quarta-feira, 28 de setembro de 2011

[Breaking Bad] 4x10/4x11 - Salud/Crawl Space


"Hahahahaha... hahahahaha!!" - Walter "The Joker" White


Deixar para escrever um texto sobre dois episódios de Breaking Bad tem suas vantagens e desvantagens. O problema maior é dar conta de tudo o que acontece, todas as grandes cenas, atuações, diálogos e desdobramentos de uma série que parece não ter limites para sua criatividade. Por outro lado, o segundo episódio esclarece e nos surpreende com elementos que até tentamos, mas passamos longe de adivinhar.


O caso Beneke, por exemplo: em “Salud”, Skyler confirma nossas suspeitas de que ela dará a Ted o dinheiro que ele precisa, usando Saul inicialmente, mas logo tendo que revelar o que fez, quando ele compra uma Mercedes ao invés de pagar a Receita. Ted faz isso para manter as aparências e voltar aos negócios e o episódio gira em torno disso, com Jesse também simulando algo que ele não é para os químicos do Cartel (conquistando a admiração de Gus e Mike), e Walt preocupado com a imagem de frágil que o filho presenciou, quando na verdade este considera a persona Heisenberg que o pai encarna como irreal. E, claro, Gus mantendo as aparências para eliminar boa parte do Cartel na espetacular sequência que encerra o episódio.


Quando Skyler conta a Ted que o dinheiro é dela (um ato arrogante e impensado, mas quem pode condená-la depois de ouvir as justificativas descabidas de Ted?), já podemos imaginar que o personagem não vai durar muito, ou com Walt descobrindo o que houve e, quem sabe, finalmente usando a ricina, ou ainda a própria Skyler sujando as mãos. Até pude visualizar um final de temporada idêntico ao anterior, com Skyler e Ted no lugar de Jesse e Gale. Mas mesmo quando algo parece ser inevitável, a série dá um jeito de nos surpreender e o destino de Ted é selado logo depois em “Crawl Space”, numa cena recheada de humor negro que lembra os irmãos Coen, mestres em encenar o patético e o ridículo de situações como esta. Breaking Bad tem os pés fincados na realidade, mas o acaso, a sorte e o azar sempre rondam os personagens, pregando peças inesperadas – e Ted já havia sido alertado quando tropeça no tapete ao abrir a porta para Skyler.


O fascinante nesta trama envolvendo Beneke é que, enquanto pensávamos que seus problemas com a Receita levariam a uma investigação do lava-a-jato, na verdade as conseqüências são bem piores e mais imediatas: a perda desse dinheiro no exato momento em que Walt é demitido e ameaçado de morte acaba de vez com a oportunidade do protagonista em desaparecer com a família, sugestão que Saul deu no início da temporada e agora impossível por falta de recursos financeiros (o dinheiro dado a Ted mais a compra do lava-a-jato, pagamento de Saul, despesas médicas de Hank, os dois carros de Walt Jr., tudo isso deve ser equivalente aos 2 ou 3 meses que Walt trabalha para Gus).


É admirável esta espiral de acontecimentos, tudo culminando na desesperadora sequência final de “Crawl Space”, que talvez seja pra mim o maior momento de uma série com quatro temporadas de quantidade enorme de momentos inesquecíveis. Tudo nesta cena é perfeitamente orquestrado, editado e sonorizado causando o máximo de impacto. É uma série que evita usar trilha sonora em cenas dramáticas, mas aqui uma batida começa no momento em que Skyler chega em casa, e é cortada com o grito de Walt “WHERE IS THE MONEY?!”, voltando com mais intensidade quando ela revela o que fez. A risada maníaca de Walt começa no exato momento em que toca o telefone, com Skyler se afastando lentamente do quadro e o que já era desesperador chega a níveis insuportáveis com a quantidade de elementos em cena: a batida, a risada, a perplexidade de Skyler, o desespero de Marie. E, por fim, Walt enquadrado. Esgotado e paralisado, o rosto com as marcas da briga com Jesse e do acidente provocado para Hank não chegar ao laboratório, o corpo certamente machucado pelos choques que levou de Tyrus. E agora, o que fazer?


Este final de episódio é tão intenso, que poderia parar por aqui. Mas tentando comentar mais algumas coisas:


- Antes deste fim em que Bryan Cranston já confirma mais uma vez seu Emmy, o ator já havia dado seu enésimo show particular quando supostamente se despede em definitivo de Saul. Walt insiste para que Saul avise Hank, provavelmente porque mesmo desaparecendo a vergonha em ser descoberto seria demais. O que significa que é mais provável Heisenberg surgir de novo, do que pedir ajuda a Narcóticos para proteger sua família. O problema é: o que Gus fará/pensará quando souber que Hank e Marie estão protegidos pela polícia?


- Não costumo buscar muitas informações sobre os episódios e não li nada a respeito sobre como foi feita a cena em que Gus ameaça Walt no deserto, com a nuvem fazendo sombra enquanto eles conversam. Alguém sabe dizer se foi efeito digital? Ou esperaram o momento certo para filmar? Seja como for, um outro belo momento da série, que impressiona por não estar deslocada ou chamar a atenção para si, coerente com o drama em cena.


- Gus vinha tendo a simpatia dos fãs, conquistando e dando a Jesse o apoio que nunca teve com Walt, tendo seu passado revelado em “Hermanos” e eliminando Don Eladio de forma impecável (o melhor momento pra mim foi o modo metódico de Gus para vomitar o veneno que tinha ingerido), enquanto Walt vinha de atos cada vez mais desprezíveis. É incrível, portanto, como os papéis mudam completamente sem soar falso: agora torcemos por Walt, que comove pelo seu desespero, pelo arrependimento do que fez a Jesse diante de Walt Jr. (aliás, chamar o filho de Jesse certamente terá conseqüências futuras), e esperamos que ele dê um jeito em Gus, especialmente depois que este mostra o quanto é o “bad guy” desta história ameaçando a família de Walt (o jeito que ele diz “infant daughter” é assustador).


- Bom ver Jesse em situação totalmente oposta a do início da temporada: em paz com Andrea, admirado por Gus e Mike e, apesar de cortar relações com Walt, não deseja sua morte, a ponto de mais uma vez confrontar Gus, quando este sugere que ele assuma o laboratório. Se me dissessem ano passado que esta seria a situação do personagem no final desta temporada, diria que não há lógica nenhuma ou consistência nos personagens...


- Jesse consegue cozinhar a droga no México, mas chega a pouco mais que 96% de pureza, o mesmo que Gale. Walt chega a 99%. Achava que era o suficiente para manter os dois no laboratório por mais algum tempo, mas pelo visto Gus desistiu de ter a melhor droga, tamanha a imprevisibilidade dos atos de Walt.


- Fico pensando se não há algo mais por trás do fato de Gus querer que Hector olhe nos olhos dele. Já são dois episódios com esta tortura psicológica, e desta vez o Tio ainda descobre que Jesse teve parte na morte de sua família. Não duvido que isto ainda terá uma importância inesperada na trama. E Mark Margolis impressiona sem emitir uma única palavra. Que elenco admirável.


- Nas discussões sobre “Salud”, vi muita gente comentando que Mike ia matar Jesse antes de levar um tiro. Dava pra contestar esse absurdo com vários argumentos, mas acho que as bolsas de sangue do tipo de Jesse que estavam preparadas pra uma ocasional emergência devem ser o suficiente pra encerrar a discussão.


Faltam dois episódios para acabar a temporada e o spoiler que tenho é: alguns de nós morreremos no final. Ou pelo menos quase.




3 comentários:

Anônimo disse...

Genial, meu caro! Escreves muito bem.

Marcel Camp disse...

Muito boa a crítica, Hélio... aliás, esses dois episódios pra mim (10 e 11), definiram TODA a qualidade de Breaking Bad. E talvez, ainda tenha mais dessa qualidade vinda por aí!

Sobre os efeitos das nuvens, na cena do deserto entre Gus e Walt, me parece ter sido um trabalho de computador, pensando pelo lado da praticidade em dirigir aquela tomada.

Abrs,

e.fuzii disse...

É que viramos a década agora, mas Crawl Space certamente já fica guardado pra mim como um dos melhores episódios de '10. É o melhor de Breaking Bad, sem sombra de dúvidas, e nem posso imaginar que ainda consigam superar até o final da temporada (ou da série?). Mas esperamos que sim.

Acho que o mais impressionante é como as peças começam a se encaixar sem que nada pareça forçado. Revendo o episódio, dá pra perceber que não existe nada sobrando, ou que não seja determinante para aquele final de tirar o fôlego. A própria passagem do tempo forçada, provocada pelo acidente de Walt e Hank, permite que Jesse tome seu lugar no laboratório por esses dias e o problema com Beneke seja resolvida. E como sempre os roteiristas usam essas situações de humor negro ao seu favor.

É interessante quando você diz que a série volta seu foco para Walt, principalmente depois de um episódio como Salud. Porque no momento que Gus demite Walt daquela maneira assustadora (INFANT DAUGHTER!), achei que o episódio terminaria ali. Mas eles tinham uma reviravolta ainda maior reservada para Walt. Só que restava pouco tempo e eu ficava realmente torcendo pra que tivesse esse desfecho merecido, por maior que fosse a tensão. Perfeito ele terminando enterrado nas fundações de sua casa, com sua esposa a beira da "cova", pouco antes Jesse lembrando que era aquele o destino que Walt desejou pra ele quando negou ajuda. E mesmo quando assisti pela segunda vez, em razão de todos esses eventos sincronizados que você citou, a tensão foi a mesma. Incrível como a gente consegue se envolver com esses personagens, incrível.