segunda-feira, 15 de julho de 2013

[Emmy 2013] Melhores Séries - Drama (Veteranas - Parte 1)


Aproveitando que o Emmy anunciará seus indicados na próxima quinta-feira, dia 18, decidi fazer listas com as séries vistas deste ano, comentando um pouco sobre cada uma delas e suas chances de indicações na maior premiação da TV americana.


Primeiro, explicando:

- Farei duas listas, apenas com séries da categoria DRAMA: a primeira com as séries veteranas e a segunda com séries que estrearam na última temporada. Novas séries podem nos empolgar com conceitos originais e não se sustentarem depois, ou ao contrário, não serem interessantes no início até encontrarem um caminho. Então preferi evitar compará-las com as séries que já aprendemos amar (ou odiar);

- Não farei o mesmo com as comédias por não ter visto ou não estar atualizado com um número grande o suficiente pra fazer, pelo menos, um top 10. Mas tentarei fazer um post comentando sobre minhas prediletas e as favoritas ao Emmy;

- Nas listas, há temporadas exibidas ano passado. Isso porque o calendário do Emmy vai de 1º de Junho de 2012 a 31 de Maio de 2013. Séries que tiveram episódios exibidos antes ou depois desta data são elegíveis desde que a maior parte da temporada tenha passado dentro do prazo (caso de “Mad Men” e “Veep”, que tiveram seus últimos episódios no mês passado);

- Neste post, começo o ranking das séries veteranas. Foram doze séries vistas. Já faz um bom tempo que abandonei séries que estavam ruins, como “Dexter” e “True Blood”, ou boas como “Southland” e “Parenthood”, que por um motivo ou outro acabei acumulando mais episódios atrasados do que deveria. Este ano, só houve um abandono: “Fringe” (mas como se trata da última temporada, um dia farei o esforço). No próximo post, a segunda parte da lista de veteranas e, a seguir, farei um top 10 das novas séries;


Vamos, então, ao top 12 Séries Veteranas. Listadas da pior para a melhor:




12º - The Walking Dead – 3ª Temporada
 
Desde sempre que a série não consegue construir seres humanos interessantes, então os zumbis continuam sendo o maior motivo de continuar assistindo. Mas é preciso admirar o esforço desta temporada: é só ver o que fizeram com Lori, Carl e T-Dog (de longe, os personagens que mais foram alvo de piadas na internet) pra perceber que os roteiristas devem estar levando a sério a opinião dos fãs. Há ótimos momentos de tensão e drama aqui e ali (especificamente o episódio “Killer Within”), e é louvável começar a investir em vilões humanos, deixando os zumbis de lado. Estes sempre estarão disponíveis para pregar sustos e é bom vê-los fazendo parte do ambiente (há várias cenas em que personagens conversam, com mortos vivos caminhando ao longe, sem necessariamente participar ativamente da sequência). Mas ainda é difícil se interessar por aquelas pessoas: as alucinações de Rick são irritantes e é preciso muita tolerância pra aceitar a estupidez de Andrea ao longo da temporada, necessária pra narrativa. Os novos personagens também falham miseravelmente: Michonne é um mistério pessimamente explorado (e a atriz se resume a fazer caretas) e o Governador infelizmente é mal caracterizado, indo do racional à insanidade de forma irregular (e impossível não ver David Morrissey como um Liam Neeson genérico). Ainda assim, um episódio como “Clear” mostra que o potencial está lá. Talvez manter o foco em dois ou três personagens por episódio, de vez em quando, seja o caminho pra dar densidade ao drama.

Chances no Emmy: Apesar de um fenômeno de audiência (que já seria grande se fosse da tv aberta), “The Walking Dead” não conseguiu até agora mais do que indicações em categorias de Som, Efeitos Visuais e Maquiagem. Gênero que é levado pouco a sério nas categorias principais, provavelmente a “cota-Fantasia” já está mais do que preenchida com “Game of Thrones”. Deve continuar assim.




11º - Sons of Anarchy – 5ª Temporada


Depois de muitas críticas à covardia da temporada anterior, que deu um “jeitinho” malandro de não lidar com consequências maiores e matar personagens principais, Kurt Sutter parece ter pensado que a melhor forma de calar seus críticos era pisar o pé no acelerador e nos trazer um choque após o outro – e se há algo em que Sutter é mestre, é em dar peso à violência dos seus personagens, sempre nos fazendo arregalar os olhos, e desta vez, inclusive, eliminando personagens importantes. O problema é que nesta jornada de Jax Teller (e ao colocar o protagonista como centro, os coadjuvantes parecem cada vez mais sem vida, apenas girando em torno dele), a violência vista parece ter apenas este propósito do choque, já que pouco lida com as consequências: é uma série em que um personagem acorrentado é obrigado a ver sua filha adolescente ser queimada viva, mas que só sofre com isto quando interessa à trama, chegando ao cúmulo de protagonizar humor vagabundo em sequência que conta com uma bizarra participação especial de Walton Goggins. O elenco continua muito bom, com o único (e grave) porém sendo Harold Perrineau, ator péssimo em personagem importante, e é possível ver claramente as mudanças vividas por Jax. Mas pra isso, Sutter sacrifica lógica, injeta boa dose de situações convenientes pra narrativa andar e quando não há muito drama envolvido, a interação e diálogos entre personagens são bem ruins. Sutter não se interessa muito pelo trivial (tratado de forma tão burocrática como os obrigatórios tiroteios e perseguições  de moto que sabemos não trazer perigo nenhum aos personagens), e isso poderia dar mais consistência ao todo.

Chances no Emmy: Nenhuma. “Sons of Anarchy” foi esnobada até mesmo no seu auge, a incrível 2ª temporada (quando Katey Sagal teve talvez a maior atuação do ano em questão), e depois disso Sutter deve ter se tornado persona non grata, ao deferir as maiores ofensas aos votantes do Emmy em seu twitter pessoal. Mas se me dissessem que a série receberá uma indicação este ano, só poderia ser o queridinho doze vezes indicado Jimmy Smits, como Melhor Ator Convidado, que tem, inclusive, um papel mais interessante do que teve em “Dexter”, quando concorreu nesta mesma categoria.




10º - Downton Abbey – 3ª Temporada

Que a sensação inglesa é um novelão, nunca se teve dúvida. Mas havia humor afiado ao retratar a decadência de uma família aristocrata causada pelas mudanças sociais do início do século passado, e a imobilidade de classes vista na relação entre esta família e seus criados (elementos que deram ao criador da série, Julian Fellowes, um Oscar de Roteiro Original por “Assassinato em Gosford Park”). Em algum momento da temporada anterior, no entanto, isso se perdeu e o que ficou foi uma quantidade inacreditável de conflitos dramáticos ruins, que se estenderam até a metade deste terceiro ano: em “Downton Abbey”, se alguém fica paraplégico, logo voltará a andar; se alguém pode ter uma grave doença, logo haverá um prognóstico positivo; a honra a se manter ao não usar uma conveniente herança é preservada por uma revelação ainda mais conveniente de que o dinheiro pode ser utilizado. É tudo tão simplório e vagabundo (nos diálogos, inclusive), que o drama inesperado na segunda metade da temporada surge como um sopro de ar fresco. É verdade que dura pouco, e muitos dos problemas continuam, mas há bem mais situações que fazem retornar alguma simpatia pela série – a ciranda amorosa com a introdução de novos personagens entre os empregados, por exemplo, poderia ser melhor desenvolvida, mas rende bons momentos. No geral, é uma série que sobrevive do carisma de seu elenco e de algumas falas inspiradas, a maioria proferida por Maggie Smith. É bom que tenha algo a mais reservado pra próxima temporada (que, por problemas com elenco, terá um início recheado de drama, como mostra a cena final), porque como está é a minha favorita a ser a próxima série que abandonarei.

Chances no Emmy: Após vencer os principais prêmios nas categorias de Minissérie/Telefilme pela sua primeira temporada (onde costumam concorrer as séries inglesas), “Downton Abbey” migrou para as categorias de série no ano seguinte e, além das já esperadas indicações nas categorias técnicas e principais como Melhor Série, Roteiro, Direção e Maggie Smith como Atriz Coadjuvante (vencendo esta, inclusive), conseguiu ter mais quatro atores indicados, mostrando o fenômeno que se tornou entre os votantes. Destes, apenas Brendan Coyle decidiu não concorrer este ano, e é difícil imaginar o retorno de Hugh Bonneville em Melhor Ator, tanto pelos novos candidatos este ano quanto pela sua participação de coadjuvante na série (seu Mr. Crawley também é irritante na maior parte do tempo), e de Joanne Froggatt como Atriz Coadjuvante, já que sua personagem também teve bem menos a fazer este ano. Poderia dizer que Michelle Dockery (Atriz) e Jim Carter (Ator Coadjuvante) também não fazem nada impressionante, mas isso vale para a temporada anterior, o que não impediu de serem indicados (Carter ainda tem ótimos momentos nos últimos episódios, com as reações de Mr. Carson a um caso de homossexualidade). E se esta temporada é claramente melhor que a anterior, é possível ver novos nomes indicados: Elizabeth McGovern foi indicada pelo primeiro ano como Atriz e ignorada ano passado, mas desta vez acertadamente tenta concorrer como Coadjuvante. O mesmo ocorre com Dan Stevens, então não seria absurdo pensa-los como substitutos de seus colegas de elenco, mesmo que não mereçam (este ano Rob James-Collier também tenta como coadjuvante, e a reta final da temporada lhe dá até mais material que Stevens). Smith tem ainda mais material este ano, o que significa que pode vencer mais uma vez, além, claro, da indicação certa para Shirley MacLaine como Atriz Convidada. Pelo número de novidades este ano, gosto de pensar que haverá surpresas quando anunciarem os indicados e que “Downton Abbey” será ignorada. Talvez não de tudo, mas quem sabe a maioria? Sonhar não custa...



9º - Homeland – 2ª Temporada

Não morro de amores pelo primeiro e elogiadíssimo ano da série, mas me parece claro que houve uma piora significativa nesta segunda temporada. O mais grave talvez seja a incapacidade de “Homeland” construir personagens coadjuvantes interessantes. À exceção de Saul, todo o resto parece estar lá pela mera obrigação de estar lá. A família de Brody é um peso enorme: o romance de Jessica com Mike não funciona e o tempo gasto com Dana é absurdo (Morgan Saylor, aliás, é séria candidata a pior atriz do ano). O fato de todas as discussões políticas sobre terrorismo serem superficiais e simplistas acabam nem incomodando tanto, após passar 10 ou 15 minutos com Dana Brody vivendo um dilema moral. Felizmente, há ainda muito a se explorar na relação entre os protagonistas, a verdadeira razão da existência da série. Claire Danes continua excelente e, mesmo que Damian Lewis seja bastante limitado, a química entre eles funciona. É verdade que os roteiristas nem sempre conseguem criar situações e diálogos interessantes, mas o avanço inesperado que a trama dá nos primeiros episódios da temporada e a virada de jogo do episódio final ainda permitem manter o interesse pelo que vem a seguir: “Homeland” é uma dessas séries que nos perguntamos como pode durar por mais de um ano e até agora isso tem se resolvido de forma satisfatória. Há a promessa também de se dar mais destaque a Saul na próxima temporada, o que pode resultar em um ano muito melhor. Mas é só pensar em como os roteiristas lidam com as conspirações de forma frouxa e clichê, e que teremos mais de Jessica, Mike e Dana, que a expectativa diminui. É neste equilíbrio entre coisas boas e ruins que a série vive, e só resta torcer por uma terceira temporada melhor. Uma mudança na equipe de roteiristas, talvez? É só lembrar que o pessoal de “Breaking Bad” já está disponível. Quem sabe na quarta temporada...

Chances no Emmy: “Homeland” conseguiu um feito incrível ano passado. Não só quebrou a invencibilidade de “Mad Men” na categoria principal (que havia vencido por quatro anos consecutivos), como levou também os prêmios de Ator e Atriz, algo que ocorreu pela última vez em 1993 com “Picket Fences”. Embora a vitória este ano seja menos provável (mas ainda com boas chances, e Claire Danes mantendo seu favoritismo), as indicações são dadas como certas. Resta saber se Mandy Patinkin será lembrado desta vez, único nome aguardado e não indicado ano passado. Com três vagas em aberto na categoria de Ator Coadjuvante (e Jim Carter longe de ser um nome certo), é bem provável o anúncio de seu nome na próxima quinta. Ajuda o fato de ser ele quem encerra (de forma bonita, diga-se) a temporada.




8º - Scandal – 2ª Temporada


É preciso ser sincero: se a segunda temporada de “Scandal” não tivesse se tornado um repentino sucesso de audiência com críticas entusiasmadas, provavelmente eu teria desistido da série ainda na primeira (e curta) temporada. Caramba, talvez eu não tivesse passado do piloto. Há um número (com o perdão do trocadilho) escandaloso de coisas ruins e irritantes na série e este comentário se tornará mais longo só em citá-las: a edição rápida e moderninha com os cliques de câmera fotográfica que fazem as transições de cenas ou resumem a vida do “cliente da semana”; diálogos constrangedores e lições de moral típicas de Shonda Rhimes (ou pelo menos o pouco que conheço dela, já que não suportei duas temporadas completas de “Grey’s Anatomy”); a falsa ideia de que personagens são inteligentes se despejam enormes monólogos, longas frases sem perder o fôlego; a total histeria de personagens pra passar a impressão de importância dos casos (Kerry Washington aumenta o tom de voz em uns bons decibéis pra mostrar que o que está sendo dito é grave); a exigência de se acreditar que os personagens são bons no que fazem apenas porque isso é dito: dizem que o presidente dos EUA é um grande homem e líder, mas não há nada na série que comprove isto, enquanto a protagonista Olivia Pope é a melhor no que faz (sua firma é uma bagunça, mas diante de tantos problemas, é o menor deles), mesmo que nada de impressionante aconteça – pior, somos informados que não há nem espaço para seus funcionários chorarem (sinal de fraqueza), os “gladiadores de terno” (a segunda pior expressão utilizada na série, perdendo apenas para o “I’m the leader of the free world” que o presidente grita em quase todo episódio), quando não há um único episódio em que Olivia não faça cara de choro, ou sofrendo por amor ou por um de seus clientes; por fim, há um número indecente de atores ruins em papeis importantes: o presidente, o promotor, o jornalista (James), Harrison (“gladiador de terno”). Muitos desses problemas continuam quando a segunda temporada começa e, ao final dos 22 episódios, alguns se atenuaram e outros até sumiram. Muita gente chamou a série de “guilty pleasure”, mas discordo: o conceito passa a impressão de que o prazer de “Scandal” está naquilo que é considerado de mau gosto (ou seja, tudo que listei acima), quando na verdade isso a impede de ser uma série excepcional. E que a faria subir, pelo menos, duas posições neste ranking. E que qualidades “Scandal” tem? Uma capacidade vertiginosa de fazer sua trama principal andar, de prender a atenção com revelações e reviravoltas a cada episódio. Pense nas primeiras temporadas de “Lost”. Só que ao invés de um acúmulo de mistérios, acumula-se  “plot twists”, que nunca perdem a lógica interna e, melhor, são explicados e justificados não muito tempo depois. O segredo está na dose homeopática de informações que os roteiristas liberam: em um dos primeiros episódios da segunda temporada, há uma daquelas revelações que fazem você repensar tudo o que viu antes só pra enumerar os possíveis buracos da trama, mas aos poucos descobrimos não haver problemas; se um episódio termina com um atentado chocante, o seguinte termina com a surpreendente revelação do autor do crime e no próximo a inusitada explicação; em outro momento, personagens resolvem compartilhar seus segredos, que servem como peças de um quebra-cabeça, pra que consigam descobrir um mistério. Enquanto séries abaixo de “Scandal” neste ranking claramente podem ser vistas como mais “refinadas”, nenhuma delas consegue satisfazer a necessidade de diversão vinda com uma trama bem estruturada, cheia de acontecimentos inesperados e personagens coerentes diante das situações em que se encontram. Não acredito que a série continue levando isso adiante sem se perder em breve (como não poderia deixar de ser, a última cena da temporada acrescenta novos e surpreendentes problemas), mas enquanto passar a impressão de que os roteiristas sabem o que está fazendo, estou dentro.

Chances no Emmy: Alguns anos atrás, quando a tv aberta ainda era uma força nas premiações, “Scandal” faria bonito. Hoje, com a dominação dos canais fechados, é difícil conseguir espaço. Sucessos de audiência podem surpreender, então não dá pra descartar totalmente suas chances. Kerry Washington é o mais perto que a série tem de uma indicação importante (e sua participação em “Django Livre” certamente ajuda), embora não me pareça justo considerando a qualidade de muitas de suas concorrentes. Aprendi a tolerar Olivia Pope, mas Washington abusa da interpretação com a boca e nariz (ao invés do clássico “caras e bocas”), realmente irritante. Guillermo Diaz e Jeff Perry são muito elogiados, mas também não me impressionam. Eu ficaria feliz mesmo se visse Bellamy Young indicada a Atriz Coadjuvante, no papel da primeira dama. De longe, quem melhor consegue lidar com o tom “soap opera” muitas vezes adotado pela série e quem melhor solta suas longas frases de efeito. Gregg Henry como Ator Convidado viria em seguida em minha preferência, devidamente asqueroso e engraçado como Hollis Doyle.




7º - The Good Wife – 4ª Temporada

Por três anos, “The Good Wife” parecia se adequar tranquilamente ao título “melhor série da tv aberta”. Afinal, era um verdadeiro milagre administrar ótimos “casos da semana” em meio a tantos acontecimentos envolvendo os diversos personagens de importância da série: o triângulo amoroso de Alicia Florrick, sua relação com os filhos e/ou a sogra, sua rixa/amizade com Cary Agos, a candidatura de Peter Florrick, Eli Gold nos divertindo com seu trabalho, Kalinda nos intrigando com seus mistérios, os problemas financeiros da Lockhart & Gardner e tantos outros subplots. Tudo sempre funcionou muito bem, com todos os personagens carismáticos e com espaço merecido (e nem falei das diversas participações especiais, de advogados de oposição a clientes recorrentes, passando por uma interessante galeria de juízes). Até que esta quarta temporada começa dando sinais de cansaço, passando a impressão de que a mágica estava indo embora e, apesar de muito do prazer da série continuar, por quase todo o ano houve problemas: casos não tão interessantes, o péssimo arco de Kalinda e seu marido, uma fraca oponente para Peter (Maura Tierney como Maddie, estranhamente apática), Eli Gold pouco presente e com um oponente desnecessário vivido por T. R. Knight, a personagem de Amanda Peet não cresce nunca, enquanto a trama financeira da firma se resolve bem, mas não tão empolgante quanto grandes tramas de temporadas passadas. Felizmente, sempre são benvindas as participações de Michael J. Fox, Carrie Preston e Dylan Baker, David Lee torna-se um personagem mais presente, uma interessante parceira/oponente para Kalinda e nos últimos episódios a mágica parece acontecer novamente, com os episódios mais sólidos da temporada (mais especificamente a partir de “Death of a Client”, com participação de John Noble e Matthew Perry – aliás, se Perry não tivesse se comprometido com “Go On”, teríamos uma temporada bem diferente, e provavelmente superior, com a presença mais constante de Kresteva), encerrando com a promessa de uma nova dinâmica entre os personagens, e a expectativa de renovação de criatividade. Foi a temporada mais fraca, mas ainda um prazer de se ver.

Chances no Emmy: após dois anos presente na principal categoria, a série falhou em conseguir uma indicação ano passado, que se tornou a primeira vez em que nenhuma série da tv aberta concorreu a Melhor Série Drama. Josh Charles e Alan Cumming também não conseguiram repetir as indicações do ano anterior, e apenas as mulheres se mantiveram: Julianna Margulies como Atriz, Archie Panjabi e Christine Baranski como Coadjuvantes. Com novas e elogiadas séries na disputa, seria possível “The Good Wife” perder ainda mais prestígio? Dificilmente retorna à categoria principal, mas Margulies certamente se mantêm na sua categoria e Baranski é uma possibilidade apenas por ser muito amada, já que Diane Lockhart não teve grandes momentos este ano (mas fala francês e é acusada de escrever um roteiro para Vampire Diaries!). Panjabi é a mais prejudicada pelos roteiristas, graças à péssima trama com o marido de Kalinda, e sua indicação vai depender do quanto os votantes ainda tem ela (e a série) em alta conta. A série deve conseguir também algumas indicações nas categorias de atores convidados. Michael J. Fox e Dylan Baker já são velhos conhecidos da categoria por seus personagens, e podem ter a companhia (ou serem substituídos por) Nathan Lane, comediante que tem muito espaço em papel dramático, o que deve contar a seu favor. Na categoria feminina, Martha Plimpton ganhou ano passado, mas dificilmente retorna, com participação muito pequena este ano. No seu lugar, há nomes fortes como o de Carrie Preston e, principalmente (por ter mais prestígio) Stockard Channing, no papel da mãe de Alicia.



(continua...)




Hélio Flores


 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

[Mad Men] 6x13 In Care Of

"If I had my way, you would never advertise. You shouldn't have
someone like me telling that boy what a Hershey bar is."

Desde que Don Draper pediu Megan em casamento na ensolarada Califórnia há alguns anos atrás, sua vida se tornou um elaborado processo de auto-sabotagem, em que sua identidade parecia se desintegrar aos poucos. Nem é preciso dizer o quanto esse fator se relaciona com a publicidade, que preza por valorizar e revelar suas melhores características para conquistar um cliente, ou mesmo para cativar o público. Honestidade nem sempre é obrigatória, por isso Don Draper (e nesta temporada, Bob Benson) encontra neste nicho a chance de se sentir acolhido. Por muito anos Don conseguiu progredir na carreira por entender a necessidade do momento. Sua apresentação do carrossel da Kodak no final da primeira temporada, por exemplo, continua viva em nossas memórias porque ele foi capaz de atingir fundo em nossos sentimentos, vendendo nostalgia como satisfação. Mas de uns tempos para cá, Don vinha perdendo essa noção do presente, ficando cada vez mais distante e tentando se conectar com aquela identidade de seu passado. Na abertura da temporada, ele se encontra no Havaí em férias com sua mulher, vivendo uma experiência que segundo ele era impossível de colocar em palavras. Quando traduz isso em publicidade, mostra um homem se perdendo no mar, deixando suas roupas pela praia. Dessa vez, requisitado em uma reunião com a própria Sheraton, é Don quem desaparece sem deixar vestígios. O episódio resume em algumas cenas essa condição crítica que acompanhamos na temporada, faltando na reunião para beber sozinho em um bar, passando a noite na prisão por agredir um evangélico, e até Sally mais uma vez acusando o pai por sua conduta imoral. Levou tempo, mas Don finalmente percebeu que está completamente fora de controle.

A solução para seus problemas, ao menos temporariamente, estaria nessa campanha elaborada por Stan para se candidatar à filial da agência na Califórnia, atendendo a Sunkist. Don queria apenas fugir novamente, aproveitando para fechar esse ciclo iniciado desde que pediu Megan em casamento, recomeçando sua vida ao lado da mulher em outro clima, como deveria ter feito desde o início. Parecia o plano perfeito, até para atender às necessidades da carreira de Megan, mas que acaba esbarrando em um pedido desesperado de Ted Chaough, que enxerga também nesta oportunidade a única forma de salvar sua família, a quilômetros de distância da sedutora presença de Peggy. O telefonema de Betty informando que Sally havia sido suspensa na escola por comprar bebidas alcoólicas com uma identidade falsa (no nome da mãe, claro, que afinal oferecia cigarro para a filha no episódio anterior), também afetou Don profundamente, principalmente quando Betty lamenta pela menina crescer num lar arruinado. Então, Don resolve ter seu primeiro momento de completa revelação diante de ninguém menos do que os clientes da Hershey's. A apresentação começa da maneira mais tradicional possível, com Don contando uma passagem falsa de sua infância, resumindo que a barra de chocolate é o símbolo de amor para as crianças. Mas ele simplesmente não consegue sustentar essa mentira, não por aquele produto que fazia ele se sentir brevemente como uma criança "normal". Sua confissão passa também pelo desejo quando criança de frequentar a escola para órfãos de seu fundador, de receber a atenção e o carinho que nunca teve enquanto crescia. Para Don o nome Hershey's significa muito mais do que seus produtos, assim como ele reconhece que criar uma peça refletindo este sentimento seria não apenas impossível, como desnecessário. A vida por vezes vai muito além da publicidade. Por isso, ele decide recuar e dar a chance de Ted recomeçar ao lado de sua família na costa oeste. As portas então começam a se fechar para Don, primeiro sua mulher decidindo mudar-se sozinha para Hollywood, depois os sócios armando uma espécie de intervenção para anunciar seu afastamento por tempo indeterminado. Tudo que lhe resta são seus filhos no feriado de Ação de Graças, e Don toma uma atitude inusitada levando eles para conhecer o local que passou a infância. Se Sally reclamava que não conhecia detalhes do passado de seu pai após aquele incidente no apartamento dos Draper, agora aquela troca de olhares no final parece transmitir enfim uma sensação de sintonia entre os dois.

No episódio anterior, chamava atenção para a forma como a série conhece suas próprias limitações e consegue lidar com as expectativas. Afinal, analisando essa temporada depois de encerrada, certamente não se pode acusá-la de falta de coesão (se tem dúvidas disso, assista a esse vídeo sobre como Mad Men enfrentou a Guerra do Vietnã). Como acompanhamos, 1968 foi um ano caótico para a sociedade americana e um dos pontos de grande destaque na temporada foi a decadência da cidade de Nova York, em vários momentos de terror e violência. Durante esse mesmo período, a série nunca havia saído tanto de seus domínios, levando seus personagens para o Havaí, Detroit e a própria Califórnia. Já neste episódio, vários dos personagens cogitam ou até mesmo tem de aceitar a ideia de deixar Nova York. Por isso, quando Don apresenta essa ideia para Megan, uma saída fácil para seus problemas, mas condizente com sua condição atual e sua conexão com a cidade no passado, chegava a ponderar se essa mesma série poderia existir na costa oeste americana, ainda que temporariamente longe do núcleo principal de personagens. Até que Don decide permanecer na cidade, mesmo sem sua mulher, mesmo sem seu trabalho. Não acredito que seja o final do casamento com Megan, talvez a distância seja até positiva para o relacionamento, embora fosse difícil também piorar do jeito que está. Megan passou tão imperceptível durante a temporada, quase uma sombra opaca de Don, que não dá para prever qual seriam os planos para ela no último ano. Já em relação à agência, esse afastamento indeterminado pode muito bem significar uma demissão, mas diante de sua epifania na sala de reunião, talvez fosse o próprio Don quem virasse as costas de vez para o mercado publicitário. Embora fosse difícil imaginar a série tomando esse rumo, seria a única forma dele encarar a vida com total transparência. Mas é isso, se por vezes era até cansativo falar da decadência de Don durante a temporada, acho que depois de três parágrafos dá para perceber o quanto os roteiristas reverteram isso com este finale.

Já Pete há quase duas temporadas não tem um momento sequer de sossego. Dessa vez, chega a ele a notícia de que sua mãe desapareceu a bordo de um cruzeiro pelo mar e, para piorar, Manolo parece estar envolvido, depois de casar-se com ela provavelmente visando sua herança. Nem mesmo quando Pete tenta confrontar novamente Bob Benson termina bem sucedido. Ao menos dentro da agência, esse relacionamento foi um dos destaques da temporada pra mim, e me parece um pouco frustrante que os dois terminem se dirigindo a cidades diferentes. A aparente vantagem que Pete demonstrava no episódio anterior foi estranhamente ignorada, e depois de uma humilhante cena diante dos clientes da Chevy em Detroit, ele não tem outra opção senão reconstruir sua carreira na Califórnia. Mas como bem aconselha Trudy, essa é sua chance de recomeçar sem precisar prestar contas a ninguém. Antes de partir, Trudy ainda concede que ele possa enfim ver sua filha e se despedir. É interessante como neste episódio o dia de Ação de Graças promove essa aproximação entre pais e filhos, seja Pete, Don, Ted e até Roger, que passa o feriado finalmente junto de seu filho com Joan.
A única aposta que podemos fazer para esta última temporada é em relação ao futuro de Peggy. Embora Duck já apareça com o provável substituto de Don (sem perder a chance de saborear a derrota do antigo colega), a imagem de Peggy passando o feriado na agência é bastante emblemática. Afinal, pela primeira vez ela aparece usando calças no trabalho e enquanto senta-se confortavelmente na cadeira de Don assume a mesma postura que é marca da série. Claro que não foi um final agradável para Peggy, vendo seu único prazer dos últimos meses se despedindo e sendo deixada para trás, tendo que se adaptar a uma nova situação. Mas talvez o futuro realmente esteja aberto para Peggy na agência, que pode enfim sonhar em construir uma carreira sólida e seguir seu próprio caminho, sem depender das decisões de nenhum outro.

Assim terminamos a penúltima temporada de Mad Men e confesso que ainda não quero nem pensar na ideia de se despedir da série no ano que vem. A todos que acompanharam até aqui, meu muito obrigado. Até a próxima temporada! Abraços.

Foto: Divulgação/AMC.


e.fuzii
twitter.com/efuzii

domingo, 23 de junho de 2013

[Mad Men] 6x12 The Quality of Mercy

Previously on Mad Men: infelizmente, por conta de algumas questões pessoais, acabei não conseguindo comentar os dois episódios anteriores aqui no blog. Como eu acho que já não vale a pena elaborar textos muito detalhados com tanto atraso, principalmente sabendo o que acontece nos episódios seguintes, decidi concentrar no episódio da semana e relacionar com alguns acontecimentos pontuais das semanas anteriores. O texto será um pouco mais longo, espero que entendam.
Nesses três últimos episódios antes do season finale, Mad Men deixou de lado os simbolismos e variações de estrutura que vinha apresentando até então, para assim concentrar-se numa abordagem mais direta, principalmente em relação à nova dinâmica da Sterling Cooper & Partners. Aproveitando a onda de protestos contra a guerra do Vietnã, "A Tale of Two Cities" também mostra atos de rebeldia contra a tradicional hierarquia da agência. O fato de Mad Men acompanhar o que acontece em uma agência de publicidade não é simplesmente por retratar a mudança da sociedade através da influência em suas campanhas. É antes uma forma de retratar essas mudanças se refletindo dentro de seus domínios. Por vezes isso aparece até forçado, como a contratação de Dawn, servindo de símbolo das lutas raciais, ou mesmo Ginsberg, chamando atenção para a forte presença judia. Mas o mais notável é que apesar de manter as regras de uma empresa comum, a publicidade apresenta seu diferencial neste constante choque entre a equipe de gerentes de conta e o setor criativo. Jim Cutler, por exemplo, precisa engolir a insubordinação de Ginsberg porque sabe da importância dele na satisfação de seus clientes. Já Joan, que há alguns episódios condenava as secretárias que burlavam o sistema de ponto, dessa vez decide quebrar ela mesma essa hierarquia, desrespeitando a ordem de deixar Pete conduzir as negociações com um potencial novo cliente da Avon. Se existe uma forma de mostrar os direitos das mulheres sendo enfim reconhecidos, talvez a gerência de contas em publicidade seja o maior exemplo, e claro, Joan seria o símbolo ideal para indicar essa mudança. Peggy, que foi a primeira a conquistar seu merecido espaço na agência, aparece então para salvar Joan de uma situação tensa na sala de reunião. Até por conhecer Ted a mais tempo, Peggy sabe que jogar a isca de um novo negócio concretizado já é suficiente para acalmar seu chefe. A ironia é que Ted, mais tarde, tem de engolir seu próprio orgulho com uma proposta irrecusável vinda da Sunkist.

Essa eterna disputa entre Sunkist e Ocean Spray também motiva nesses episódios diversos conflitos que são resolvidos na base de acordos. Ted pede trégua para Don e concordam em colaborar; Don e Sally chegam a um acordo oculto atrás de uma porta fechada; Pete e Bob Benson após idas e vindas também chegam a um entendimento. Bob Benson vinha sendo o grande mistério da temporada, com aparições pontuais mas cada vez mais frequentes, até que tem sua importância reconhecida quando Cutler confia a ele uma tarefa de Roger e ele é capaz de manter esse cliente ao menos satisfeito. E nesse últimos episódios, Bob mostra atributos que seriam altamente valiosos em qualquer cargo: solícito e ao mesmo tempo ambicioso, um otimista irrefreável, sempre buscando melhorar. Ele consegue até mesmo arrumar uma situação adversa e entender a necessidade de atenção de Ginsberg, oferecendo seu discurso de estar sempre pronto. Este permanente estado de atenção, aprendido através de seus áudios motivacionais, é o que faz Bob procurar estar sempre no lugar certo atrás de uma oportunidade e o que faria ele atingir certamente sucesso em sua carreira. Ou pelo menos seria, até cruzar com o caminho de Pete Campbell. Na semana passada, seu toque de pernas e a revelação de seus sentimentos por Pete motivou diversas interpretações. Mas até por essa semana Bob retratar-se dizendo que sente apenas imensa admiração pelo colega, leva a crer que sua cena era muito mais uma busca por respeito, após Pete considerar a conduta de Manolo como nojenta. Entre as diversas especulações sobre Bob, havia a aposta de alguns de que ele seria na verdade gay, outros tantos apontavam uma semelhança de personalidade com Don Draper, mas acho que poucos imaginavam que Bob Benson também seria uma identidade forjada. E por um momento, Pete considerou levar esse confronto até o fim, mas parece que finalmente conseguiu controlar seus impulsos. Bob declarava sua derrota, já até considerava sair de cena furtivamente, apenas pedia um tempo para preparar seu próximo passo. Aprendendo com seu erro anterior, quando não se conteve e decidiu usar a informação da identidade secreta de Don para conseguir prestígio com seus chefes, Pete parece enfim saber como usar esse segredo a seu favor. Pelo seu pedido de desculpas, não fica claro se Pete deseja apenas fazer uso dessa boa vontade de Bob ou se ainda pretende chantageá-lo mais pra frente.

Apesar disso, os problemas de Bob Benson não parecem ser tão preocupantes, ao menos quando comparados à situação de Sally. Para piorar o flagrante de seu pai e Sylvia -- e ela realmente tem azar de aparecer sempre nas horas erradas, já que havia presenciado outra cena assim envolvendo Roger e a mãe de Megan -- Don Draper tenta distorcer os fatos, minimizá-los e tentar manter seu mundo imerso em fantasia. Depois de tantos flashbacks na temporada revelando o ambiente que Don cresceu, aquilo que presenciou quando adolescente, realmente esperava uma reação mais madura por saber que seria um trauma na vida da menina. Ainda assim, Sally reage bem ao escolher voluntariamente se matricular em um internato. Ela não suporta mais ver seu pai, nem é capaz de tolerar sua mãe em casa, e Sally não faz o tipo que fugiria de seus problemas como sua amiga violinista. Então ela escolhe o internato buscando algum sentido de ordem, um ambiente que tenha algum significado. Suas colegas certamente serão um teste constante, a presença de garotos quebrando as regras também. O que importa então é como Sally irá reagir a partir disso, e esse episódio mostra que ela está no caminho certo. Não apenas ela se manteve sóbria como conseguiu reverter as atitudes do amigo de Glen, impressionando sua colega de quarto.

Já Don Draper, pelo contrário, continua decepcionando todos ao seu redor e caminhando em direção à solidão. Nem mesmo sua queda na piscina, um evento de quase morte, durante uma festa na Califórnia foi suficiente para pará-lo. Ele não suporta sequer ver Megan na televisão e "envenena" o próprio suco de laranja que a mulher faz com carinho. Seu favor ao jovem Mitchell, arriscando o relacionamento da agência com a Chevy e disposto a pedir um favor a Ted, é sua tentativa de fazer enfim alguma coisa certa. Seus motivos podem ser nobres, nem que seja motivado ainda pela paixão por Sylvia, ou por ter experimentado o terror da guerra, ou até sentindo culpa por trair seu amigo Arnold. Mas reparar essa situação cria outra ainda mais desastrosa. E essa decepção leva Don ao seu pior momento na série, talvez pior até do que quando sua identidade era investigada pelo governo. Nesta semana, apesar de toda a agência perceber que esse clima afetuoso entre Peggy e Ted está prejudicando os negócios, Don faz questão de colocá-los em um situação embaraçosa diante do cliente para servir como lição. Claro que existe uma dose de ciúme por parte de Don, ele certamente sente falta daquela antiga conexão com sua jovem aprendiz. Mas essa atitude apenas afasta Peggy ainda mais, a ponto de chamá-lo de monstro. Don começa e termina o episódio em posição fetal, primeiro acuado em seu apartamento, depois em sua própria sala.

Há outras referências a fertilidade ao longo do episódio, e não apenas pelo encontro casual dos dois casais numa sessão de 'O Bebê de Rosemary'. Há toda a encenação na sala de reunião para o comercial de aspirinas, quando Don imita uma criança chorando. Ou mesmo Ken, depois de enfrentar todo tipo de exigência maluca dos clientes da Chevy, decidindo largar a conta porque sua mulher está grávida. E temos Peggy, alguém que recusou o papel de mãe, envolvida neste comercial de aspirinas, e que na semana passada é abordada pela mãe de Pete, que a confunde com Trudy. Em um jantar repleto de bebida e algumas confissões, esse segredo ressurge em uma conversa deliciosa entre Pete e Peggy, quando ambos tem um momento de cumplicidade diante de um surpreso Ted. Apesar de tudo isso, esses três episódios não apresentam nenhum tipo de evento marcante como nas temporadas anteriores, por isso torna-se ainda mais difícil prever qualquer surpresa reservada para esse finale. Aliás, apesar dessa temporada manter sempre um tom "mais baixo" em relação às outras, me parece indicar uma certa maturidade da série, que consegue mesmo sem apresentar grandes arcos ao longo de seus episódios, criar diversos momentos memoráveis para seus personagens. E isso ocorre apenas quando uma série já conhece seu próprio potencial e é capaz de ser relevante dentro de suas limitações.

Foto: Divulgação/AMC.


e.fuzii
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domingo, 2 de junho de 2013

[Mad Men] 6x09 The Better Half

"Status quo ante bellum. Everything as it was."

Quando falava na semana passada que Mad Men era capaz de nos surpreender sem precisar depender de substâncias alucinógenas, era justamente disso que estava falando. Afinal, acho que ninguém esperava por um episódio em que Don levasse para a cama sua ex-mulher e Peggy terminasse enfiando uma lança no abdômen de seu (ex-)namorado. "The Better Half" como parece óbvio pelo título, trata de dualidades, e aparece como tema das personagens interpretadas por Megan em sua telenovela, duas irmãs gêmeas, a prestativa morena e a perigosa loira. Peggy é a principal vítima dessa indecisão, colocada em um complexo dilema quando deve escolher entre a ideia de Don ou de Ted para a propaganda de margarina. Seja qual fosse o lado que escolhesse, traria ressentimento, então ela tenta ficar em cima do muro. Além disso, com a violência frequente na cidade (enfatizada pelas constantes sirenes ao fundo), Peggy não se sente segura nem mesmo dentro de sua própria casa, o que gera cada vez mais desentendimentos com Abe. Principalmente porque ele não consegue mais lidar com a postura de Peggy diante da sociedade, com seu trabalho, a ponto de tratá-la como uma inimiga desta revolução que tanto anseia. Já seu caso com Ted, que poderia servir como alívio nesta situação, parece também estar chegando ao fim, depois que seu chefe passa a ser incomodado por sua consciência. O episódio não trata apenas de exemplos de figuras opostas, mas de uma dualidade encontrada dentro dos próprios personagens, e essa crise de culpa de Ted parte desse seu senso de justiça para lidar com os problemas. Uma reação talvez descabida para um simples toque de mãos, que Peggy garante ter sido involuntário, mas sabemos como esse era um gesto recorrente na relação com seu outro mentor. E pelo que vimos aqui e conhecemos de Don, numa situação assim, ele certamente não seria o cara que pediria pra parar.

Logo que Don e Betty se instalaram para passar o final de semana no acampamento de seu filho, imaginei que o dilema teria alguma relação com Bobby, talvez disputando a atenção e o carinho dos pais. Mas com Betty enfim voltando a sua velha forma, e encarnando seu papel favorito de despertar o desejo dos homens ao seu redor, era difícil para Don resistir. Claro, nada pareceu forçado por ele, os sinais vinham cada vez mais óbvios do lado de Betty, mas apenas reforça a química desse casal de atores quando dividem a mesma cena. Também serve para mostrar que Betty seria melhor aproveitada se estivesse menos isolada em eventos periféricos. A análise de seu ex-marido parece tão franca e madura, que é realmente desolador ouvir Megan pouco depois dizendo se esforçar para o relacionamento voltar a ser como antes, constatando que eles precisam mudar. E mais uma vez Don termina solitário, depois de acordar e encontrar Henry fazendo companhia para Betty no café da manhã. Acho que nunca a série insistiu tanto nos mesmos sinais antes.

Além das curvas sexy de Betty, o episódio marca também o retorno de Duck Phillips depois de longo tempo. Aparecendo agora como um caça-talentos do marketing, ele oferece a chance de Pete mudar de lado, assim como reforça o papel da família em sua vida profissional. Sabemos que aliado à bebida, foi isso que trouxe a ruína de Duck em outras épocas. Pete continua desesperado, sem saber o que fazer com a mãe presa dentro de seu apartamento, mas Bob aparece oferecendo o contato de uma enfermeira que teria recuperado seu pai anos antes. Bob Benson ainda é um mistério, principalmente porque a outra vez que se referiu ao pai, dizia a Ken que ele havia morrido (o que pode ter sido também depois da recuperação). Não sabemos se ele é realmente dissimulado ou apenas prestativo demais, mas parece ter ganho bem mais do que a simples confiança de Joan. Mas o fato de Roger descobrir sobre isso provavelmente crie uma dinâmica bem interessante. Acho também que Roger tende a melhorar quando se relaciona com Joan, até se formos considerar sua outra trama no episódio, que motivou ele a tentar assumir o filho novamente. Pareceu um pouco forçado sua filha ligar nervosa porque Roger levou o neto para assistir "Planeta dos Macacos" (filme do ano, aparentemente), não sei também se faz algum sentido ela deixar o filho aos cuidados do avô.

Durante a semana, depois de Janie Bryant confirmar que o fato de Megan usar a mesma camiseta de Sharon Tate (brutalmente assassinada a facadas anos depois) não era mera coincidência, fez surgir todo tipo de teoria apostando que Megan estaria com os dias contados. Mas em seu tradicional post Mad Style da semana, Tom & Lorenzo, embora não descartando a teoria, me parecem ter resolvido essa charada. Eles levantam uma série de relações entre os figurinos de Abe e Megan ao longo do episódio, e a camiseta da estrela vermelha surge justamente depois que Abe é perfurado pela faca no abdômen. Acho que isso serve apenas como indício de que ele não deve resistir. Resta saber agora como a série lidaria com isso, já que parece um caso grave demais para ficar nas entrelinhas, e de fácil drama caso viesse à tona.

Foto: Divulgação/AMC.


e.fuzii
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sexta-feira, 24 de maio de 2013

[Mad Men] 6x08 The Crash

"– Where do you want to go?
– I don't know."
– Then it doesn't matter, does it?"

Aposto que ninguém estava preparado para isso. Embora Mad Men sempre tentasse surpreender seu público, este episódio se situa em um ponto tão fora da curva que fica difícil até mesmo de avaliá-lo com clareza. Certamente dividiu opiniões, mas é impossível deixar de valorizar um episódio que mostra Stan e Jim Cutler apostando corrida dentro da agência, por exemplo, ou até mesmo Ken Cosgrove em uma performance memorável de sapateado. A agência volta sua atenção novamente à Chevrolet, que faz novas exigências absurdas, a ponto de envolver Ken em um grave acidente, pedindo para refazer o trabalho outra vez. Aproveitando dessa situação adversa, Jim traz seu médico para receitar uma injeção de anfetamina para os colegas, e assim mantê-los sob efeito alucinante pelo final de semana inteiro. Não deixa de ser divertido acompanhar essas pessoas trabalhando de modo improdutivo, tentando superar suas velhas ideias, buscando por outras soluções alternativas, tudo em ritmo acelerado. Parecem devaneios, eventos até surreais, mas que partem sempre de uma mesma premissa: discutir o processo criativo sob pressão. Não importa se é para cativar o público, vender seu produto ou conquistar uma amante, a questão é como transformar essa ideia abstrata em alguma coisa palpável, que faça sentido. Muita gente desmerece qualquer tipo de análise em relação à arte justamente porque duvida que essa ideias abstratas possam ser "decodificadas". E todas as semanas Mad Men parece nos instigar com pistas que levam a extrair temas, estabelecer relações entre cenas, personagens. Dessa vez, eles decidem nos torturar, sapatear sobre nossas cabeças, juntando diálogos que aparentemente não fazem muito sentido, desenvolvendo relações que não chegam a lugar nenhum. Quanto mais levam isso ao limite, mais questionam a si mesmos e todo esse processo criativo. Don Draper se depara constantemente com portas neste episódio, um símbolo recorrente na série, e trazido à tona na análise de Roger de que a vida é uma sucessão de portas até seu derradeiro final. Don jura que existe um código capaz de abrir a porta de Sylvia, mas termina se desculpando por ter deixado a porta de seu próprio apartamento aberta para uma estranha.

Se existe um ponto frágil neste episódio, que escapou um pouco desse delírio coletivo, esteve novamente no flashback de Don Draper. Mais uma vez revelando uma cicatriz de seu passado, parece simples demais relacionar com sua vulnerabilidade no presente. O que Don mais teme é ser abandonado, como foi por sua mãe, como foi por Aimée, como foi por Sylvia. Assim como ele repete o mesmo erro, abandonando seus filhos sozinhos em casa. O problema é que, nas primeiras temporadas, o passado parecia impulsionar Don, que corria para tentar superá-lo. De uns tempos pra cá, conforme este vem sendo revelado, Don parece dominado como se vivesse acuado por suas lembranças e traumas. E essa não parece ser a situação ideal para um protagonista que precisa mostrar determinação, ao invés de desmaiar em colapso diante de sua família. Mas claro, sem escapar de ouvir de sua ex-mulher que Henry concorrerá à próxima eleição, ou mesmo ser confrontado pela filha por não conhecer detalhes de seu passado. Não adianta ele procurar as respostas numa propaganda de mingau, que remete a outra passagem de sua infância, pois isso já não é mais suficiente. Nem tentar aliviar seu sentimento de perda com drogas ou sexo. Na manhã seguinte, ele não tem palavras diante de Sylvia no elevador e se recusa a participar do bordel que a agência se transformou novamente. Se antes Don tinha certeza do que precisava enquanto crescia -- carinho, conforto --, agora suas necessidades passam a ser cada vez mais confusas e incertas.

Outro motivo que domina o episódio é o luto, não apenas ecoando ainda o assassinato de Bobby Kennedy, mas sentido tanto pela morte de Frank Gleason como por Stan, que recebe a notícia do primo morto em combate. Interessante como em ambos os casos é Peggy quem serve como figura para prestar apoio. Não bastasse sua relação ainda confusa com Ted, até Stan tenta aproveitar deste momento de fragilidade para fazer uma investida. Peggy considera Stan como seu irmão, mas ele enxerga nela uma companhia para aquela noite. Identidades trocadas e confundidas, como a mulher negra que invade o apartamento de Don e consegue convencer os filhos de que poderia ter alguma relação com seu pai. Note que Sally não demonstra qualquer tipo de choque pelo ocorrido, apenas lamenta por ter se portado de modo tão ingênuo. As coisas não saem fora do controle apenas porque os personagens estão sob efeito de drogas, mas porque passam por uma crise de identidade, sem ter ideia da função que devem assumir nesta sociedade. Peggy cita o gato de Alice, dizendo que não adianta querer ir sem saber para onde. A filha hippie de Frank aparece questionando se sabem que são amados. São perguntas fundamentais que diante de um futuro tão obscuro, nenhum deles é capaz de responder.

Foto: Divulgação/AMC.


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sexta-feira, 17 de maio de 2013

[Mad Men] 6x07 Man with a Plan

"Move forward."

Após o choque inicial do anúncio da fusão repentina de duas prestigiadas agências de publicidade, as coisas começam a ser colocadas de volta aos eixos, com a CGC mudando para os dois andares ocupados antes pela SCDP, embora o novo nome ainda continue indefinido. Assim como continua indefinido também o futuro de seus funcionários, muitos deles ocupando cargos semelhantes, temendo passar pelos usuais cortes nestas ocasiões. Até mesmo os antigos sócios não parecem seguros, sem ter lugares suficiente ao redor da mesma mesa de reuniões, a não ser claro pelos grandes arquitetos desse plano: Don Draper e Ted Chaough. Enquanto Pete chega exigindo seu lugar, Ted é capaz de ceder seu assento à secretária e assistir tudo praticamente de fora. Há algum tempo toda trama envolvendo a agência precisava de maior dinâmica, que não fossem apenas conflitos entre seus coadjuvantes, e agora finalmente se estabelece esse embate entre Don e Ted. Ambos devem se respeitar mutuamente para a agência funcionar, mas já mostram diferenças cruciais no modo de trabalhar. Somando-se a isso a sempre questionável postura de Don em sua vida pessoal, enquanto que Ted vinha sendo até aqui retratado de maneira bastante afável, principalmente em relação a Peggy, parece impossível assumir qualquer lado nesta disputa. Para começar "dominando" essa batalha, Don recorre ao tradicional método de vencer o adversário pela embriaguez. Já Ted busca conselhos de seu antigo sócio e amigo, questionando sobre o mistério de seu oponente. Ao final, o cansaço dos primeiros rounds realmente vem à tona, com Ted pilotando o avião em meio a tempestade, enquanto Don nem bem consegue se segurar de tanto medo. O anúncio, de margarina, também envolve substituição, em um eterno conflito com um produto similar. Com a aproximação do final da década de 60, e consequentemente da série, parece cada vez mais claro que se não mudar, Don Draper será deixado para trás como o antagonista desta história. Peggy, numa de suas posturas mais destemidas desde então, espera por seu chefe em sua sala para reprovar aquela conduta, exigir que ele mude e siga em frente. Basta lembrar da outra vez que essas palavras apareceram na série, quando Don vai visitá-la no hospital logo após o parto, e perceber essa inversão de papéis.

O episódio traz ainda muitas outras cenas que remetem a situações que ocorreram anteriormente: Joan conduzindo Peggy ao seu novo espaço no trabalho, Roger tendo o prazer de demitir Burt novamente, a já mencionada tática de Don de embebedar Ted, assim como ele havia feito antes com Roger, até mesmo para conseguir seu primeiro emprego em agência. E finalmente Bob Benson, saindo dos bastidores em um momento providencial para ajudar Joan a chegar no hospital. Talvez cabe forçar um pouco para lembrar de uma cena parecida na sala de espera do hospital envolvendo Joan e Don, não pela situação em si, mas muito mais pelo cavalheirismo de Bob, que parece ter conquistado se não o carinho, ao menos a confiança de Joan. Se ele agiu de modo premeditado, como o homem que tem um plano no título do episódio, parece ser a grande questão, embora não mude o fato do charme do personagem ganhar destaque a partir de agora. Todas essas cenas recorrentes atingem uma convergência no final do episódio, quando é revelado a morte do segundo Kennedy, para tristeza da população americana. Em um dos momentos mais inspirados dos roteiristas ao incorporar um fato histórico à série, eles usam a demência da mãe de Pete para estabelecer esse clima de desesperança, em outro ciclo sem fim. Aliás, parece que os roteiristas não querem definitivamente dar folga a Pete.

Passando por um momento delicado na agência, temendo até por sua posição, Pete se vê obrigado a manter a mãe confinada em seu apartamento na cidade. Claro que isso se mostra muito mais desgastante para ele, que termina refém desta própria situação. Para aquele que sempre tentou imitar o mesmo estilo de vida de Don, Pete tem um desempenho cada vez mais decepcionante. Ainda mais fazendo o paralelo com a outro caso de confinamento do episódio, quando Don mantém Sylvia como sua refém sexual dentro de um quarto de hotel. Nunca seu jogo de poder chegou a esse ponto, de tomar literalmente a liberdade de alguém. Sylvia obviamente se sente seduzida por um tempo, embora saiba estabelecer os limites nas ordens de seu patrão, mas a medida que as torturas vão aumentando (confiscar seu livro talvez tenha sido a gota d'água), ela toma a decisão de dar um basta. Se é o final deste relacionamento, como a despedida no elevador sem sequer olhar para trás parece indicar, ainda acho frustrante por apenas somar-se a outro de seus casos. Embore ele termine beirando o desespero, quase implorando para ela desistir, esperava que Megan ainda descobrisse sobre essa traição. E Megan então? Cada vez mais desesperada para salvar seu casamento, sugerindo até que retornassem àqueles dias ensolarados no Havaí (ou o Paraíso), enquanto o marido sequer presta atenção nas palavras que saem de sua boca. A cena final é marcante, Megan aos prantos com a notícia do assassinato de Bobby Kennedy, Don Draper sentando do outro lado da cama, solitário e devastado. Mas devastado porque, ao contrário do outro evento trágico da temporada, a morte de Martin Luther King, ele não tem com quem se preocupar desta vez. Mulher, filhos, amante… nada mais parece ter qualquer importância na vida de Don Draper.

Foto: Divulgação/AMC.


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sábado, 11 de maio de 2013

[Mad Men] 6x06 For Immediate Release

"Just once I would like to hear you use the word 'we'."

De todos os cliffhangers deixados pelo finale da temporada passada, certamente aquela imagem dos sócios "isolados" em janelas diferentes é a que mais me marcou e que parece ditar o ritmo dos episódios recentes. Não apenas porque a série tem de lidar com tantas tramas, que raramente tem pontos em comum (a não ser pelo tema do episódio), mas principalmente pela tensão recente na SCDP. Até aqui, é uma temporada muito preocupada em estabelecer segredos, em dimensioná-los e como isso parece afetar seus personagens. Indo na direção oposta, como o próprio título "For Immediate Release" sugere, esse é um episódio que retrata momentos de revelação. Já começamos com uma proposta de abertura de capital, discutida apenas por três de seus sócios, na calada da noite. Enquanto isso, Don Draper perde a paciência com Herb da Jaguar e dispensa o cliente em um jantar particular. Com a ajuda de uma aeromoça (alguém mais lembrou daquela série que nasceu querendo ser Mad Men?), Roger consegue colocar a agência na concorrência pelo projeto de carro futurista da Chevrolet. E essas três situações entram em conflito quando são reveladas ao mesmo tempo dentro da sala de reunião, com todos os outros funcionários assistindo pelo vidro, em um clássico momento de drama empresarial. Joan acusa Don de ser egoísta, de não reconhecer seu esforço para conseguir aquela conta, mas sua decisão provavelmente também seria outra caso soubesse que o capital da agência iria a público. Para complicar ainda mais, Pete descobre casualmente seu sogro em um mesmo bordel e acaba perdendo a conta da Vick em razão disso. Assim como já provou por diversas vezes, Pete tem dificuldades em manter seus segredos sob controle, saber a hora certa de recuar. Tentando pagar na mesma moeda, ele não só sai prejudicado nos negócios, como parece decretar o fim de seu casamento com Trudy.

Mas Don Draper promete resolver tudo isso. E quando vemos Don motivado para reverter uma condição adversa, podemos esperar qualquer coisa.

"So should we go home?"
"We? That's interesting."

Desde o casamento com Megan, apesar de ainda ter seu destaque como protagonista, Don perdeu muito de seu carisma na série. Depois de viver aqueles meses em lua-de-mel na agência, mesmo quando enfim voltou à área criativa, ele próprio reconhecia que estava se sentindo ultrapassado. Suas mais recentes apresentações para clientes também não pareciam ter o mesmo apelo que antigamente. Com a CGC passando também por dificuldades entre seus sócios, e ambas as agências nadando contra a correnteza das grandes firmas, parecia natural uma fusão como essa. Mas a forma como isso ocorreu, tão leve lembrando a fundação da própria SCDP, estabelece um clima de otimismo pelo futuro. Bem diferente, por exemplo, do episódio que este parece reverter, "The Other Woman" na temporada passada, quando Peggy sai pela porta da frente e Joan concorda com a proposta indecente de salvar a agência em um último ato de desespero. Assim parecem chegar ao fim estes dois arcos principais que vinham sendo constantes nesse início de temporada: Peggy buscando pela independência financeira e criativa de seu mentor, e a decisão de Joan ecoando até hoje pelos corredores da agência. Mas ninguém pode negar também que essa nova disposição é capaz de render novos arcos interessantes, prováveis conflitos tanto criativos como pessoais. Peggy aparentemente é a que mais saiu prejudicada com essa união. Don pede para que ela escreva a carta à imprensa imaginando a agência que gostaria de trabalhar. Mas por suas fantasias envolvendo Ted e sua aversão a mudanças, conforme disse a Abe, essa situação está bem longe de ser a que Peggy deseja no momento. Ainda mais trabalhando nas altas horas da madrugada para Don Draper, redigindo uma carta, como se fosse novamente sua secretária.

Foto: Divulgação/AMC.


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sábado, 4 de maio de 2013

[Mad Men] 6x05 The Flood

"This is an opportunity. The heavens are telling us to change."

Mad Men já mostrou inúmeras vezes que não tem a pretensão de tratar dos fatos e ocorrências dos anos 60 como uma série histórica. É antes um drama de época, focado em personagens que vivem neste período de profundas mudanças. Porém, alguns eventos tornam-se tão marcantes para a sociedade americana que é impossível ignorar o impacto que também causariam nesses personagens. O assassinato de Martin Luther King certamente é um desses casos e, por chegar também agregado a toda luta pelos direitos dos negros, já era antecipado por muitos como um ponto importante na história. Assim, a introdução de alguns personagens negros, até em posição de destaque como no caso de Dawn, contribuíram para aumentar ainda mais a expectativa por esse momento. Mas Mad Men não perde sua essência, e apenas reforça que esse grupo de personagens, em sua maioria brancos, não estavam prontos para lidar com uma tragédia como essa. Podemos resumir nesse abraço de Joan em Dawn no dia seguinte, envolvendo toda uma constrangedora "culpa branca". Por isso, com temas tão diferentes, em períodos tão distintos, não parece muito justo estabelecer qualquer paralelo com The Grown-ups, o episódio que tratava da morte de Kennedy, a não ser pelo cuidado ao revelar essa tragédia ao público. Durante uma premiação de publicidade, nada menos do que Paul Newman acaba sendo o porta-voz da notícia na cerimônia, pegando todos de surpresa, dando início à tensão e a uma busca frenética por maiores informações. Outro fato curioso é que naquela ocasião Peggy prefere trabalhar no dia seguinte para evitar o clima de luto em sua casa, assim como Dawn provavelmente prefere passar o dia na SCDP, mas dessa vez consola sua secretária dizendo que ninguém deveria estar trabalhando neste dia. Mas as comparações terminam aí, já que o sentimento é outro, não existe um desejo de superação, um amadurecimento da sociedade, os personagens simplesmente parecem perdidos tentando entender o significado dessa tragédia.

Se na semana passada reclamava da falta de Ginsberg na série, esse episódio retoma sua história através de um encontro arranjado pelo seu pai, com uma professora judia. Durante o encontro a notícia surge, e eles acabam cancelando o jantar, Ginsberg volta para casa e seu pai cita a passagem da Arca de Noé, a inundação que dá título ao episódio, dizendo que em momentos assim as pessoas tem de escolher alguém para se apegar. Ou a alguma coisa, como é o caso de Harry, que lamenta os programas e horários comerciais perdidos na televisão por conta da cobertura dessa tragédia. Pete se revolta com essa postura do colega e chega a chamá-lo de racista, para logo revelar quanto é hipócrita, pouco se importanto com os direitos dos negros, mas por tratar-se de um homem de família assassinado. Da mesma forma, Pete tenta aproveitar a delicada situação para voltar para casa e consolar sua família, mas Trudy continua irredutível. Henry Francis vê uma chance aparecer para tentar a candidatura ao Senado por reprovar a postura de seu prefeito, tentando acalmar os ânimos em meio ao caos na cidade. Já Peggy, que abre o episódio de costas num radiante vestido amarelo, naquele famoso ângulo usado para retratar Don (e é cada vez mais interessante o quanto tentam fazer paralelos com ele durante essa sua ascensão), para depois ampliar o foco para o apartamento de seus sonhos e seu futuro com Abe. Aproveitando o momento turbulento, sua corretora tenta especular mais do que devia e acaba perdendo na negociação. Mas isso parece até providencial, já que dá a chance de Abe opinar sobre essa mudança de vizinhança, revelar seus projetos para o futuro e encher Peggy de esperança. Talvez minhas suspeitas de que esse relacionamento tivesse vida curta estavam equivocadas.

Na SCDP há ainda a visita de Randy, um estranho agente de seguros (tão estranho que não consegui deixar de lembrar de Ethan e a iniciativa Dharma), tirando proveito dessa tragédia para sugerir uma mudança nos negócios. Nada de muito substancial por enquanto, mas pela sua relação próxima a Roger, deve ser alguém importante nos próximos episódios. E Don Draper? Seu monólogo sentado na cama para Megan foi certamente bastante emocionante, embora fosse um daqueles momentos que Mad Men parece se render às palavras óbvias demais. No entanto, não sei exatamente relacionar com o tema do episódio, a não ser pela sua visita ao cinema com Bobby, assistindo ao mundo chegar ao fim na versão original de Planeta dos Macacos. Charlton Heston vagando pela Terra vazia no final parece um sinal do caminho de solidão que Don está se destinando. Embora não houvesse qualquer implicação da briga da semana passada com Megan, sabemos que o casamento continua passando por problemas. Sua maior preocupação é com Sylvia em Washington, e ele tenta fazer contato de todas as maneiras possíveis, mas sem qualquer sucesso. Agora quando ele revela finalmente conseguir estabelecer algum vínculo afetivo com seu filho, a preocupação dele em meio a seus pesadelos é pela sobrevivência de seu padrasto. De repente, a suspeita de que Don Draper precisaria de mudanças de postura e pensamento para acompanhar o ritmo frenético desse período já não parecem ser mais suficientes. Ele e tantos outros personagens que desfilam sua insensibilidade ao longo do episódio, precisam de mudanças bem mais profundas em seu próprio caráter.

Foto: Divulgação/AMC.


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domingo, 28 de abril de 2013

[Mad Men] 6x04 To Have and to Hold

"I pray for you. For you to find peace."

Com o passar de várias temporadas, uma consequência natural para uma série como Mad Men que lida com tantos aspectos da sociedade de seu tempo, expandindo e explorando diversos núcleos, é a necessidade de episódios como o dessa semana. Acompanhamos o avanço de diversas tramas principais, seja dentro da SCDP, na concorrência pela Heinz ou no casamento dos Drapers, assim como outras históricas mais periféricas, como Joan e Dawn encontrando-se com suas respectivas amigas. No entanto, em muitos casos senti que uma atenção maior seria necessária, principalmente em relação à decisão de Peggy, traindo a confiança de Stan, que passou uma sensação de frieza extrema e poderia ser amenizada com um tempo maior de reflexão. No entanto, é curioso notar que todas as tramas se relacionam com essa concorrência entre as duas agências, gerando peças tão ligadas à época (sejam bem-vindos, espaços em branco!) mas ao mesmo tempo tão opostas. No caso do trabalho da SCDP, refletindo os encontros furtivos no esconderijo de Pete e a sala secreta na própria agência, Don tenta abstrair mais uma vez o produto -- assim como já havia feito com o hotel do Havaí -- e explorar a imaginação de seu público. Mas quem se enquadra melhor na proposta do cliente é Peggy, que repetindo as palavras de seu mentor durante a apresentação, propõe uma exposição maciça do produto na Times Square. Nenhuma das duas agências pode comemorar, porque quem venceu a concorrência foi a Thompson, mas o encontro depois no bar também não me agradou. Todos lamentando a derrota, de repente Ken entra furioso porque Raymond descobriu sobre o "Projeto K" e Stan sai de cena mostrando o dedo do meio para Peggy. Ficou parecendo um sketch sobre traição.

Mas talvez seja outro indício de que a traição de Don Draper esteja próximo de ser descoberta. Resta saber se isso acontecerá antes ou depois de se separar de Megan, afinal sabemos que quando ele compara sua mulher a uma vagabunda, é porque estamos acompanhando o início do fim deste relacionamento. "To have and to hold", além do nome da novela que Megan participa, é também um trecho dos votos feitos pelos noivos nas igrejas católicas americanas. Pela primeira vez Don parece incomodado com a cruz pendurada no pescoço de Sylvia, e ela não esconde que reza depois de cada encontro para que seu amante encontre paz de espírito. Porque, convenhamos, Don é um homem perturbado a ponto de não apenas correr para trair sua mulher logo depois de vê-la em cena com outro ator, mas por ainda reproduzir a cena com sua amante. A série já mostrou claramente que esses padrões se repetem na vida de Don, e deixava claro o distanciamento dos dois no final da temporada anterior, mas esperava que dessa vez seria Megan a tomar iniciativa e propor uma separação, cansada das velhas manias do marido. Enquanto ele se incomoda por Megan supostamente lhe trair sob a luz dos holofotes, ele age de maneira muito pior nos bastidores. Resta esperar que essa situação finalmente se inverta.

Já dentro da agência, as disputas continuam bastante tensas, dessa vez com Joan e Harry medindo forças para ver quem tem mais autoridade. É uma situação delicada de analisar, porque apesar da secretária de Harry ter burlado as regras, a dinâmica de horário numa agência como a SCDP sempre foi retratada como bem flexível. Basta lembrar da voltinha de Jaguar durante o expediente na temporada passada, por exemplo. Sem entrar muito nesses méritos, a situação serviu para mostrar que mesmo prestigiada por sua mãe e amiga pelo cargo executivo na SCDP, a razão obscura que permitiu Joan atingir esse cargo gera ainda muitas especulações dos colegas de trabalho. Não que faltasse méritos para isso, a SCDP provavelmente nunca sairia do papel se não fosse pela contribuição de Joan, mas sua decisão na temporada passada certamente nem permitiu que ela conquistasse mais respeito entre os colegas. Harry também está em busca desse respeito, só que por outro lado, invadindo a reunião de sócio, exigindo seu lugar, bradando sua importância na agência. E ele tem razão, ainda que fosse um babaca na maior parte do tempo, Harry foi um dos poucos a acreditar no potencial da televisão desde o início, mesmo que sem outra opção, e como sabemos sua presença na publicidade tende a ser cada vez maior (irônico também que Don Draper seja ameaçado em sua vida pessoal justamente pela televisão neste episódio). O que faltava a Harry era alguma iniciativa, como Peter por exemplo, e isso ele mostrou após receber seu bônus no encontro com Roger e Cooper. Como bem descreveu Dawn para sua amiga, a SCDP é um ambiente dominado pelo medo, e quem vence é aquele que consegue se impor neste sistema. Muito interessante esse olhar "estrangeiro" da secretária de Don, que se destaca na agência pelas diferenças e ao mesmo tempo não é respeitada pelo mesmo motivo. Só espero que em meio a tantas outras tramas, Dawn tenha mais sorte de se destacar do que Ginsberg, por exemplo, que levantou algumas questões interessantes sobre as famílias de judeus da época, para depois nunca mais ser lembrado.

Foto: Divulgação/AMC.


e.fuzii
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quinta-feira, 18 de abril de 2013

[Mad Men] 6x03 The Collaborators

"This is how wars are won."

Colaboradores nos tempos de guerra são aqueles que oferecem sua cooperação às forças inimigas, principalmente nos casos de ocupação, por isso tantas vezes são tratados como traidores. Poderia ter ligação a este período, um dos mais tensos da guerra do Vietnã, quando os Estados Unidos lançam sua ofensiva do Tet, situando assim o episódio no final de janeiro de 1968. Porém, esse conflito ético é apresentado em outras situações ao longo desse episódio: Peggy sendo coagida por Ted a usar uma conversa informal com Stan para ir em busca da Heinz, Pete ficando ao lado do cliente da Jaguar que prefere uma linha publicitária focada no varejo, ou até o próprio executivo da Heinz que tenta sabotar seu jovem colega de trabalho atrás de uma oportunidade igual na SCDP. E claro, os dois casos de infidelidade mostrados no episódio, principalmente pela cara de pau dos envolvidos.

Apesar da vontade expressa de interromper esse relacionamento no início do ano, Don ainda continua com seus encontros com Sylvia, sua vizinha do andar de baixo. A amizade entre os dois casais gera vários momentos de risco, a ponto de Don chegar em seu apartamento e encontrar sua mulher sendo consolada pela amante. Uma pena que para o espectador não existe praticamente qualquer suspense, já que acompanhamos todo desenrolar da conversa antes de Don aparecer. Apesar de algumas ressalvas ao esforço de Jon Hamm na direção, sua atuação foi um dos destaques do episódio, nos momentos de tensão, mas principalmente quando tenta (não) convencer os executivos da Jaguar a mudar de estratégia. Esta trama também possibilitou revelar outros detalhes do passado de Don através de flashback, mostrando a época em que se mudou com sua mãe de criação para um bordel. Porém, é um recurso que me parece desnecessário por mostrar um cenário que já vinha sendo montado em nossas cabeças desde as temporadas anteriores, além de bastante questionável como justificativa para seu comportamento em relação às mulheres, como dá a entender por Don deixar seu "pagamento" pela companhia de Sylvia. Até um jantar arranjado entre os casais acaba se tornando um encontro particular quando Megan não se sente bem e o Dr Rosen é chamado para outra emergência. Embora Sylvia tente resistir (sua culpa religiosa também parece ser importante), há todo um jogo de poder e sedução na mesa, duas armas que Don Draper domina, e portanto acaba prevalecendo. Poderia ser apenas mais um passatempo para ele, mas essa proximidade dos casais e a outra trama sobre infidelidade levam a crer que isso pode gerar uma enorme crise no casamento dos Draper, que também já não parece se garantir por si só.

Pete também leva uma de suas vizinhas para seu apartamento na cidade (oferecendo ingressos para assistir Hair!), mas não conta com a mesma sorte de Don, e acaba descoberto por Trudy depois da vizinha aparecer toda ensanguentada batendo em sua porta. Para quem acreditava que Pete estava manipulando sua mulher, criando todos aqueles motivos para pegar o trem todos os dias, era justamente o contrário, Trudy sabia muito bem o que estava fazendo. Certamente no melhor momento episódio, ela não parece tão incomodada com traição, mas porque Pete não cumpriu a parte dele neste acordo, em manter ao menos certa discrição para preservá-la na vizinhança. Ela coloca o marido para correr de casa, estabelece limites para suas visitas e ainda ameaça destruí-lo. Mas não sei também se seria avançado demais pra época uma reação assim, até se levar em conta que a violência contra a vizinha passa totalmente despercebida, impune. Quem também enfrenta conflitos de gênero é Peggy, que ao invés de ser respeitada pelos outros funcionários da agência, como dava a entender no episódio anterior, é na verdade temida por sua inflexibilidade. Por isso, ela acaba sendo vítima até de brincadeiras, o que se fosse um homem no cargo de liderança certamente não aconteceria. As conversas com Stan após o expediente são um dos poucos momentos que vemos Peggy relaxar, ser ela mesma, ser tratada de igual pra igual. Mas talvez fosse ingenuidade sua achar que entregando a informação para Ted de que um cliente em potencial estava saindo ao mercado não acarretaria esse dilema ético. Já na SCDP, Herb aparece na porta da sala de Joan para acabar com seu dia. Talvez o maior problema de ceder a um cliente assim da agência fosse que ele sempre voltaria a bater em sua porta. Claramente irritada, ela vai procurar refúgio na sala de Don, que também parece contrariado durante todas as reuniões da Jaguar. Não só porque parecia absurdo para ele mudar para uma estratégia daquelas, mas sinto que ele se sentiu vingado mesmo em um nível pessoal. Regras de conduta funcionam mesmo de forma curiosa na cabeça de Don. É curioso também notar como está sendo introduzido o novato Bob Benson (James Wolk da abreviada série Lone Star), como uma ameaça para os mais experientes, como uma versão mais nova do charme de Don Draper, como uma figura onipresente nos contatos da agência. Ele ainda parece oculto em muitas destas situações, mas assim que for revelado seu potencial é capaz de causar alguma agitação na SCDP. O que, convenhamos, está mais do que na hora.

Foto: Divulgação.


e.fuzii
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sexta-feira, 12 de abril de 2013

[Mad Men] 6x01-02 The Doorway

"I'm just acknowledging that life, unlike this analysis, will eventually end and somebody else will get the bill."

E a morte continua rondando a vida destes personagens. Passados pouco mais de 6 meses em suas vidas, períodos que parecem estar encurtando a cada nova temporada, Mad Men retorna para seu penúltimo ano na televisão, ainda marcado por essa fatalidade latente. Não haveria situação melhor para revelar a profunda mudança da sociedade em um intervalo tão curto de tempo quanto nos eventos sociais de final de ano. O que antes se traduziam em festas inesquecíveis, agora parecem suprimidas diante de tantos outros acontecimento, ou até simplesmente esquecidas, como na celebração de ano novo particular no apartamento dos Drapers. Se comparada à festa neste mesmo apartamento na premiere anterior então, parece até que estamos diante de um outro casal. Mas se considerarmos a dinâmica entre eles, de fato estamos. É interessante também estabelecer um paralelo com o piloto da série, quando nos é revelado apenas nos últimos minutos que Don Draper tem uma família no subúrbio. Dessa vez, pelo contrário, é guardado para o final que Don está realmente traindo Megan com a mulher do Dr. Rosen, em resposta ao cliffhanger que encerrava a temporada passada, a garota no bar perguntando se Don estava sozinho. No entanto, pela primeira vez, essa situação parece estar incomodando Don Draper. "Quero parar de fazer isso" é uma de suas únicas resoluções para o novo ano. Mas ele sabe que não seria capaz de parar, e pela reação de sua amante (a maravilhosa Linda Cardellini), ela também sabe disso. Durante o episódio, o que me incomodou foi essa camaradagem excessiva de Don com o médico, que não me parecia apenas mera curiosidade pela sua profissão ou por lidar frequentemente com a vida e a morte, mas uma relação próxima a ponto de dar até presentes fora de época. Com essa revelação final, tudo parece mais claro, Don tenta compensar um homem que consegue ser mais digno do que ele em todos os aspectos da vida.

O episódio começa sob o ponto de vista de alguém sofrendo um ataque cardíaco, para depois embarcar na jornada de Don pelo "paraíso", no clima e nas cores quente do Havaí, enquanto lê um trecho do Inferno de Dante Alighieri na praia. Sua atitude diante deste cenário é de completo torpor, como se não estivesse presente ali, passando quase dez minutos em silêncio. A palavra a quebrar esse silêncio é "army" diante de um jovem militar, bêbado no balcão do bar, que passa a relatar as atrocidades vividas no Vietnã, enquanto Don relembra seus velhos tempos de guerra na Coreia. Ele retorna à fria Nova York dizendo que viveu uma verdadeira experiência, impossível de colocar em palavras. Na agência, percebemos que apesar disso, apenas Don Draper continua exatamente o mesmo; barbas, bigodes e costeletas crescem em profusão no rosto desses personagens. Como se ainda estivessem aproveitando a brisa de mudança trazida pelo verão do amor, enquanto Don continua rejeitando a mera utilização do termo em uma de suas campanhas publicitárias. Então, quando sua viagem pelo Havaí também precisa virar propaganda, Don é o único incapaz de perceber a interpretação mórbida de sua experiência -- Stan chega inclusive a pensar que essa era justamente a "graça" do anúncio. Estaria Don também querendo se suicidar?

Provavelmente não, mas é muito forte sua curiosidade em saber o que este momento lhe reserva, abandonar sua existência física, com certeza ainda influenciado pelo suicídio de seu sócio, Lane Pryce, que continua in memoriam batizando a agência. Roger também se mostra perturbado neste sentido em suas sessões de terapia, cansado de buscar algum sentido para a vida. Sua análise que inclusive dá título ao episódio, diz que a vida é uma sucessão de portas, pontes e janelas que abrem e fecham todas da mesma maneira e levam fatalmente sempre a um mesmo caminho definido. Claro que não se deve levar a sério um personagem que conta piadas para si mesmo na terapia. Mas não à toa, posteriormente é revelado que a vítima do ataque cardíaco na primeira cena é Jonesy, o porteiro do prédio de Don, que ocupa esse piso térreo onde abre e fecha a porta para os moradores, convida-os a subir ou descer de elevador. Além disso, Roger enfrenta outros dois anúncios de morte no episódio: sua mãe, a única pessoa ainda capaz de lhe amar, e seu engraxate, que não é lembrado por nenhum outro de seus clientes. Talvez esse fosse um dos maiores receios de Roger, razão para ele finalmente desabar a chorar em sua sala. Assim como acompanhamos desde a temporada anterior, a sociedade vive o ápice do consumismo, os prazeres momentâneos nunca estiveram ao alcance de tanta gente, os relatos de guerra e violência na cidade chegam com uma facilidade incrível e o uso deliberado de alucinógenos faz com que esses personagens procurem sempre por uma nova experiência, inédita, transcendental. Roger não contenta-se com a chegada de um novo ano porque a promessa de um novo ciclo é na verdade apenas mais uma repetição.

Embora com uma atuação ainda discreta neste primeiro episódio, Peggy já mostra um pouco do progresso que teve nos últimos meses trabalhando na CGC. Superando a adversidade em uma campanha também prejudicada pela brutalidade do Vietnã e pelo sarcasmo da época, Peggy consegue impressionar seu chefe com uma ideia ainda mais brilhante para a propaganda de fones de ouvido. Porém, seu relacionamento com Abe ainda me parece um pouco turbulento, como se vivessem em mundos diferentes, e certamente teremos desenvolvimento durante a temporada. Mas o que me pareceu mais marcante foi a presença de Peggy na agência, sua autoridade diante dos outros funcionários, lembrando muito a confiança de Don Draper em seus tempos áureos. Ainda tivemos uma trama envolvendo Betty, que aparece com peso reduzido e tentando mantê-lo sob controle. Sua "descida" a um Village congelante (lembrando que o Inferno descrito por Dante é gelado) não deixa de ser também uma experiência inusitada, visitando um cortiço e entrando em contato com alguns jovens adeptos da contracultura. Obviamente sua tenacidade para resgatar a garota daquele lugar, como se fosse protagonista de um conto de fadas, deve-se principalmente pela história ser muito similar à dela. Porém, por mais que ela tentasse se apegar ao violino, a "identidade" da garota destinada a estudar em Juilliard, sua decisão de largá-lo naquele lugar mostra algum progresso. Betty pode não ser um ser humano exemplar (longe disso, aliás), mas já é recorrente desde a temporada anterior Betty ter alguns lampejos de maturidade e para representar isso nada melhor do que uma mudança na cor dos cabelos. Sally também apareceu pouco, mas já deu mostras de estar mais independente e menos reprimida na mansão dos Francis. Seu conflito com Betty, com os dois personagens em desenvolvimento paralelo, tem tudo para ser um dos destaques dessa temporada. É cedo ainda para dizer o que esperar do ano de 1968 na série, a única certeza é que esse estado de emergência e preocupação dos personagens está longe de chegar ao fim.

Foto: Divulgação.


e.fuzii
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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

[Breaking Bad] 5x08 - Gliding Over All

  “How much is enough? How big does this pile have to be?” – Skyler

“Tagging trees is a lot better than chasing monsters.” - Hank



Um grande acerto desta quinta temporada de Breaking Bad foi começa-la com aquele flashforward. Foram oito episódios em que não aconteceu nada que pudesse levar àquele momento. Pelo contrário. Enquanto a quarta temporada foi um verdadeiro inferno para Walter White (temendo ser morto por Gus, afastando-se de Jesse cada vez mais, Hank mais próximo da verdade), aqui tudo parece dar certo: destrói evidências da polícia, consegue fazer Mike e Jesse seus sócios, cria um laboratório à prova de investigações, rouba um trem e, por fim, elimina todas as pessoas que poderiam envolvê-lo com Gus Fring – inclusive Mike.


E, ao fim de “Gliding Over All”, as perguntas que aquele flashforward deixava, permanecem: Por que Walt parece tão acabado? Onde está sua aliança? Por que usa uma identidade falsa? A tosse é um sinal de que o câncer voltou? Pra que aquele armamento pesado? Seria frustrante não termos respostas se fosse o final de uma temporada “normal”, mas com esta divisão é preciso relevar muita coisa. Importa é que, além de servir como uma sombra que paira sobre cada ação vista nesta temporada, elevou a tensão de um episódio em que aparentemente não era pra ter tensão alguma. 


Sabíamos que os nove homens de Mike não seriam problema porque Walt teria ainda um ano pela frente – daí mais uma boa montagem que mostra rapidamente a eliminação de todos, no melhor estilo O Poderoso Chefão. E parecia óbvio que a passagem do tempo só poderia ser mostrada daquela forma, provavelmente a mais bela que a série já realizou (como se os realizadores tivessem esperado cinco anos por aquele momento para usar Crystal Blue Persuasion), no momento em que nada ameaçava o império do protagonista. 


O que não sabíamos (e não sabemos ainda) é que tragédia ocorre meses depois, fazendo cada sequência, a partir dali, ser carregada de tensão e perigo: Skyler, Walter Jr., Holly e Marie reunidos, com Jr. atendendo uma ligação e saindo; Skyler chegando em casa e encontrando luzes apagadas e aberta a porta que dá para a piscina; Skyler na cozinha e a porta de casa se abrindo; Jesse ouvindo alguém chegar em sua casa; e, claro, todos reunidos na piscina a poucos minutos do fim do episódio, sequência de parar o coração que me lembrou situação semelhante no final de Sopranos. Em todos estes momentos achei que algo aconteceria, graças à tragédia anunciada no início da temporada, mas também, em relação à família na piscina, a uma grande sacada. Walt desistindo dos negócios guia nossas expectativas e acreditamos matar a charada: algo terrível vai acontecer porque alguém não aceita a desistência de Heisenberg. E, para surpresa absoluta, algo totalmente diferente encerra o episódio.


Mas primeiro falemos sobre Walt desistindo dos negócios. Há uma história amplamente conhecida (e, confesso, não sei se é verdade ou mito) de que Alexandre, o Grande teria chorado ao perceber que não havia mais nada para conquistar. Cabe perfeitamente na história de Walter White: após cinco temporadas de pura adrenalina, tensão, medo, desespero, coisas hediondas e grandes conquistas, Walt consegue estabelecer seu império e nada tem a temer. É o que ele queria, bem explicitado na conversa com Jesse alguns episódios atrás, mas uma vez almejado o objetivo, e agora? A brilhante sequência da passagem dos três meses nos mostra um Walt que muito trabalha mas se vê à noite cansado e entediado, em uma casa imersa na escuridão, convivendo com uma esposa que o odeia e sem a presença dos filhos.


Ver o dinheiro que conseguiu (e que nunca gastará todo) talvez tenha sido o empurrão que precisava para perceber o vazio de sua existência. Ele até procura Jesse, não só porque se importa e quis pagar uma dívida (sabemos que por mais monstruoso e manipulativo, nunca houve nada que desmentisse o fato de que Walt gosta e se preocupa com Jesse), mas porque ele precisava manter um elo com o momento de sua vida que mais teve sentido; relembrar as aventuras com o trailer é se apegar a um passado que parece distante e que deu lugar ao tédio e a uma rotina que pouco envolve as pessoas com quem ainda se importa.
Mas é possível também que a desistência de Walt esteja relacionada a algo não visto (descarto a possibilidade de que ele mentiu para Skyler, pelo simples fato de que ele precisa dela para lidar com o dinheiro que ganha), como o resultado do exame que faz. Sabemos que a visita médica é rotina (também vimos isto na temporada anterior), mas o retorno do câncer é a forma mais contundente de mostrar ao personagem sua mortalidade. E que genial resgatar o dispenser de papel toalha, que continua lá, amassado, em um acesso de fúria de Walt quando recebeu boas notícias sobre a doença no momento em que já tinha aceitado sua morte (no episódio 2x09, “4 Days Out”). 


“Gliding Over All”, aliás, é uma coletânea de referências a vários momentos da série, sem nunca chamar atenção para eles (a não ser, claro, que tenha função dramática, como o caso do dispenser), como podemos ver neste link. Ainda podemos citar a fala “Learn to take yes for an answer” de Walt para Lydia, mesma coisa que ele ouviu de Mike em 4x02, “Thirty-Eight Snub” e também Walter Junior brincando de peekaboo com Holly.


E, por fim, temos a ida de Hank ao banheiro. Provavelmente o momento mais esperado da série, que sabíamos que chegaria um dia (mas não quando e nem como), é este em que Hank descobre sobre Walt. Até parece óbvio encerrar uma temporada assim, porque cliffhanger maior não poderia haver. Mas a situação é tão inusitada e inesperada que me fascina a coragem de Gilligan e seu time de roteiristas.


Primeiro, o erro de Walt. Mais uma vez vale lembrar a frase de Hank dois episódios atrás, sobre profissionais também cometerem erros. Critiquei a forma como conduziram os erros de Mike, porque destoavam do personagem. Mas não me parece ser o caso aqui: Walt é orgulhoso demais para não guardar o presente de um químico brilhante que, em dedicatória, diz ser uma honra trabalhar com ele. Ele fez questão de manter aquele livro como recordação de seu triunfo (e realmente é interessado na poesia de Whitman – Walt está lendo este livro logo após ganha-lo de Gale no momento em que Hank liga para ele em 3x06, “Sunset”) e não creio ser descabido pensar que circulou por cômodos na casa de Walt tantas vezes nos últimos meses que há muito tempo deixou de ser visto como evidência contra ele – se é que algum dia chegou a ser visto desta maneira. E nem quero entrar em questões do inconsciente, como Walter ter o desejo de ser pego ou viver perigosamente, como quando colocou Hank de volta às investigações ao falar que haveria alguém por trás de Gale...


A incrível coincidência, então, parece estar ligada àquela noção de carma e azar que tantas vezes rondou a série. Se Gilligan chamou o acidente aéreo de “Lucifer-ex-machina”, aqui nem é preciso mudar o nome do recurso, mas ao contrário, tornar literal o conceito: trata-se de uma verdadeira "Justiça POÉTICA". Se o castigo veio do céu quando os aviões colidiram, agora vem diretamente do inferno, mensagem especial de Gale. Que esta descoberta de Hank tenha se dado naquela situação, é alcançar um novo nível de tragicomédia. Além do fato de vir no exato momento em que Walt desistiu dos negócios.


As implicações disto são fascinantes. O que Hank fará ao sair do banheiro? Que tipo de investigação poderá fazer e o que mais pode descobrir, uma vez que Walt se tornará um pacífico dono de lava-a-jato? O quanto descobrirá sobre o envolvimento de Skyler (imaginem Hank seguindo-a e descobrindo a pilha de dinheiro)? Que tipo de reação esperar do homem obcecado por Heisenberg e que descobre tratar-se de seu cunhado, pai dos filhos que ele cuidou por um tempo e que ama como se fossem seus? Que teve seu tratamento pago por dinheiro vindo da “blue meth”? O que pensariam seus colegas de trabalho se descobrissem que o homem mais procurado do DEA vive tão próximo e intimamente dele?


E isto ocorre alguns meses antes de Walt completar 52 anos e estar com uma identidade falsa e armamento pesado. Será Hank a vítima que ficará entre Walt e algum criminoso (De Phoenix? Da República Tcheca?) que exige o retorno de Heisenberg para os negócios? Não dá para esquecer também a sequência no episódio anterior em que a polícia revista a casa de Mike enquanto este assiste a “Os Corruptos”, obra-prima de Fritz Lang. Um policial comete suicídio no início do filme e é a este acontecimento que os personagens se referem e que ouvimos em off quando há um close em Hank (e mais tarde ele simula se matar ao sair de sua sala para pegar café para um Walt choroso, com um tiro na cabeça, da mesma forma – e do mesmo lado – que o policial do filme).


São muitas especulações e apenas uma certeza: a de que um ano nunca demorará tanto para passar como este próximo. Sobreviveremos?




 

Hélio Flores