quinta-feira, 29 de agosto de 2013

[Breaking Bad] 5x11 - Confessions


  

 
 "My name is Walter Hartwell White (...) This is my confession." - Walt

"Why don't you kill yourself, Walt?" - Marie

"And all for that asshole Mr. White!" - Jesse

"Oh, Christ, Marie... You killed me here." - Hank






Já havia comentado em “Fly” que provavelmente Jesse nunca saiba sobre Jane. Walt nunca confessaria, talvez sequer se considere culpado pelo que aconteceu. Mas era questão de tempo para que os outros segredos que Mr. White esconde de seu pupilo viessem à tona. A morte de Mike era algo tão aparente, que não precisa muito esforço de Jesse (e também Saul) pra descobrir. Mas Mike fazia parte do jogo, não é o suficiente pra que Jesse se vire contra Walt. Já o envenenamento de Brock é outra coisa.


É uma revelação importante, que só poderia vir nesta reta final, já que rompe em definitivo a relação entre os dois, que por muito tempo foi a alma da série. O momento é perfeito porque Jesse, como personagem, não parecia ir a lugar algum. A ameaça de que poderia colaborar com Hank mostrou-se infundada, e com razão, pois se há alguém que Jesse odeia mais que Walt é o cara que lhe espancou. Nem se pode falar em ódio, aliás, por seu professor: mesmo se sentindo manipulado, tudo o que ele quer é apenas que Heisenberg peça ajuda, faça-o se sentir valorizado. E quando sua participação na série coerentemente parece se encerrar, vem a iluminação.


Momento ideal definido, a coisa complica um pouco em relação ao “como descobrir”. Eu não me incomodo com a conveniência do insight de Jesse – insights são insights, e apesar da impressão de surgir do nada, há um bom número de razões pra ele ligar os pontos. E admiro que a sequência não venha acompanhada de um flashback (o piloto de “The Wire” usa esse recurso, contra a vontade de seu criador, apenas porque os produtores da HBO temiam que as pessoas não entendessem) ou de cenas no “previously” que nos lembrassem da ricina, o que mataria com a tensão e surpresa. Mas confesso que no momento em que via me peguei pensando na rapidez com que tudo acontece, mais uma vez uma exigência da imposição de duas mini-temporadas de oito episódios. Pensando depois a respeito, acredito que os roteiristas se saíram muito bem com janela tão curta.




E é curioso que uma revelação dessas venha em um episódio como “Confessions”, cheio de mentiras, meias verdades, verdades ditas com segundas intenções e mesmo ambiguidade. A tarantinesca sequência que abre o episódio, por exemplo: Todd narra perfeitamente o roubo do trem, mas em algum momento comenta sobre a morte da criança? Ou seria uma bizarra coincidência que um de seus amigos fale de “criança de bicicleta usando capacete”? E o abraço que Walt dá em Jesse, o quanto há de carinho, preocupação e manipulação? Jesse não está errado sobre suas intenções, o que não significa que também não é o melhor para ele. O mesmo vale para a cena com Walter Jr. O pai usa seu câncer para manipular o filho, mas com verdade e preocupação sincera.


E é essa manipulação do discurso, entre verdades e mentiras, que faz a confissão gravada de Walt algo tão brilhante: não interessa a falta de provas, é muito mais fácil pra qualquer pessoa acreditar que Hank seja culpado, do que imaginar que o pacato Walter White seja o verdadeiro criminoso – e pensar nisso nos faz lembrar mais uma vez de como sua trajetória na série é impressionante. Não faltam verdades no que ele diz. Policiais podem testemunhar que Hank realmente levou o cunhado para uma apreensão (no piloto da série) ou que Walt Jr. e Holly ficaram com os tios por três meses. Além, claro, da vulnerabilidade de uma pessoa com câncer, das despesas médicas, etc.


É incrível que uma sequência como esta, que já entra pra coleção de momentos inesquecíveis da série, venha ainda na metade do episódio que se volta depois para Jesse e nos dá mais material pra taquicardia e tensão. Conseguir esse tipo de sensação com uma trama já não é pra qualquer episódio de qualquer série; conseguir com duas é pra colocar “Confessions” na lista das melhores coisas que a TV nos deu nos últimos anos.




“Breaking Bad” já tem vasto material que serve de lição para roteiristas de TV, mas se os cinco episódios que faltam mantiverem a qualidade, há mais algumas aulas preciosas desta segunda metade da 5ª temporada, em relação ao tempo narrativo, como lidar com consequências e dramas mais intensos que levam ao final de uma série, e em especial com quantidade de episódios inferior ao que seria necessário, considerando que a velocidade dos acontecimentos é maior do que o habitual do programa, mas com a excelência e qualidade que lhe é característica.


Muito mais a dizer sobre o episódio, que não é só excelente pelas três ou quatro sequências de alta voltagem. Comentando em tópicos:



- O Guilherme Marques me corrigiu no twitter: “Buried” não foi a despedida de Michelle MacLaren na direção da série. Será no episódio 13, “To’hajiilee”, nome do local onde Walt enterrou seu dinheiro;


- Assim como em “Cornered”, quando uma câmera trêmula na ponta de uma pá acompanha Jesse, Michael Slovis não resiste e faz o mesmo com a gasolina que o personagem carrega. Não é o tipo de coisa que gosto, mas não dá pra reclamar do trabalho do diretor: a reunião em família com um humor bem dosado na presença do garçom, a confissão (os enquadramentos de Marie e Hank em frente à tv, a alternância de closes entre Walt e Hank), o desabafo de Jesse no deserto, a luz e sombras sobre os personagens;


- O momento na série é de lidar com as relações entre os principais personagens após segredos revelados, mas sabemos que a produção da metanfetamina trará problemas ainda maiores. Gosto das pequenas sequências preparando terreno sem desviar a atenção do que é principal agora: a preocupação de Lydia em um episódio, um massacre em outro, novo laboratório rumo a New Mexico abrindo este;


- Não é por acaso que temos uma cena de Todd deixando mensagem para Walt no mesmo episódio em que temos Walter Jr., e o fim da relação paterna entre Mr. White e Jesse. Acredito que ao final da série teremos uma ideia bem definida sobre o significado de cada um desses filhos na trajetória de Walt;


- Ideia melhor no futuro talvez teremos também em relação às roupas de Walt, Skyler, Marie e Hank na cena em que se encontram. Porque também não é por acaso que o habitual roxo de Marie está no marido, enquanto ela se veste toda de preto. E por que diabos os criminosos da mesa é que estão de roupas claras? Se fosse pra especular algo, eu diria que um dos Schrader não sobrevive no final...


- Heisenberg é inteligente, perigoso e faz coisas terríveis. Mas tem que conviver com Walter White, que continua patético, às vezes. A tentativa de maquiar o machucado, a lição que recebe de Saul sobre como procurar por grampos mais facilmente, e o desespero no final, contido segundos antes de abrir a porta, mas não o suficiente pra mentir bem pra Skyler – que só não percebe algo de errado por não estar em condições;


- Skyler, aliás, aparece pouco, mas o suficiente pra vermos que sua decisão no episódio anterior não é algo que simplesmente se aceita. Mal posso esperar por sua reação quando souber que o que ela mais temia – o perigo chegar à sua casa – aconteceu;


- Se Walt é aquele que bate, Jesse é o que arrebenta a porta. O final é excelente não só pela expectativa que gera com a continuação da cena, mas por se relacionar com o flashforward: imediatamente pensamos que Jesse é o motivo de encontrarmos a casa abandonada meses depois, inclusive sendo a pessoa mais provável para pichar de amarelo o nome HEISENBERG. Mas revendo o início de “Blood Money” dá pra perceber que não há sinais de que a casa tenha pegado fogo e que, se não houver erro de continuidade, ao menos por uma reforma ela passará:


 



- Aliás, a primeiríssima cena do episódio é de um isqueiro sendo aceso; a última é de gasolina sendo jogada em nossos olhos. Felizmente, não é o inverso;


- Três episódios neste retorno, e todos começaram (descontando a introdução) exatamente de onde o anterior terminou. Com o próximo provavelmente acontecendo o mesmo, será metade desta segunda parte se passando num curto espaço de tempo, quando sabemos que o fim só acontecerá vários meses depois.


- Cenas marcantes de “Breaking Bad” deixam na memória até nomes de ruas. Quando Saul diz que Jesse precisa ir pra esquina da Juan Tabo com Osuna, gritei (no pensamento): “Juan Tabo! A avenida onde Gale morava!” Fanboys...


- Pra terminar... Hello Kitty? Sério?





Hélio Flores


10 comentários:

Anônimo disse...

Sou um grande fã da série, mas ao contrário de quase todos achei a cena da confissão um ponto fraco em (mais) um excelente episódio. Discordo de você, a falta de provas importa SIM, e sinceramente espero que Hank não recue por causa disso, pois pra mim isso seria pura covardia dos roteiristas.
Aguardando ansiosamente o próximo episódio e seu próximo texto também Hélio.

Hélio disse...

Oi, "anônimo"

Quando digo que nao importa a falta de provas é que Hank também nao tem como provar seu caso. E entre a verdade e a versão de Walt, por incrível que pareça a última é muito mais fácil de se acreditar.

Lembrando que sem testemunhos de Skyler e Jesse, a única evidência que Hank tem é o caderno de Gale. Que só comprova que ele e Walt se conheciam, o que nao desmente a "confissão" de Walt. Afinal, ele era o químico que Hank arranjou para Gus e obviamente trabalhou ao lado de Gale.

Abços!

Anônimo disse...

Sem querer ser chato mas já sendo:
Hank não teria nenhuma prova concreta contra Walter até o momento, até aí concordo contigo, mas no momento em que Walter entrega o dvd com o depoimento pra Hank, isso pode ser usado como prova contra ele próprio, ou ao menos uma evidência que mereça ser investigada (inclusive, na cena, Marie sugere que Hank faça algo nesse sentido). E mesmo que Hank fosse afastado pra ser investigado tb a polícia estaria na cola de Walter, o que embora não fosse o ideal para Hank, afinal ele próprio queria prender o cunhado, seria melhor que deixar Walt livre por aí com a certeza da impunidade.

Hélio disse...

Não duvido que Hank até pudesse cogitar a possibilidade de entregar a confissao de Walt aos colegas. Mas descobrir desta forma que sua reabilitação foi paga com dinheiro ilegal certamente mexeu com ele. "É o ultimo prego no caixão", diz a Marie. Nao é pouca coisa, porque alem de dificultar pro seu lado, fere imensamente seu orgulho.

Como se nao bastasse, de que adianta a policia estar "na cola de Walter"? Ele tem um negocio legal, nao ha dinheiro pra ser investigado e está aposentado de qualquer atividade ilícita. Hank só pioraria a situação pro seu lado e traria dor pra Skyler, Walter Jr. e, principalmente, a esposa. E tudo sem nenhuma garantia de que colocaria Heisenberg na cadeia.

De qualquer forma, voce parte da ideia de que se ele nao usa a confissao, ele esta deixando o caso pra lá. Nao acho que será tão simples. Ele está "desnorteado", é natural. Mas a série sempre nos traz soluções criativas, e acho que nao será diferente com isso.

e.fuzii disse...

Concordo que o fato de Walt e Skyler terem lavado dinheiro pagando pelo tratamento de Hank dificulta bastante qualquer tentativa dele se inocentar por não saber. Assim como uma investigação mais detalhada provavelmente provaria que Hank é inocente. Mas certamente nenhum espectador estaria interessado nesse tipo de desenvolvimento, então a solução é extremamente elegante, e parece suficiente para tirar os roteiristas de outro beco sem saída. Fica cada vez mais longe aquela ideia de que Hank pudesse ser o "herói" a surgir no final.

Por outro lado, minha principal preocupação com essa reta final era também em relação ao Jesse, acho que cheguei a comentar isso até pelo twitter na semana passada. Enfim, conseguiram inserir ele de volta à trama num momento providencial e acho que seu insight ocorre num momento muito bom do episódio, relacionando com seu tema, o que realmente eleva a um dos melhores da temporada. Mas tenho dois poréns:
1) Nunca curti muito aquela trucagem toda com o cigarro de ricina, discutimos bastante naquela época, então fico bem à vontade pra dizer que também não me agrada que a solução partisse desse princípio. Mas tudo bem, consigo relevar.
2) Outro grande problema da temporada mais enxuta, foi essa solução repentina de que Jesse precisa fugir. Claro, é condizente com o que ele está passando, mas não passa sequer por um momento na minha cabeça que ele vai seguir adiante com esse plano. Acho que faltou dimensionar um pouco mais, dar um caráter mais de despedida talvez.

Outra decepção foi o interrogatório do Hank, pensei que ao menos ele fosse tentar manipular um pouco o Jesse, talvez jogando uma isca de que pegaram Walt, ou que ele confessou. Pareceu um pouco raso como sequência do cliffhanger.
Mas enfim, aposto que esse encontro de Walt e Jesse vai compensar tudo isso.

Felipe disse...

Passando aqui só pra dizer que sempre que tem episódio novo de BB, visito o site todo dia esperando pelo review, que são ótimos. Parabéns!

PS: Podia ter continuado com os reviews de outras temporadas de The Wire. :(

Hélio disse...

Pois é, Fuzii, a trucagem da ricina deve ser um dos pontos mais questionáveis da série... por outro lado, se tornou algo tão importante que nao dava mesmo pra ignorar. E na impossibilidade de revelar sobre a morte de Jane, só poderia ser essa a ruptura entre os dois.

Na verdade, por conta dessa ruptura consigo até imaginar um confronto violento entre os dois onde no calor da discussão Walt joga na cara de Jesse todas as coisas que fez por ele, INCLUINDO se livrar da má influência de uma drogada.

Sobre a necessidade de Jesse fugir, nao acho tão repentina. Primeiro porque de fato é condizente, nao sobrou nada pra ele (e Aaron Paul é muito convincente, a sugestão de ir para o Alaska é de partir o coração). Depois, porque a fuga foi uma opção criada la atras no inicio da 4a temporada, pra Walt, que no momento mais crítico nao conseguiu usar o serviço porque nao tinha mais grana. Acho que estabele bem um "background" pro Jesse.

O interrogatorio de Hank tambem parece acertado. Ele tenta manipular Jesse, sim, com toda aquela suposição de que Walt fez mal para os dois na mesma proporção (tentativa de Hank conseguir criar alguma identificação). E pareceu que daria certo se Jesse nao o odiasse tanto. Talvez com outro policial...

Hélio disse...

Felipe, acredita que escrevi sobre a 2a temporada de The Wire e nao sei onde estão os arquivos?! Simplesmente sumiram! Um dia acho, certeza que nao foram deletados...

Como me comprometi a escrever depois de ver os episodios, falta eu me programar. Levei isso tao a sério que ate hoje nao comecei a ver a 3a temporada. 2014, quem sabe...

Valeu pelas visitas e volte sempre! :)

Fernando disse...

Olha, dos clichês escritos pelos resenheiros-fãs de BB, só faltou "exigir" que deem um Emmy a alguém. Não gosto do seu estilo. Essa coisa de "a melhor coisa que a TV nos deu" e o tom professoral em "serve de lição" e "aulas preciosas", na mesma frase, são de vomitar. Para terminar, você reproduz diálogos - no início, para dar um aspecto solene, e no fim, esperando que vire outro meme nesse microcosmo de espectadores da série - que só ajudam a compor toda a babação de ovo desnecessária.

Mas você é um bom observador. Excluindo as questões do parágrafo anterior, esta poderia ser uma boa review.

Hélio disse...

Obrigado pelas observações, Fernando! Acredito que os clichês não são prioridades dos "resenheiros-fãs de BB" e infelizmente estão presentes nas resenhas de quem é muito fã de qualquer série. Também me irritam, até tento melhorar no meu caso, quase nunca consigo.

Sobre o tom professoral, nada posso fazer: realmente acredito que a série serve de referencia pra muitos times de roteiristas que trabalharam com programas tão distintos quanto Lost, Dexter, Damages, The Killing, etc, etc, séries que tem problemas de desenvolvimento de narrativa e às vezes (em alguns casos, sempre) engessadas por uma fórmula-padrão típica do formato. Breaking Bad foge de muitas armadilhas desta fórmula, ao longo de suas cinco temporadas, e certamente já está entrando em aulas de roteiro pelas faculdades mundo afora - ou pelo menos gosto de imaginar que sim.

E do tal tom professoral ninguém está imune, como dá pra ver na forma com que você termina sua "mini-resenha" do meu texto. Além de perceber intenções que nao existem: o texto começa com diálogos do episódio como um padrão que eu usaria pra escrever sobre qualquer episódio de qualquer série (algo que é recorrente há anos em muita gente que escreve sobre tv; acho legal e decidi fazer o mesmo), enquanto no fim foi apenas uma coincidencia que tenha sido a reprodução de um diálogo, ja que a ideia ali é apenas citar cenas que gostei e decidi terminar com uma que é engraçada. Não ESPERO que vire nada, não tenho intenção de contribuir pra algazarras feitas por fã-clubes, até porque nem sou lido por tanta gente assim, aqui é um espaço pequeno e distante dos grandes portais e blogs de series, onde o tipo de babação a que voce se refere tem mais chances de acontecer.

Abços!