quarta-feira, 13 de agosto de 2008

[Mad Men] 2x02 Flight 1

Costumo sempre dizer que considero Mad Men muito mais do que uma simples série de época. Chego a brincar que é até uma série da época, já que poderia facilmente servir de retrato da sociedade na televisão dos anos 60. O que para mim é o principal mérito de Mad Men é seu roteiro e personagens serem apenas conseqüências do que aconteceu naquela época. Era interessante, por exemplo, perceber como as pessoas lidavam com a eleição de Kennedy e Nixon -- com cada candidato simbolizando um ideal -- ou nesse episódio acompanhar a reação dos funcionários ao trágico acidente aéreo em Nova York, no dia 1o. de Maio de 1962 (que ocorreu juntamente com a parada para homenagear o astronauta americano John Glenn). Isso é algo que a História não conta, mas deveria. Ainda por manter a trama num ritmo cadenciado, somos praticamente cúmplices dos acontecimentos e nos aproximamos cada vez mais dessa época onde tantas mudanças de comportamento aconteceram.

Não quero parecer deselegante, mas Weiner fez um belo trabalho para incorporar na história a morte do ator Christopher Allport, que faleceu tragicamente no começo do ano após uma avalanche na Califórnia. Encarando a morte do pai no vôo da American Airlines, Pete teve outra vez um episódio centrado na turbulenta relação entre os dois. Como Alan Sepinwall publicou em sua resenha, Weiner revelou numa conferência suas inpirações para escrever o episódio:

"O segundo episódio para mim é sobre… como você deve reagir a qualquer coisa e como as pessoas esperam que você reaja, […] você deveria sentir algo, mas nem sempre está pronto para sentir, e isso leva tempo. Pelo menos para mim. Essa é a tensão que acontece para mim nesses casos, e é para Pete, para Don, para Duck, para Roger, também para Peggy. É assim que esse episódio reside emocionalmente para mim."

Isso é bastante flagrante na forma como Pete não consegue chorar, ou não encontra vontade nem de voltar para casa. É preciso Don convencê-lo a tomar essa decisão. Se as sessões de terapia com o doutor Paul (de In Treatment) me ensinaram alguma coisa, Pete sempre procurou uma figura paterna para amenizar seu conflito com o pai. Após sua morte, ele procura isso em Don Draper, mas devido aos problemas que lhe perseguem (obrigado a recusar a carteira da Monhawk para salvar a AA), Pete também acaba rejeitado. E é assim que Pete acaba mordendo a isca deixada por Duck Phillips. Confesso que não havia percebido a forma ardilosa de Duck ao oferecer o job da American Airlines para Pete. Foi só depois de ser apresentado como "o melhor" ao presidente da empresa que minha ficha caiu. Duck planejou tudo para alimentar esse desejo de vingança de Pete, coincidentemente através da publicidade, o principal ponto de discórdia entre ele e seu pai. Mais um excelente trabalho de roteiro por humanizar o personagem e guardar essa reviravolta para o final. Agora mais do que nunca, com Duck e Pete juntos, Don Draper terá sérios problemas para enfrentar na Sterling Cooper.

Como se não bastasse, a situação na casa dos Draper também não é das melhores. Por mais impagável que fosse ouvir Don concordar com Betty apenas para evitar uma briga, parece óbvio que o casal passa por um momento turbulento. Ainda mais pela discussão ter envolvido a felicidade do casal Francine e Carlton. A forma como as crianças são tratadas também parece chocante, sendo pela negligência de Betty ou por Don ensinar a filha a preparar drinks. Mesmo as queixas de Betty em relação à cópia do desenho feita pelo filho parecem ser direcionadas a Don, tentando encurralá-lo ao condenar suas mentiras. Algo que me deixa ainda mais interessado nesse começo de temporada é o fato de praticamente não sabermos nada desses quinze meses que passaram e tentarmos descobrir analisando os momentos mais sutis das personagens.

Por outro lado, grande parte da história de Peggy foi revelada nesse episódio. Como desconfiava, seu filho continua pelo menos em seu campo de visão, sob a guarda da irmã. Se existia uma crítica a ser feita na temporada passada era o absurdo de Peggy passar nove meses sem ter a menor noção de estar grávida. Esse tratamento psicológico que ela foi submetida foi uma explicação bastante convincente e ainda garantiu que o filho fosse criado pela irmã, talvez pelo Estado ter decidido isso. Mesmo que a mãe de Peggy parecesse condizente com essa situação, acho que a própria ida a Igreja mostra o quanto a família desaprova suas atitudes. Mas depois de um ano, os conflitos já estão mais dispersos. Peggy quer mesmo é aproveitar a vida, principalmente agora com sua posição na Sterling Cooper.
Só para completar, não acredito que Joan tenha sido exatamente racista ao confrontar Paul. Sim, não posso deixar de concordar que na festa e até na casa dos Draper com sua empregada, a maneira como os negros são tratados -- e até aceitam ser tratados -- demonstra que a sociedade é racista. Mas nesse caso específico, Joan parece mirar diretamente em Paul, como uma vingança por revelar sua vida pessoal. Se ela atingiu a garota foi apenas resultado, para condenar o namoro de Paul com uma negra só para parecer de vanguarda.



e.fuzii

3 comentários:

Hélio disse...

Fuzii, sumido!

To lendo seus posts nao. Empaquei no quinto ou sexto episodio da 1ª temporada. Saindo em dvd, eu tento de novo. Eu acho...

Mas valeu pelo link do Sepinwall. Gosto de algumas opinioes dele e tinha perdido o link e o nome do individuo.

Abraços!

Aécio Rocha disse...

Estou acompanhando Mad Men agora e tuas reviews estão sendo obrigatórias depois de cada episódio. É incrível a forma como tu consegue analisar coisas que passam quase despercebidas durante o episódio.

Muito bom encontrar um blog com reviews da segunda temporada de Mad Men, já que a maioria dos outros blogs só comentaram a terceira e quarta temporada.

Excelente review! Continuarei assistindo Mad Men e conferindo as tuas reviews.

dina rok disse...

Estou acompanhando a serie med men estou na 5° temporada estou me divertindo. Só tem uma coisa que não gostei na 5 temporada mudou as falas.