quarta-feira, 27 de julho de 2011

[Breaking Bad] 4x02 - Thirty-Eight Snub


“Hell of a last couple of weeks.” - Walt

“Now that you're back in the mix, it's like nothing but good days ahead.” – Skinny Pete


Houve tanta tensão e adrenalina nos últimos episódios de Breaking Bad, que era de se esperar que algo como este “Thirty-Eight Snub” viesse num ritmo tranqüilo para a freqüência cardíaca dos fãs voltar ao normal.

Claro que “tranqüilidade” não é o termo mais apropriado pra uma série onde os personagens nunca parecem chegar ao fundo do poço. Mas a maior situação-problema do final da temporada anterior (como estabilizar Walt e Jesse funcionários de Gus?) está resolvida e é hora de mostrar como todos reagem aos últimos acontecimentos e seguem suas vidas.

E o que vemos é o fracasso completo nas escolhas que fazem: Walt não consegue levar adiante seu plano de assassinar Gus; Jesse tenta em vão fugir da dor que lhe consome por ter matado Gale; Skyler falha em comprar o “lava a jato”; Marie e Hank se vêem cada vez mais distantes numa relação cheia de sofrimento e amargura. Nem mesmo Mike consegue tomar seu café sem ser lembrado do que houve com seu parceiro Victor ao notar o sangue em seu casaco. A frustração toma conta do episódio que, por outro lado, está de acordo com as expectativas de quem sempre admirou a série pela sua capacidade de fazer com que a trama caminhe juntamente com o desenvolvimento dos personagens - ou justamente por causa deste desenvolvimento.

O mais curioso é o que acontece com Walt. Sempre houve algo de patético em Walter White, desde que o conhecemos no piloto da série, sem suas calças, perdido no deserto. O homem comum numa situação extraordinária se descobre capaz e portador de qualidades antes inimagináveis, mas não sem o risco do ridículo, do cálculo errado, de também ressaltar suas limitações. São vários exemplos ao longo da série, e a dosagem sempre foi equilibrada entre Walt marido, pai, professor de meia idade e Walt-Heisenberg, homem decidido a levar às últimas consequências a sua opção pela criminalidade. Em comum a eles, a teimosia, a obsessão quando fixa uma ideia na cabeça, a eterna negação de seus atos ("defesa", ele repete na abertura do episódio, mais para si do que para o vendedor de armas).

Mas Walt nunca esteve tão patético e cego por sua obsessão como agora. Com pouca habilidade para guardar e sacar uma arma, ainda assim sua autoconfiança é enorme (reparem como a trilha sonora muda ao colocar o chapéu antes de sair do carro e ir em direção à casa de Gus ou o olhar que dirige a Mike antes de ser noucateado), a ponto de achar que poderia matar seu chefe ali mesmo no laboratório ou em sua residência. Mas é o momento ideal para ser estúpido: como é o único capaz de "cozinhar" a droga, não pode ser morto, e até arrisca uma improvável aliança com Mike. Walt é inteligente (não teria chegado até aqui se não o fosse) e acerta em cheio ao provocar a preocupação do braço direito de Gus. Faltou apenas sutileza e tato para que o veneno fosse destilado aos poucos e lentamente. E Heisenberg não é tão experiente no ramo como acha que é.


Num tom bem mais pesado e triste, temos Jesse sem condições de lidar com o que fez, buscando refúgio no seu novo e potente sistema de som, na agitação das festas regadas a drogas em sua casa. Mas nesta ele está sozinho, evidenciado tanto pelo seu olhar no plano abarrotado de pessoas em sua sala quanto no plano geral que o mostra do lado de fora de casa, ruas vazias, apenas o som abafado da festa. A 3ª temporada finalizou com a alma do personagem vendida ao diabo e as consequências disto são sentidas aqui com imensa tristeza, com três dolorosas cenas em destaque: destruindo a ilusão dos “12 passos” para Badger e Skinny Pete; o ponto de vista de Brock, dando tchau para Jesse enquanto o carro de Andrea se afasta; e, claro, o final, quando som nenhum é capaz de silenciar sua dor. Com este episódio, Aaron Paul começa a garantir seu segundo Emmy.


Falando em grandes atuações, a série sempre se mostrou generosa com seus coadjuvantes, mas faltava a Betsy Brandt algum destaque (a “cleptomania” de Marie felizmente foi esquecida pelos roteiristas), e que finalmente veio com a situação cada vez mais difícil com o rancoroso Hank. Marie tem se dado bastante ao marido, sem retorno algum, e Brandt consegue toda nossa simpatia, seja no momento em que Hank pede para que ela saia do quarto (close-ups, sempre um presente pros atores) ou no pedido quase desesperado para que o fisioterapeuta fique em tempo integral. Onde isso vai dar? Ou melhor, até quanto Marie pode suportar e qual será a trágica conseqüência disto? Hank e sua obsessão por minerais continua um mistério e é de se perguntar a coincidência ao descrever um corindo azul, mesma cor da droga fabricada por Walt – por outro lado, minhas suspeitas no comentário anterior sobre Hank estar investigando a “blue meth” por conta própria foram abaladas ao ler em um fórum a opinião de um químico, que disse não haver relação entre coloração de minérios e compostos orgânicos.


Enquanto isso, Skyler continua fazendo seu dever de casa e se mostra tão autoconfiante quanto Walt ao tentar comprar o lava a jato. Mas se não dá certo, não é por uma limitação dela, como é o caso do marido. Como já escrevi em outra oportunidade, Breaking Bad sempre reaproveita de forma inesperada eventos passados para nos lembrar da cadeia de eventos que afeta e transforma a vida de todos os envolvidos. Neste caso, o fracasso de Skyler é mais uma conseqüência dos atos de Walt, que arranjou este desafeto com o dono do local no primeiro episódio da série. E como é boa esta sensação de que tudo que aconteceu e acontece pode servir à narrativa no futuro.


Pra finalizar, algumas imagens do episódio, que (só pra variar) é extremamente bem montado, sonorizado e com a habitual excelência da fotografia e cuidado com enquadramento.



- Os feixes de luz natural que tentam, mas só conseguem iluminar os ambientes parcialmente:



- A luz artificial iluminando rostos devastados pela tristeza e impotência:



A solidão diurna de Jesse...


- ... e a solidão noturna de Walt:




- Nada fica sem explicação em Breaking Bad: lembram da pizza que chega inteira ao telhado da casa de Walt em "Caballo Sin Nombre" (3x02)?



- Isso porque não são fatiadas, para irritação de Jesse:



- Por último... quem mais achou que Bryan Cranston fez uma ponta na festa de Jesse?







Hélio Flores
twitter.com/helioflores





4 comentários:

Hélio disse...

É tanta coisa em um episodio de Breaking Bad, que acabei nao arranjando espaço pra duas coisas no texto:

- Uma provavel homenagem a Taxi Driver, com Walt "treinando" com a arma;

- Saul Goodman, que sempre tem uma ponta hilaria. Desta vez tentando lucrar com o acidente aereo provocado por Walt, com um comercial picareta.

Helio.

Laura. disse...

Raramente tenho saco pra acompanhar reviews de episódios das séries que vejo, mas seus dois posts até agora foram impecáveis. Pra combinar com Breaking Bad. ;)

A atuação do Bryan Cranston sempre me impressiona. Você olha pra cara dele e não tem como não pensar em tudo que ele viveu até chegar ali. Às vezes lembro do início da série e é realmente muito triste. E, agora, no segundo episódio, o destaque foi do Aaron Paul, pelo mesmo motivo. Ele era só um usuário de drogas inconsequente, agora olha no que ele se meteu. Dá uma angúúúústia essa série...

Rodrigo Ferreira disse...

Eu tenho que concordar com a Laura, suas reviews de Breaking Bads estão mesmo impecáveis. Ou melhor, suas análises da série, por todo cuidado com que você comenta e interpreta cada elemento dessa série excepcional, que merece todo esse cuidado que você dedica a ela.

Sinto falta de suas reviews de The Wire. Alguma chance de voltar a escrevê-las?

Hélio disse...

Laura e Rodrigo, valeu mesmo pelos elogios. Obrigado!

Laura, acho que o Cranston ja entrou pra historia com este trabalho e tudo indica que o Paul vai pelo mesmo caminho, caso a serie mantenha esta excelencia. Como acredito que manterá.

Rodrigo, vi a 2a temporada de The Wire e fiz daquela mesma forma: escrevi sobre cada episodio logo apos assistir. Em breve devo começar a postar, mas eu queria fazer isso durante maratona da 3a temporada, que so nao comecei porque nao to tendo tempo pra fazer da forma a que me propus (ver episodio e escrever imediatamente depois).

Preciso arranjar logo este tempo. Por outro lado, é bom saber que ha tres temporadas ineditas pra serem vistas de uma série incrivel.

Abços!