domingo, 25 de agosto de 2013

[Breaking Bad] 5x10 - Buried





  
“– Does that make you happy?” – Walt
“– I can't remember the last time I was happy.” – Skyler

“You have to get him!” – Marie

 “…maybe our best move here is to stay quiet.” – Skyler


 

Vendo no IMDB a ficha técnica dos episódios que faltam, “Buried” é o último trabalho de Michelle MacLaren na direção de “Breaking Bad”. Nada mais apropriado que uma das principais mulheres da série (é também produtora) se despeça com o melhor episódio já feito para as personagens femininas.


É, claro, um episódio de Skyler, protagonizando três memoráveis sequências (com Hank, com Marie e com Walt) e este texto só pode ser sobre ela. Mas Marie tem seu grande momento na série, enquanto Lydia continua uma personagem com curiosa e interessante caracterização (Frágil? Louca? Perigosa? Mike obviamente não estava errado em querer matá-la e é uma pena que não teremos muito mais tempo com ela). É verdade que Betsy Brandt sempre mostrou ser uma boa atriz, mas Marie nunca teve nada tão diretamente ligado ao centro da trama e seu confronto com Skyler é mais um momento (e muitos outros virão) que há tempos sabíamos que aconteceria e que a série consegue superar expectativas na realização. Gosto de como Marie descobre aos poucos desde quando a irmã sabe sobre Walt, em sequência parecida com a de Skyler descobrindo que o marido trafica metanfetamina no início da 3ª temporada.


Mas é de Skyler que precisamos falar. Ao contrário da série, Mrs. White está longe de ser uma unanimidade, despertando reações extremas de ódio (e bastante machistas), que resultam também em defesas apaixonadas. A personagem tem causado muita discussão, e poderia levar a reflexões sobre representação e percepção da mulher nas séries americanas.


(Enquanto escrevia isso, o New York Times publicou um texto de Anna Gunn, em que ela fala sobre a repercussão de sua personagem, que pode ser lido aqui)



Aqui abro um parênteses: muito se fala sobre a tendência dos últimos 10 anos de protagonistas masculinos falhos, de posturas moralmente condenáveis (Tony Soprano, Walter White, Don Draper, Jack Bauer, Vic Mackey, Dexter Morgan, etc, etc) e agora, em um período fértil para protagonistas femininas, parece começar algo parecido, mas relacionado a transtornos e comportamentos “estranhos”, não necessariamente no aspecto moral. A bipolar Carrie Mathison de Claire Danes, em “Homeland”, parece ter aberto portas, resultando em coisas bem interessantes (Gillian Anderson em “The Fall”) ou questionáveis (Diane Kruger em “The Bridge”). São mulheres muito diferentes daquelas que assumem papel de esposa do protagonista (Skyler, Carmela Soprano, Betty Draper).



Mas voltando a Skyler, o crítico Alan Sepinwall dedica os primeiros parágrafos de seu texto sobre “Buried” para falar de sua trajetória, e acho que vale a pena fazer isso também.


Até certo ponto é fácil não gostar da personagem. Sua caracterização no piloto parece ter esse propósito. Ela é controladora (o bacon vegan em sua primeiríssima cena na série) e isso é amplificado pra que aumente nossa simpatia por Walt e entenda sua necessidade de fazer o que faz (assim que ele descobre ter câncer, Skyler aparece perguntando sobre débitos na fatura do cartão). Na segunda temporada há sua relação com Ted, inclusive de atividades ilícitas no trabalho, além de constantemente pressionar e querer saber o que o marido anda fazendo (ela descobre um segundo celular). Atitude perfeitamente natural de uma esposa, mas novamente nossa simpatia e torcida continua com Walt e o que ele menos precisa naquele momento é de uma mulher desconfiando do que não existe (uma traição). E uma cena como a que encerra “Down”, em que a personagem muitíssimo grávida fuma, certamente incomoda muitas pessoas, ainda que ela tenha seus motivos para aliviar o stress dessa forma.


Mas o motivo principal pra todo esse ódio, e que demonstra o quanto a repulsa pela personagem está ligada ao puro sexismo, vem na terceira temporada com o episódio “I.F.T.” (abreviação do singelo “I Fucked Ted” e dirigido pela mesma Michelle MacLaren), quando Skyler faz sexo com Ted e diz ao marido com enorme satisfação de quem se sente vingada. Na época, os fóruns pela internet foram entupidos de mensagens de ódio, não por acaso de uma maioria masculina que parecia não se importar com nenhuma das atrocidades cometidas por Walt, mas rapidamente considerou ultrajante a traição de sua esposa. Pior ainda: ignorava que Skyler só faz isto após Walt forçar sua permanência em casa de um modo que a tornava uma vilã sem motivos aos olhos do filho.


Neste ponto, a imagem de Skyler está tão manchada que nem o que se segue parece ser capaz de mudar a opinião de muitos fãs da série: é ela quem inventa a história do vício de Walt no jogo de cartas para pagar a reabilitação de Hank; é ela quem dá a ideia do lava-a-jato, melhor do que qualquer empreendimento bizarro inventado por Saul; é ela quem lava o dinheiro da forma mais eficiente possível; e é ela a autora de algumas frases tão boas quanto às de Heisenberg, como “Alguém tem que proteger essa família do homem que protege essa família”, “Achava que VOCÊ era o perigo”, “Só me resta esperar... que o câncer volte”, no momento em que Walt perde nossa simpatia cada vez mais, e ela a vítima que faz o que pode para manter a família.


E eis que chegamos a este “Buried”, onde Skyler deve tomar a decisão mais importante até aqui: colaborar com Hank ou permanecer ao lado de Walt?


É fascinante que tudo visto nos primeiros episódios da quinta temporada levam a entender que Skyler escolheria o lado de Hank e Marie, e sua escolha por Walt em nenhum momento parece inverossímil. Toda a excelente conversa com Hank deixa claro, não em palavras mas no rosto de Anna Gunn, o quanto ela está envolvida e que não há retorno. É preciso seguir com Walt até o fim. Não à toa o seu “maybe our best move...” ser tão parecido (na entonação, inclusive) com o “maybe your best course...” dito pelo marido no episódio anterior. Já criaram até mesmo o termo “Skysenberg”.


E é preciso ressaltar que a série nesta reta final parece querer revisitar situações e cenários, algo já notado no episódio anterior (o ataque de pânico de Hank, a desorientação de Jesse, Walt mimetizando Gus Fring) e que continua aqui (o deserto, o ferro velho, um laboratório em péssimas condições), mas principalmente não esquecer da motivação inicial do protagonista: família. Hank não pode “fazer uma viagem para Belize” porque é família; Walt se entrega desde que os filhos recebam o dinheiro; Skyler sabe que deve seguir em frente no silêncio também pelos seus filhos, e sai do torpor, do sentimento de culpa e vergonha diante de Marie quando há a ameaça de ter sua filha levada embora; uma das ponderações de Hank é que, no momento em que se tornar um civil, não poderá ajudar a cunhada. 


Família é a coisa mais importante do mundo e um episódio que trata da divisão dela, só deixa mais amarga a tragédia que está por vir.



Mais umas coisinhas:


- O que mais gosto da sequência que abre o episódio nem é a bela imagem representando o estado mental de Jesse, mas como a série não se rende à vontade de abrir todo episódio com algo chocante e vibrante;


- O Carlton Cuse (criador de “Lost”) tuitou que estava adorando Breaking Bad porque tem flashforwards, números de loteria e pessoas gritando “Walt!”. Esqueceu da escotilha;


- Walt enterra todo seu dinheiro no mesmo local em que ele e Jesse produzem metanfetamina no piloto da série. O local se chama To’hajiilee, e dá nome ao episódio 13 desta temporada;


- 34, 59, 20, 106, 36, 52. Óbvio que já foram pesquisar se essas coordenadas são verdadeiras. E, sim, elas apontam para o local onde a série é filmada, assim como várias outras produções: a Albuquerque Studios;


- Gosto como uma cena de humor como a de Huell e Kuby deitados na pilha de dinheiro não serve apenas como alívio cômico. Heinsenberg matou dez testemunhas em dois minutos: é essa a imagem que o medíocre Walt deixou;


- No duelo Hank x Walt (ver imagens abaixo), o primeiro ganha, sacando o telefone mais rápido. Assim que a máscara Heisenberg cai, o pânico toma conta de Walt e só depois se lembra de ligar para Skyler;


- MacLaren se despede com uma porta se fechando, que marca o encontro entre Hank e Jesse. O primeiro desde "One Minute" (3x07), também dirigido por ela. 



Algumas imagens do episódio:



O faroeste





Vermelho: dinheiro, morte, inferno.
 




Balança





Humor 












Hélio Flores

3 comentários:

Ellen disse...

Parabéns! Suas reviews de Breaking Bad são ótimas!

Hélio disse...

Obrigado, Ellen! Volte sempre :)

Mila F. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.