quarta-feira, 31 de agosto de 2005

[FILME] O Jardineiro Fiel

Pessoal, dando uma rápida pausa nos comentários das séries, quero dividir com vocês minhas impressões sobre esse magnífico filme que chega às salas de exibição na próxima 6ª feira. Trata-se de O Jardineiro Fiel, cujo resumo básico que vemos no site oficial diz: "A conspiração é global, a corrupção é contagiosa". Só mesmo um diretor como Fernando Meirelles teria coragem para fazer um filme que toca fundo na ferida que toda sociedade moderna insiste em esconder e tratar. Aquela da África perdida e isolada do resto do mundo, onde pessoas são tratadas como mercadorias e suas vidas/mortes são meras estatísticas de relatórios da ONU. Em O Jardineiro Fiel, baseado na obra de John le Carré, Meirelles nos leva ao Quênia onde grande parte da trama ocorre e onde vemos o quão vil, homens, corporações e governos se tornam quando dinheiro e poder estão em jogo. O filme é sim um belo thriller no melhor estilo le Carré, mas com um ingrediente a mais no pano de fundo: uma bela história de amor e descoberta.

A genialidade de O Jardineiro Fiel, é que o grande questionamento não é "Que coisas terríveis as grandes corporações estão cometendo contra humanidade com a ajuda dos grandes governos agora?", afinal já estamos cansados de ver homens poderosos agindo de forma nefasta mundo afora. A questão central é o que um homem não tão poderoso pode fazer contra isso. O filme é um thriller de consciência, já que é fácil ignorar todas as coisas terriveis que acontecem ao nosso redor o tempo todo, quando na realidade você não precisa olhar para elas; porém quando você é confrontado por evidências inalteráveis, quando a sujeira fica bem em cima do seu tapete, o que você faz?

Ralph Fiennes faz Justin Quayle, um diplomata britânico de baixo escalão no Quênia que demora um pouco até abrir seus olhos para a realidade que o cerca (basicamente o que todos nós fazemos). Ele tem um bom emprego, o respeito de seus colegas da embaixada e uma boa casa com jardim no qual passa horas se distraindo. Em suma, alguém que jamais se meteria em confusão. O que na verdade dá a ele uma dimensão ainda maior dentro da trama. Ele é completamente ignorante acerca de qualquer informação de má conduta na atuação das indústrias farmacêuticas britânicas que atuam na região... porque ele simplesmente não quer saber disso. A esposa dele contudo, é um grande problema. Tessa (Rachel Weisz) é uma ativista que faz um trabalho de prevenção com mães portadores de HIV nas favelas de Nairobi e uma criadora de encrenca por natureza. Ela não só é um problema para os chefes de Justin, porque faz perguntas embaraçosas demais em festas da embaixada, mas sobretudo para o próprio Justin a quem ela constantemente ataca pela complascência e a quem tenta insistentemente abrir os olhos.


Somente após a morte dela é que ele começa a despertar. (Não entreguei nenhuma surpresa do filme, porque isso acontece logo no início, e a história deles é contada através de flashbacks ao longo do filme) Tessa é encontrada morta numa beira de estrada e as autoridades sugerem que bandidos foram os responsáveis, ou que talvez ela estivesse tendo um caso com um colega de trabalho. É claro que ao longo do filme vai ficando evidente que a morte dela trata-se de queima de arquivo, mas em certos momentos dá pra duvidar do caráter dela em virtude de algumas ações no mínimo suspeitas.

O Jardineiro Fiel é sim um thriller em muitos aspectos como eu já disse antes, mas é ainda mais uma tragédia. Para Justin, é a tragédia de só descobrir e conhecer o amor de sua esposa depois que ela se foi, e ter de seguir os passos dela num esforço para entender a realidade na qual ela vivia e decobrir o complô de corporações e governos que exploram a pobreza e o desespero das pessoas para tirar proveito delas já que elas não tem voz para protestar contra tal tratamento. E é uma tragédia para nós, pois tendemos a ver Tessa como um modelo pitoresco fora de linha e Justin como o lógico e racional a se seguir, quando na verdade o mundo precisa de mais Tessas e aposentar os Justins do início do filme, para começar as mudanças que se fazem tão urgentes.

No final, Justin que em certa passagem do filme vez dera pouca importância à intenção de Tessa em fazer alguma coisa pelos outros com um "existem milhões de pessoas e todos eles precisam de ajuda", acaba por entender o imenso valor de se fazer algo para ajudar uma única pessoa que seja dentre estes milhões. E a mensagem vêm de forma bastante plausível pintada por tons de paranóia e conspirações, e que deixam no ar o leve sentimento da inevitabilidade. Se não chega a ser tão espetacular e surpreendente quanto Cidade de Deus, essa nova empreitada de Fernando Meirelles pelo menos dá reais mostras de que seu talento para retratar os descaminhos da sociedade e ainda por cima fazer cinema de qualidade permanece intacto e promete ainda mais. Fica aí a dica. Confiram esse belo trabalho.


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