósito: ali tira as suspeitas sobre Gomez e o chefe de Hank, pois Gus se sai muito bem mas foi claramente pego de surpresa, assim como mais adiante Mike vai buscar informações; o que não aconteceria se um dos policiais envolvidos no interrogatório estivesse na lista de pagamento do “chicken man”). As coisas acontecem rápido na série, não há enrolas, um acontecimento leva a outro que leva a outro que leva a outro... e todos são incríveis, bem narrados, tensos, bem atuados.


E esta sequência de acontecimentos segue uma linha descendente, ladeira abaixo mesmo, pois todos se afundam cada vez mais na bagunça que virou suas vidas. A relação entre Walt e Jesse corre o risco de nunca mais ser a mesma e é genial que a briga entre os dois venha logo após Jesse mostrar toda a lealdade ao seu ex-professor, confrontando Gus mais uma vez e deixando claro de que lado está (é a segunda vez que Jesse desafia Gus e as reações de Giancarlo Esposito são de arrepiar, mistura de incredulidade por alguém ousar contestá-lo, raiva e talvez até algum respeito pela atitude de Jesse). Outra coisa incrível é que finalmente sabemos o que o Cartel quer com o “sim ou não” (a série nunca fez questão de manter segredos) e acaba sendo uma revelação que fica em segundo plano, tamanha é a tensão que ficamos com o que acontecerá entre Walt e Jesse (amplificada pela breve abertura do episódio que nos faz questão de mostrar que se trata de Walt com sangue pingando no chão).


Por um lado, nossa simpatia fica com Jesse, especialmente pela capacidade que Walt tem em ferir o parceiro, ao mostrar que realmente não acredita que ele seja capaz de ensinar algo aos químicos do Cartel e que é totalmente seu dependente. É interessante pensar em como Jesse se comportará, pois apesar de tudo, ele continua o jovem de bom coração, não só preocupado com Andrea e Brock, mas ainda se preocupa com Hank, mesmo que apenas por saber como Walt ficaria mal, ao reforçar com Mike a importância de não matá-lo.


Por outro lado, é compreensível a atitude de Walt, que vem sendo construída cuidadosamente desde o início da temporada, preocupado e obcecado com os próximos passos de Gus e em “Bug” reforçado por duas vezes, quando se pergunta o mesmo que Hank (“como pegar esse cara?”) e Skyler (dar um jeito de abandonar seu segundo emprego). Ele sabe que Jesse está mentindo pra ele, descobre que estiveram juntos na casa de Gus (num jantar que mais parece um ritual para Mr. Fring, que adora cozinhar quando precisa do favor ou simpatia de alguém, algo já feito com Walt na temporada passada), se vê cada vez mais sozinho, acuado, mas acredita que tem controle sobre sua vida e que pode defender todos. É preocupante que o protagonista tenha, a cada episódio, comportamentos mais e mais desagradáveis, mas até agora nada é fora de tom ou incoerente. Só espero que até o final da temporada, Walt tenha alguma atitude nobre (como na temporada anterior) para equilibrar com o péssimo ser humano que ele vem sendo.


Isso nos leva ao seu ato desprezível em “Hermanos”, na cena com o outro paciente com câncer, que aguarda um exame. É uma sequência engraçada e triste, porque Walt é insensível ao sofrimento do outro e diz duras verdades que ele acredita estar vivendo, mas está longe disso. Prova maior é seu inesperado encontro logo depois com Gus. Mike já havia avisado que eles nunca mais se veriam e, claro, sabíamos que até o final da temporada iria acontecer. O choque, para nós e principalmente para Walt, é acontecer desta forma tão repentina e de forma oposta esperada pelo “Heinsenberg-controlo-minha-vida”, que queria estar frente a frente com Gustavo Fring para um acerto de contas e acaba numa situação embaraçosa, desesperado e quase pedindo desculpas pelo que Hank o pediu pra fazer. O outro detalhe desta cena do exame médico é nos lembrar da saúde de nosso protagonista e de que o câncer é algo que pode retornar para o centro da trama. Em “Bug” tivemos mais uma sinalização disto ao vermos Walt evitando tragar/inalar a fumaça do cigarro que fuma com Jesse. O câncer de Walt entrou em remissão num momento em que ele já estava aceitando a morte e vendo como resolução para seus problemas. Não duvido de mais uma peça pregada pelo destino que a doença retorne quando ele se sentir ainda mais em controle e de bem com a vida (embora seja difícil pensar quando Walt estará em posição tão confortável).


Enquanto isso, Skyler também tem que lidar com as conseqüências de seus atos. Depois de descobrir onde guardar o dinheiro do marido (tão metafórico o peso que não se sustenta e vai parar debaixo da casa), o passado bate à sua porta na forma de Ted e seus problemas legais. É divertido ver Skyler, sempre inteligente e dissimulada quando precisa ser, livrando Ted da confusão em que se meteu fingindo ser uma contadora burra e ingênua e por um momento achei que era apenas um ciclo que precisava ser fechado, mas a falência de Ted a obriga a uma atitude mais drástica: é preciso pagar sua dívida para que não cause problemas futuros que colocariam a Receita muito próxima do lava-a-jato. Como ela fará isto com a discrição que tanto tenta manter ao controlar os gastos de Walt é uma das questões mais interessantes, que aparenta desenvolver uma trama que será tão importante quanto a guerra de Gus com o Cartel (e é curioso o detalhe do carro modesto dirigido por Ted para ilustrar sua situação financeira, já que no episódio anterior Hank comenta sobre a modéstia do carro de Gus e é exatamente o que Skyler deseja para o seu filho, também para manter as aparências).


Por fim, temos Gustavo Fring. Metódico, frio e calculista, é incrível como se dá bem no interrogatório, preparado até mesmo para uma situação que provavelmente nunca imaginou que passaria. A sequência é um primor de edição, atuação e sutileza (adoro como Gus pede para que Hank não se levante e o ajuda com as muletas) e culmina com o personagem no elevador, apenas um leve tremor no dedo indicador que abala sua postura, e um close frontal de seu rosto (“Hermanos” é cheio de closes desse tipo, assim como das mãos dos personagens e até mesmo do pescoço de Gus em situação tensa e de Walt no estacionamento com Hank, no momento em que Mike estaciona ao lado). Não é o ponto alto de Giancarlo Esposito no episódio, porque ao final temos a longa sequência em flashback, elemento estranho da série, que pela primeira vez usa o recurso durante a trama (sempre foi utilizado na abertura dos episódios), mas que funciona perfeitamente para dar novo sentido à relação entre Gus e Hector “Tio” Salamanca, além de mais um grande feito narrativo: podemos até ter certeza de quem morrerá naquela cena (a água da piscina com sangue que fecha a introdução do episódio já antecipa isto), mas tudo é construído de forma que não parece que Gus sobreviverá ao encontro com Don Eladio.


Minha proposta original para um post só sobre “Hermanos” era pontuar os aspectos importantes deste flashback, mas de forma resumida: é provável que Don Eladio já esteja morto, uma vez que seus dois capangas, Hector e Juan, assumiram postos de chefia dentro do Cartel (e pelo menos Hector virou Don Salamanca); Eladio é interpretado por Steven Bauer que, assim como Mark Margolis (Hector), atuou em “Scarface”, filme referência de Vince Gilligan; não lembro se em algum momento fica claro qual a doença de “Tio”, mas é provável que seja algo degenerativo, que já mostra seus sintomas no flashback – notem como ele segura uma mão com a outra para beber; Gus certamente não mentiu sobre como conheceu Gale, inclusive informando sobre seu “Hermano”, um homem que morreu cedo demais, cujo nome foi dado à bolsa em Química que ele desenvolveu; seu passado no Chile é mais um mistério criado em torno do personagem, e motivo para não ter sido morto por Don Eladio. Não é difícil imaginar algo relacionado ao próprio Pinochet, lembrando da abertura do episódio “One Minute”, em que Hector ao telefone se refere a Gus como “Generalissimo”.


Como se não bastasse, em “Bug” tivemos mais uma cena sensacional com Gus, andando em direção ao franco-atirador, como o Terminator (bem lembrado por Jesse). É um episódio em que se permite explodir a violência e a tensão e catarse vem sempre do quanto conhecemos os personagens. Um momento incrível de um personagem incrível de uma série idem.


O que esperar para os quatro episódios finais? Parece impossível imaginar um final de temporada em que, no mínimo, um de nossos coadjuvantes prediletos não morra: Gus, Mike ou Hank? (não consigo imaginar Jesse ou Skyler fora da última temporada) E se todos esses excelentes atores retornarem no ano que vem, melhor ainda. Prova de que teremos uma resolução incrivelmente genial e inesperada para os conflitos criados.




sábado, 10 de setembro de 2011

[Prófugos] - Piloto

Por Danielle M


A HBO sabe fazer televisão. Na América latina já garantiu coisas muito boas. Epitáfios na Argentina. Alice, Mandrake e Filhos do Carnaval no Brasil, e agora partiu para o Chile.

Prófugos, que em espanhol significa nada mais que fugitivos, é a nova empreitada do canal no nosso território, dessa vez as belas paisagens do Chile serão usadas, além de grandes atores do país e uma história que, apesar de manjada, começou bem amarrada e prende do começo ao fim.

Os bonitões de Prófugos

Todo domingo na HBO 1 no idioma original com legendas. O Cinemax, também do grupo HBO e que atualmente exibe a 1a temporada de Epitáfios, também mostrará Prófugos, mas dublado, e olha, faz uma diferença...


Então vamos a história. Tudo começa sem maiores explicações sobre cada personagem, o que, provavelmente, deverá ser desenvolvido ao longo dos 13 episódios. Eles saem do Chile e vão até a Bolívia pegar cocaina líquida. Bom, até esse ponto eu nunca tinha ouvido falar desta "modalidade" da droga e já achei interessante. No meio do deserto, transportando o material, já começa a violência toda, Mario Moreno, um ex (?)torturador do governo Pinochet, agora a serviço do Cartel Ferragut, mata os policiais que os interceptam sem a menor cerimônia. Mais tarde encontram o resto do grupo já no Chile para terminar o "projeto".

O grupo tem ainda um ex revolucionário, Oscar - o que por si já garante uma deliciosa e conflitante relação com Moreno - Um policial disfarçado capaz de tudo, Alvaro ( e esse tudo já me chocou na cena do banheiro, que que isso), o filho da dona do Cartel Ferragut, Vicente, que parece não se sentir muito confortável como "herdeiro" da família nos negócios.


O resto dos personagens são a polícia - que parece envolvida com outro cartel (corrupção ruleia)- A irmã de Vicente e também herdeira do cartel, Laura. E  é claro , a mãe do clã,  Kika, a senhora de tudo que comanda a operação diretamente da cadeia através do celular , bem ao estilo dos traficantes brasileiros. Além da filha do ex revolucionário. Mas pelo que andei lendo tem muita gente ainda para entrar e ajudar a contar a história. Me pareceu que as motivações do grupo serão uma atração a parte e acho que deve rolar muito flashback. Desculpe usar muito o termo "parece", o texto é a partir de minhas impressões da história. Evitei ler muito sobre a série para não ser pega em spoilers.

O que mostrou neste piloto é exatamente como eles se transformaram em prófugos, deu tudo errado na operação e, apesar de ter um policial no grupo, fica claro que não foi por isso que o negócio não deu certo. Ao entregar o carregamento no porto, a polícia chega, tiros para todo lado, atiradores nos prédios, e  neste confronto, Alvaro precisou matar um "colega". Pois é, colega? A cilada não era apenas para o grupinho de traficantes.

O ritmo é vertiginoso, ação completa, mas uma ótima história. Produto super bem acabado e efeitos que não perdem para nenhum filme americano. Dá orgulho da indústria latina, minha gente! Gostei muito do que vi e vou acompanhar feliz da vida.

Vida longa a HBO!


danimistica@gmail.com

**fotos reprodução

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

[Breaking Bad] 4x07 - Problem Dog


“How close were you to him?” – Walt

“Close… closer than you and me right now.” - Jesse


- Nós temos Walter White. Que, como já vimos antes, vem tendo as atitudes mais imaturas e irresponsáveis, ao sentir a pressão em não saber o que Gus lhe reserva, em ter Skyler no seu pé controlando seus comportamentos, em ver Jesse se aproximar cada vez mais de seus inimigos. Nada mais típico, então, que vê-lo extravasando com o carro (talvez se tivesse feito isso antes no kart com Jesse as coisas estivessem um pouco diferentes), torrando dinheiro de forma que nem esposa e o filho saibam. Cena engraçada: imaginamos que o carro explodirá enquanto Walt dá as costas para ele (afinal, "cool guys don't look at explosions"); mas Heisenberg está longe de ser perigoso como os primos de Tuco, que tiveram cena semelhante na temporada passada, e o que vemos é um homem em atitude infantil, sentado, olhando seu brinquedo indesejável ser destruído. Puro capricho. Walt também insiste com seu plano em eliminar Gus e mais uma vez temos a ricina como meio. Fico curioso pra saber se alguém na série um dia morrerá envenenado desta forma, algo que Walt nunca conseguiu concretizar.


- Nós temos Jesse Pinkman. Que já teve que lidar com a morte de Jane, com a morte do irmão de Andrea e não consegue superar a morte de Gale por suas próprias mãos. Claro, as coisas estão melhores desde que Mike e Gus o fizeram se sentir útil. Antes disso o personagem estava à beira do QUIT, mas agora é possível clicar em RESTART. Mas isso não o impede de ainda se questionar e se julgar pelo que fez, principalmente depois que mais uma vez Walt lhe pede para matar. Sua lealdade está abalada (não a ponto de se virar contra Walt, isso ainda demoraria bastante; talvez apenas se soubesse sobre Jane) e se vê completamente perdido. A ordem do dia é "olhos abertos e boca fechada" e o que Jesse veste é uma camiseta em que o rosto não tem nem olhos nem boca. Questão de tempo, então, que voltasse ao grupo de ajuda, numa dessas sequências de monólogo em que Aaron Paul sempre impressiona, aqui presenteado por um roteiro de diálogo forte transformando a história de Gale na história de um cachorro que fora abatido. A perplexidade e a dor de Jesse são perfeitamente sentidas à medida em que as pessoas do grupo começam a questionar qual era o problema do cachorro, e não há resposta pra isso. A cena é intensa, comove pela atuação (Paul pode perfeitamente enviar este episódio para o Emmy) e impressiona na composição realista de como um grupo desses se comporta, dos questionamentos e comentários dos usuários, passando pela forma como age o coordenador.


- Nós temos Hank Schrader. Que começou a série quase como um bobo da corte e foi ganhando importância e nossa simpatia. Porque apesar de bobalhão, Hank sempre se mostrou capaz e perspicaz, a um passo de descobrir a verdade sobre Walt. E quando se pergunta o que um vegetariano como Gale faria num lugar como Los Pollos Hermanos no final de "Shotgun", lamentamos que ele não apareça no episódio seguinte. Só para nos surpreender aqui: aparentemente uma missão de reconhecimento com Walter Junior, até soa falso ele suspeitar tão rapidamente de Gus (e observem como Hank bebe seu refrigerante tendo o cuidado de segurar o copo apenas pela tampa), para no final o personagem nos jogar na cara que apesar de ausente no episódio passado, sua investigação não parou. É só mais um fator incrível deste excepcional time de roteiristas: estar ausente da trama não significa que um personagem está estagnado, esperando cumprir um papel quando for conveniente. É curioso também notar o paralelo com o episódio 7 da temporada anterior, o já clássico "One Minute", que também trouxe Jesse e Hank como protagonistas, o primeiro em outro grande monólogo, o segundo passando por seu pior momento e aqui dando a volta por cima, inclusive mais capaz de se locomover.


- Nós temos Gustavo Fring. Que nos foi apresentado como um modesto gerente de filial do Los Pollos Hermanos e que aos poucos se mostrou um poderoso, inteligente e implacável chefão do crime. Sempre admiramos - e comentei isto no texto anterior - a discrição de Gus, atendendo clientes do Los Pollos, um escritório simples, o lixo que ele mesmo retira. Doce ironia: não fosse tamanho disfarce, talvez Hank não conseguiria tão facilmente suas digitais. E a investigação se fecha sobre ele exatamente quando o Cartel recusa uma negociação (esnobando os 50 milhões de dólares oferecidos) e ainda com Walt e um vacilante Jesse em seu encalço. O Cartel quer apenas um "sim" ou "não" como resposta para algo que causa desconforto em Gus. Enquanto via o episódio, eu não tinha dúvidas que se tratava de Heisenberg morto, o que daria peso ainda maior à decisão de Jesse - se ele tivesse seguido a orientação de Walt (e Gus bebe o café), não haveria mais quem os protegessem do Cartel. Mas a verdade é que não fica claro e com uma série tão surpreendente como Breaking Bad, pode ser algo completamente diferente.


- Nós temos Skyler White. Que passa a temporada entrando aos poucos no mundo de Walt, e agora com o lava-a-jato já comprado, é hora de colocar a mão no dinheiro. Há quem critique o tempo que a série tem levado para desenvolver toda esta trama, mas é o cuidado necessário para que a transição da personagem seja o mais realista possível. E nada contra estas pequenas cenas, tão bem construídas - do beijo desajeitado em Walt na frente de Marie à sua preocupação coerente com o tanto que seu marido fatura, não duvido que ainda veremos minuciosamente todo o processo de lavagem de dinheiro.


- Nós temos Walter Junior. Que esperávamos alguma cena dramática envolvendo a devolução do carro, mas o que temos é apenas a sua aceitação a contragosto, conversando com Hank. E é uma conversa importante, pois graças a intervenção de Skyler, a história do carro comprado mas que teve que ser devolvido pois foi um capricho de pai que teve compaixão pelo filho, acaba sendo perfeitamente plausível para Hank, que se não afasta suspeitas de Walt, também não as acumula. Outro ponto interessante envolvendo Walter Jr. é o convite que Gus faz para que ele trabalhe no Los Pollos. Talvez rendesse algo, com um conflito entre pai e filho, mas com Hank na cola de Gus, somente uma incrível rebeldia de Jr. para que isso acontecesse. Mais um golpe esperto do "chicken man".


- Nós temos Mike. Que continua se aproximando de Jesse, confiando-o uma arma durante momento tão importante como o encontro com o Cartel e se disponibilizando para ensiná-lo a atirar. Ainda assim, é sempre com cuidado, sabendo o quanto Jesse é ligado a Walt, mas não resta dúvidas de que sua simpatia só aumenta e que isso terá um peso maior no futuro.


- Nós temos Saul Goodman. Que tem aparecido pouco, mas sempre de forma essencial e engraçada ("epic fail!"), servindo como conselheiro e suporte para Walt, tanto na resolução de seus caprichos quanto para desabafo. É através dele que Walt fica sabendo do encontro que seu parceiro teve com Gus e apenas porque Saul ainda sente medo de Mike e está sempre questionando Jesse. E é curioso termos uma visão do cofre dele, onde há mais gravações do que dinheiro. Qual trunfo Saul teria nas mangas?


- Nós temos Marie Schrader. Que depois de um maior destaque nos primeiros episódios da temporada, não tem aparecido com frequência. Mas aqui tivemos um breve momento com seu marido que mostra como anda a dinâmica entre os dois, não muito diferente, embora melhorando aos poucos: Hank sendo grosseiro pela milionésima vez e ela retribuindo com um beijo e desejo de boa sorte. O suficiente para deixá-lo desconcertado. Importante também notar sua cena com Skyler, quando por muito pouco Marie não comentou sobre o que mais tem deixado Hank animado (talvez se Walt não tivesse interrompido). Imagino que chegará o momento em que Skyler atrapalhará a investigação do cunhado.


Um episódio como este “Problem Dog” impressiona, dentre muitos outros motivos, por mostrar todos os personagens importantes da série (além do Cartel, também tivemos o retorno de Gomez e do chefe de Hank, que podem ou não ter envolvimento com Gus) e como as relações entre eles estão cada vez mais estreitas e problemáticas. Fascinante (e triste) pensar que da forma como as coisas estão se desenvolvendo, parece impossível que todos eles sobrevivam para a quinta temporada.


Porque não há dúvidas que a partir de agora tudo ficará muito, muito feio.



Hélio Flores
twitter.com/helioflores


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

[Breaking Bad] 4x06 - Cornered


“A boss has to be tough (…) Can you be tough, Walter?” - Bogdan


Já vem sendo bastante usada em textos sobre Breaking Bad a definição que o criador Vince Gilligan deu para o que seria a essência da série: a história de como Mr. Chips se tranforma em Scarface. Ao associar Walter White a dois personagens conhecidos da cultura americana tão díspares entre si - o dedicado, inofensivo professor e o criminoso que construiu um império do tráfico -, Gilligan já nos deixa de sobreaviso que, por mais imprevisível que seja o caminho, o destino de Walt está traçado (ainda que não necessariamente seja este o final da série). E o que vemos neste "Cornered" é a tentativa atrapalhada e imatura do protagonista em se mostrar Scarface quando todos em sua volta o veem como Mr. Chips.


A começar pelos conflitos que abrem e fecham o episódio, com Skyler. Como já era previsto, a conversa no jantar com Hank iria chamar sua atenção e imediatamente a mensagem eletrônica apaixonada do episódio anterior tem um novo (e real) sentido. Mas Skyler, ao contrário de nós, não faz ideia do que seu marido já foi capaz de fazer e naturalmente, não só pensa que ele está em perigo, como interpreta sua arrogância regada a vinho como um pedido de socorro. É um destes momentos que serão inesquecíveis quando lembrarmos da série no futuro: Skyler tendo finalmente uma visão de Heisenberg, com Cranston explodindo em duas frases que se tornarão clássicas, "I AM the danger; I am the one who KNOCKS!".


Deixar de perceber o marido como vítima, e vê-lo como assassino, faz Skyler repensar sua decisão sobre continuar os planos de manutenção da família, mas não por muito tempo. A sequência na fronteira com os 4 estados em que deixa a sorte decidir seu futuro é interessante por dois motivos: primeiro, porque no fim das contas Skyler quer mesmo correr o risco de permanecer ao lado do marido, deixando escapar a oportunidade de fugir desta vida, da mesma forma que Walt e Jesse já deixaram tantas vezes. Decisões erradas são tomadas constantemente pelos personagens. Segundo, porque até que ponto a moeda caindo no mesmo lugar sinaliza o futuro de Skyler? Embora os personagens sejam responsáveis pelas decisões que tomam, a série sempre teve este peso quase místico em que o destino (ou carma ou azar, ou como quisermos chamar) prega peças terríveis, a mais explícita delas o acidente aéreo, castigo direto do céu, que cai sobre Walt. Numa temporada em que mensagens estão sendo enviadas de forma violenta (Gus matando Victor; o Cartel na sequência que abre o episódio), estaria o destino enviando uma de forma sutil para Skyler? Não acredito que a personagem morra, já que é a contraparte necessária para manter alguns dos conflitos mais interessantes do protagonista - e alguém precisa proteger a família do homem que protege a família, outra frase já antológica e nos lembrando mais uma vez de como Skyler é odiada injustamente -, mas não há dúvidas de que ali foi a última chance de mudar as coisas, momento de virada para um futuro de consequências trágicas.


Mas não foi apenas Skyler quem teve o desprazer de ver Walt forçando um controle sobre sua vida que na verdade não tem completamente. Bogdan, Jesse, Walter Junior e Gus (via câmeras no laboratório) tiveram contato com o Mr. Chips querendo ser chefão, com resultados diversos. O mais cruel deles foi com Bogdan, que tentou dar lições para Walt e atribuiu a Skyler o lado "forte" do casal. Gilligan também já disse que aos poucos perderemos toda nossa simpatia por Walt e aqui há uma amostra disto, com o desprezível gesto de pegar a cédula tão importante e simbólica para Bogdan e comprar um refrigerante unicamente pelo prazer de apagar qualquer traço do romeno no lava-a-jato.


Tão terrível quanto é sua incapacidade em se relacionar com Jesse de uma forma que não seja egoísta e agressiva. Walt está tão desesperado e despreparado para lidar com o que acontece à sua volta (prever os próximos passos de Gus, lidar com o controle de Skyler, assumir uma postura de chefe e protetor) que pouco adianta sua inteligência em perceber as intenções de Gus e a armação do episódio anterior se não há o mínimo de sensibilidade no trato com seu parceiro - ao contrário de Gus que em uma única frase diz tudo o que Jesse quer ouvir e não deixa de ter algo de sincero. Walt chega a gritar "it's all about me!" sem se dar conta de quão horrível ele está sendo.


Gus também lhe dá outra lição ao mandar de volta para Honduras as mulheres que ele paga pra fazer a limpeza do laboratório - e quero acreditar que Tyrus não estava mentindo quando disse que elas pegariam um ônibus... -, em outra atitude arrogante, desafiadora e imatura. A cena é engraçada, especialmente porque Walt descansa seus pés e toma café, exatamente da forma como Bogdan alertou que não deve ser a postura de um chefe. E não custa lembrar que o próprio Gus continua em um modesto escritório numa filial do Los Pollos, onde ele mesmo retira o lixo...


Por fim, com Walter Junior, sua última demonstração de despreparo. Incomodado com a visão que o filho faz dele, de alguém doente não responsável pelos seus próprios atos, compra o carro dos sonhos em mais um luxo desnecessário (curiosamente vermelho, cor essencial na série, e a mesma do carro de Jesse que, por outro lado, é bem mais modesto). Walter Jr. finalmente começa a ganhar destaque nesta temporada e só aumentará, quando as coisas ficarem feias em casa, principalmente para o lado de Skyler, ao receber a notícia que o carro tem que ser devolvido.


Outras considerações:

- O episódio começa da mesma forma que "Bullet Points", com o ar gelado de alguém confinado num caminhão de sorvetes do Los Pollos. Fiquei curioso pra saber como Mike sairia daquela situação (porque óbvio que ele sairia), e imagino se não teremos mais aberturas como esta. Talvez Jesse seja o próximo a protagonizar uma cena dessas;


- Sempre gosto dos pequenos detalhes: da cicatriz da cirurgia de Walt (vista também no episódio anterior após o sexo com Skyler) à sua cabeça sendo raspada no banho (muitos se perguntam do porquê de quase todos os homens da série serem carecas e até explicações de que no caso de Walt seria o câncer), passando pela “lancheira” do Los Pollos para seus empregados, vista na abertura e no carro de Mike.


- O diretor do episódio foi Michael Slovis, o excelente diretor de fotografia da série, deixando sua função pelo segundo episódio consecutivo a cargo de Nelson Cragg. Há grandes momentos, como Skyler perdida no céu azul na fronteira, ou a enervante situação com os viciados ("Tucker!!"), mas de modo geral as cores e a luz não tem me causado o impacto que a série costuma causar. Também não gosto da câmera instalada na pá quando Jesse vai executar seu ótimo e inusitado plano: um "frufru" estiloso e deslocado pra chamar a atenção. Espero que Slovis retorne ao seu trabalho original logo.


- Duas coisas que comentei no post anterior desenvolvidas no episódio: a dependência de Jesse foi mencionada e aqui pudemos ver os tremores da abstinência; e sua relação com Mike só tende a crescer (reparem no sorriso deste ao ver Jesse conseguindo entrar na casa dos viciados), o que não é nada bom para Walt.


- Falando da relação entre Jesse e Walt, quando Skyler pergunta se quem atirou em Gale pode também matá-lo, Walt responde “Duvido muito”. Outra mensagem sutil para o futuro?




Hélio Flores
twitter.com/helioflores

terça-feira, 16 de agosto de 2011

[Breaking Bad] 4x05 - Shotgun


Tim - "You see Pinkman as a shooter?"

Hank - "That would surprise me."

“I had a guy, but now I don’t. You are not the guy.” - Mike


Nada de execução, reabilitação, choque de realidade ou ameaça a seu irmão caçula. Mike leva Jesse simplesmente para um dia de trabalho fora do laboratório. Breaking Bad, como sempre, está a alguns passos à nossa frente e qualquer tentativa de imaginar o que vai acontecer (e como acontecerá) acaba sendo frustrada. E normalmente é uma solução mais interessante, coerente, que a nós, pobres mortais, só resta admirar.


No início, ainda a tensão do que aconteceria, elevada pela geografia do lugar (a fotografia, pra variar, é linda), deserto, cujo único som é de um moinho aparentemente abandonado. Nem mesmo Jesse foi capaz de se manter na indiferença e finalmente começou a temer por sua própria vida. Depois, quando revelado o que estão fazendo no meio do nada com uma pá, ficamos tão perdidos quanto Jesse, e mais adiante percebemos que o próprio Mike só está recebendo ordens sem saber exatamente o motivo de tudo.


Durante o episódio, é possível imaginar algumas razões para aquilo. Primeiro, é bom lembrar que sabemos o porquê de Jesse ter transformado sua casa em um inferno, mas não é algo que necessariamente os demais personagens saibam. Mas uma coisa Mike e Gus imaginam: Jesse está usando drogas. É uma questão curiosa, porque até agora vimos o personagem cheirando (cocaína, imagino) uma única vez, quando convence Badger e Pete a usarem, e nada mais é mostrado neste sentido. Mas seria óbvio que Gus pensasse na droga como um problema e imaginei que um dos motivos para colocar Jesse naquela viagem seria comprovar até que ponto estaria sua dependência (verdade que é apenas um dia de trabalho, mas no laboratório há os intervalos e com Mike a jornada durou até a noite). O outro motivo que vi seria aproveitar a situação para observar como Walt se sai sem um assistente, e até que ponto seria necessária a presença de Jesse, com Tyrus resolvendo o único "problema" aparente daquele dia.


Mas então temos aquela encenação, em que Jesse se sai muito bem, acreditando que salvou sua vida e a de Mike, e ainda retornando para buscar seu "parceiro" (aqui aproveito pra linkar uma breve entrevista do ator Jonathan Banks, onde diz que nesta temporada passará muito tempo com Aaron Paul; não mencionei no post anterior para não acabar com as expectativas de quem achou que Jesse morreria). Não sei até que ponto Mike está sendo irônico ao usar a palavra "heroi", mas com esta solução, Gus não apenas resgata a autoestima de Jesse, como é um primeiro passo para quebrar a aliança entre ele e Walt. Já que não pode se livrar desta dupla, separá-la parece ser uma jogada de mestre. E fica claro como Gus está certo, ao vermos a descrença de Walt quando Jesse diz o que fez. Walt é desprezível em muitos sentidos (mais sobre isso logo abaixo), mas não há dúvidas de como se importa com Jesse tanto quanto com sua família, preparado para morrer no início do episódio ao mesmo tempo em que se preocupa em deixar seu dinheiro para Skyler. O problema é que sua atitude paternal o impede de enxergar Jesse como um igual, apenas como alguém dependente dele. Seria possível surgir um conflito a partir disto.


A improvável parceria entre Jesse e Mike também é responsável pelo humor do episódio, com o primeiro morrendo de tédio e o último claramente insatisfeito com a companhia (hilário Jesse vendando seus próprios olhos e tirando sarro de Mike). Não sou fã de montagens aceleradas, mas Breaking Bad faz isso bem (aqui sob a direção de Michelle MacLaren, responsável também por "One Minute", última vez que vimos Hank falar de Jesse e que vimos uma ré sendo dada enquanto um homem armado se aproxima do carro), embalando a viagem dos novos parceiros e de Walt sozinho no laboratório, ambas, ao som de "1977", de Ana Tijoux (que viciados em games reconhecerão da trilha do FIFA 11 e pode ser baixada aqui).


Outro aspecto que não pode ser ignorado é o desabafo de Mike, claramente irritado ao Jesse sugerir que seria “o cara”, e que o faz lembrar de Victor. Mais uma vez a insatisfação dele manifestada sutilmente na série, também na cena com Gus, e já não tenho dúvidas que isso só crescerá e explodirá no futuro.



“We have to promise each other… no more secrets.” - Skyler

“Ah, this genius of yours… maybe he’s still out there.” - Walt

“Since when do vegans eat fried chicken?” - Hank


O outro grande evento do episódio é ainda mais surpreendente, ao mesmo tempo em que parece ser tão óbvio de acontecer. Hank não se interessa em investigar a morte de Gale, e com razão. Sua obsessão era prender Heisenberg e é compreensível sua frustração ao ver seu arqui-inimigo morto. Ele também descarta Jesse como o assassino pelos mesmos motivos que todos nós teríamos antes do personagem se ver obrigado a atirar em Gale (ajuda o fato de haver um retrato falado de Victor, eliminando de vez os nomes de Jesse e Badger da lista de suspeitos). Mas aí vem Walter White.


Sabemos do orgulho de Walt, que preferiu arriscar a vida cozinhando metanfetamina a receber dinheiro de seus antigos parceiros para o tratamento de câncer. Sabemos de sua arrogância, sempre disposto a mostrar seu conhecimento, de continuar nos negócios, simplesmente porque sua produção não pode parar. E sabemos também de sua fragilidade quando exposto a substâncias entorpecentes, como quando falou de seu segundo celular para Skyler na mesa de cirurgia ou como quase falou sobre Jane para Jesse em "The Fly".


Estas características mais o vinho tomado potencializam toda a frustração de Walt, que passou o episódio vendo perder o controle de tudo: ele não consegue se encontrar com Gus, encarando apenas câmeras de vigilância no lugar; Mike não lhe explica o que está acontecendo; compra o lava-a-jato e faz sexo com Skyler (aqui um momento genial, a mensagem de quem pensava que ia encarar a morte confundida com uma mensagem de afeto e declaração de amor) pensando no que pode ter acontecido a Jesse; ameaça parar a produção por estar sozinho, mas é intimidado por Tyrus; consegue voltar para casa, como há muito tempo queria, mas não como imposição dele, com Skyler até mesmo decidindo qual o dia para isso (e ver Walter Jr. tomando café numa caneca com BENEKE escrito não ajuda muito). Ao ouvir que seu trabalho é coisa de uma mente genial e rara, mas atribuído a Gale, não era algo que Walt poderia suportar calado.


Inicialmente, achei que a sequência serviria para Skyler descobrir sobre a morte de um fabricante de metanfetamina. Mas assim que Hank começa a falar sobre o caso, a câmera foca em Walt e se aproxima lentamente, sem cortes, até que ele começa a falar, enquanto eu esperava ansiosamente por um plano mostrando a reação de Skyler à história contada. Depois de pedir para que não haja mais segredos, não duvido que ela queira saber o envolvimento de Walt, que por sua vez talvez nem faça mais questão em esconder, não só pela nova relação com a esposa, mas seu orgulho e arrogância já não devem permitir que fique calado por mais tempo.


Falando em nova relação, as coisas também estão melhores entre Hank e Marie, como mostra a cena final, pouco antes da descoberta do papel com a marca do Los Pollos Hermanos. Walter White pode ter colocado Hank de novo em sua cola (e na de Gus), mas ao menos também ajudou a revigorar um casamento. Que lindo.




Hélio Flores
twitter.com/helioflores


domingo, 14 de agosto de 2011

[Breaking Bad] 4x04 - Bullet Points


“Walter H. White... man of hidden talents” – Hank

“... if you really have to protect yourself, uh… disappear. Poof.” – Saul


Uma das coisas que mais admiro na 3ª temporada de Breaking Bad é a maneira como nos surpreende ao resolver situações que imaginamos que durarão por muito mais tempo: se após a premiere, acreditamos que os primos de Tuco passarão boa parte da temporada caçando Walt, no episódio seguinte eles já estão com um machado, sentados na cama do protagonista; se pensamos que a tentativa de Jesse vender a “blue meth” por fora ou seu plano para matar os traficantes de Gus vão causar problemas futuros, logo depois todos estão reunidos para uma solução “pacífica”. Não há enrolação na série, as coisas acontecem quando têm que acontecer, por uma coerência interna à narrativa e aos personagens, e não porque é preciso manter uma estrutura de 13 episódios por temporada. A grande sacada é que uma situação não se resolve sem gerar conseqüências ainda piores (os primos se contentam com um acordo que os leva a Hank – também resolvido no episódio seguinte; a morte do irmão de Andrea após o acordo de paz) e a trama não para de se movimentar.


O que nos leva a este incrível “Bullet Points”. Sabemos que um dia Hank descobrirá a história do “vício” de Walt, que o estilo de vida de Jesse não pode se sustentar sem preocupar Gus, que Walt ficará sabendo que Hank tem o caderno de Gale. O que não dava pra saber é que tudo isso viria agora, em um único episódio – e se as coisas acontecem quando têm que acontecer, não significa que tem que ser rápido e os dois últimos episódios me parecem um gradual e necessário desenvolvimento pra tudo explodir aqui. Outra qualidade ímpar da série é que sabemos que certas coisas acontecerão, mas como acontecem é que nos surpreendem: esperamos que Hank mostre a Walt o caderno e peça ajuda, mas faz muito mais sentido mostrar o vídeo que Gale fez de si (algo também coerente de existir, se lembrarmos das peculiaridades do personagem) para entreter Walt e Walter Junior. E aí temos aquela cena fantástica com as expressões faciais que só Bryan Cranston pode nos dar, em primeiro plano, enquanto Walter Junior e Hank riem ao fundo. O ridículo e o trágico, tão presentes na série, dividindo a cena.


Mais uma qualidade: os personagens agem como imaginamos que deveriam agir pessoas com aquele nível de inteligência, seus aspectos emocionais e psicológicos a partir do que vivenciaram ao longo da série. Não há situações em que nos pegamos pensando “por que (não) estão fazendo isso?”. No início do episódio me incomodei com Skyler e Walt treinando com as cartas, afinal ele estava até mesmo frequentando um grupo de apoio a dependentes. Mas logo Walt menciona isto, e Skyler se toca e concorda, mostrando que a necessidade em controlar tudo também tem suas falhas. A sequência toda é um primor de texto e atuação, com momentos hilários (o “yay” de Walt ao Skyler dizer que compraram um lava-a-jato), de discussão da relação e sentimentos externalizados (Skyler lembrando que nesta história toda ela acaba saindo de vilã, Walt simulando desculpas que apenas por um segundo parecem sinceras) e de ambos ao mesmo tempo (Walt mencionando Ted, o texto que Skyler criou pra ele o fazendo admitir que fez coisas estúpidas).


E é genial que toda esta preparação ganha contornos diferentes quando é chegado o momento da encenação. Walt acaba olhando para baixo, dizendo “terribly” (duas vezes!) e suas desculpas parecem bastante sinceras, tudo em novo contexto, após ver o vídeo de Gale. E como uma coisa sempre leva a outra nesta série, só assim para Walt descobrir o que se passa na casa de Jesse, já que ele precisa saber se não há nada na cena do crime que os incrimine. E aí, o homem que no início do episódio se incomoda com a obsessão de Skyler por detalhes, assume o papel da esposa e tenta forçar Jesse a lembrar de tudo que o personagem vem tentando se esquecer desde o início da temporada. Belíssimo roteiro.


Esta cena traz também mais uma grande atuação de Aaron Paul, com a câmera se aproximando lentamente de seu rosto, e seu estado chega ao extremo aqui, não se importando com o que acontece em sua casa, com o dinheiro roubado, nem mesmo com sua própria morte. Já era algo mais do que compreendido nos episódios anteriores, mas agora o vemos em interação com Walt, Mike e o momento em que sua situação será resolvida. Não vejo a série se livrando de Jesse, não só porque Paul é essencial a ela, mas o próprio personagem garantiu sua importância ao matar Gale. Matar Jesse é deixar Walt sem assistente e imprevisível em sua revolta, algo que Gus certamente não arriscaria. A solução será outra: reabilitação, choque de realidade (Mike o forçando a cometer um crime, talvez) ou mesmo ameaça a seu irmão caçula, provavelmente a única pessoa com quem Jesse se preocuparia a esta altura. Seja como for, a única certeza é que teremos uma solução surpreendente, talvez não exatamente no quê será feito, mas como se dará isso na tela, já que a série parece não cansar de nos deixar de queixo caído.


Outras considerações:

- Nao apenas Aaron Paul e Anna Gunn na já citada sequência inicial, mas grandes atuações por todos os lados: Dean Norris dá o tom exato de ambiguidade em cada frase e expressão facial, sendo a mais importante, claro, o momento em que associa “W.W.” a Walt. Até que ponto Hank desconfia de algo? Diria que não muito, por enquanto, mas um clique foi dado aqui, ainda que permaneça inconsciente. O confronto entre os dois é algo que a série prepara de forma interessante. Na temporada passada, a menção a um livro que faz justiça aos policiais que prenderam Pablo Escobar; aqui, de forma diferente, referência a “Operação França”, onde o policial acaba não prendendo o bandido.


- Bob Odenkirk também tem seu breve momento de brilho. Reclamei no post anterior sobre o uso de Saul para fins cômicos, às vezes exagerado, mas aqui não há só o advogado engraçado (preocupado em estar na lista de pessoas em perigo que Walt quer proteger), mas simpático a situação de Walt, oferecendo ajuda que seria, inclusive, uma forma de encerrar a série. Mais uma vez os roteiristas jogando situações e possibilidades que, nós como espectadores, certamente pensamos que deveria acontecer. Mas sabemos do orgulho de Walt (que preferiu matar Gale a servir de testemunha para a polícia, quando sugerido por Jesse – “the cook can’t stop”), e logo descartará essa possibilidade.


- Mas é mesmo Bryan Cranston de volta ao seu show particular o grande destaque. Cranston tem tantas facetas, sentimentos e situações conflitantes no episódio, que os votantes do Emmy que neste momento estão escolhendo o melhor ator do ano poderiam abrir um precedente e entregar o quarto prêmio seguido a ele, e provavelmente ninguém reclamaria. E é fascinante imaginar que este nem será o episódio de submissão de Cranston ano que vem, já que ainda temos nove episódios pela frente.


- Incrível como a série não deixa nem um personagem como Gale, já morto, sem ser enriquecido por detalhes. O karaokê com legendas em um idioma oriental, o poema de Walt Whitman (não tenho certeza, mas é possível que ele já tenha citado Whitman numa cena prévia com Walt) e o mais curioso, um adesivo de suporte a Ron Paul, candidato a presidência pelo partido republicano com ideais libertários condizentes com a visão de mundo de Gale (que na temporada passada explica a Walt o que pensa do trabalho deles) e parte do movimento político Tea Party (Tea? Gale? entendi). E não sei se foi proposital, mas bom lembrar que Gale acaba sendo morto por um (AA)Ron Paul...


- Gus retorna, ainda que brevemente. A cena começa com Mike observando atentamente um objeto na mesa dele, que parece ser uma navalha. O que Mike pensou ali? Nenhuma cena é subaproveitada, há sempre um detalhe enriquecedor.


- Falando em Mike, Breaking Bad volta a ter uma introdução sensacional, ao nos lembrar que os negócios de Gus vão além das preocupações com Walt e Jesse, numa sequência engraçada (Jonathan Banks impagável nas reações de Mike), bizarra (a orelha, o contraste da roupa de Mike com o clima mexicano) e que mostra todo o talento do personagem no que faz melhor, matar.




Hélio Flores
twitter.com/helioflores