sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

[FNL] 5x13 Always

Chegou a hora de enfim dizer adeus. Mas por mais penosa que seja essa despedida, saber que ela conseguiu ser programada pelos próprios roteiristas e produtores chega a dar até certo alívio diante das tantas vezes que a série viveu na corda bamba ao final de suas temporadas. Renovação para uma temporada mais breve, acordo inédito com a DirecTV, extensão milagrosa para mais duas temporadas finais. A história de Friday Night Lights, não só dentro de campo como na própria série, é recheada de momentos de superação. Até por ter apresentado duas gerações diferentes de personagens, além de uma temporada extremamente irregular que continha tramas beirando o desespero, a série sempre conseguiu contornar seus problemas e trazer tudo de volta aos eixos. Talvez poucos saibam, ou se lembrem, mas minha primeira contribuição neste blog, e portanto quando comecei a escrever "seriamente" sobre televisão, foi na primeira temporada da série aproveitando a exibição do canal Sony. Alguns podem achar até um sentimento tolo de minha parte, mas sinto certo orgulho de ter acompanhado todo o caminho da série por aqui, oferecendo minhas análises, alguns comentários ou até prognósticos -- muitas vezes equivocados -- sobre o destino de seus personagens. Somente quem já tentou escrever por algum tempo sobre determinada série (principalmente uma de pouco apelo junto ao público) sabe o comprometimento necessário para isso. Peço perdão se de alguma forma possa estar parecendo auto-indulgente, mas somente queria com essa introdução tentar transmitir um pouco de minha admiração e gratidão pela série, o que provavelmente nunca fará com que essas luzes realmente se apaguem para mim. Até porque, um dos muitos motivos que me fazem escrever sobre televisão é essa incerteza de suas histórias, de não apenas viver o presente momento de seus personagens, mas também ansiar pelo seu futuro. Neste caso, o mérito de um bom Series Finale a meu ver envolve justamente utilizar essa questão a seu favor, não oferecendo uma conclusão definitiva, mas deixando que o público preencha com suas próprias aspirações os próximos passos de cada um desses personagens que nos cativaram por tanto tempo. Afinal, a fidelidade do público na televisão gera um vínculo natural que pode até se transformar em torcida, algo que Friday Night Lights, mesmo por incluir isso de forma até literal nas próprias tramas de futebol, sempre soube explorar muito bem.

Talvez tenha precisado começar esse texto também dessa forma porque o apelo nostálgico desse episódio foi muito forte para mim. Acho importante começar relacionando com o outro provável final da série em "Tomorrow Blues", quando fui obrigado a ensaiar uma despedida diante de seu futuro incerto. Naquela ocasião, o casal Taylor terminava dividindo um tom quase melancólico após o técnico ser demitido de seu cargo nos Panthers e ter de recomeçar do zero no lado leste da cidade. Se não houvesse a renovação para essas duas últimas temporadas, teríamos perdido toda essa campanha emocionante do East Dillon Lions, em que aquele grupo de novatos tidos como azarões tornaram-se os melhores do Texas. E Coach Taylor não teria a oportunidade de dizer que esta façanha foi sua melhor experiência na carreira. Agora o que vemos é o casal Taylor saindo mais uma vez unidos, mas não sem antes ter superado o momento mais crítico de seu relacionamento, com Coach Taylor enfim recuando e percebendo que chegava a hora de finalmente apoiar a carreira de sua mulher.
Há dois anos atrás, a conclusão que mais me desagradou foi a de Matt Saracen permanecendo em Dillon para cuidar de sua avó. Basicamente era um jeito fácil demais de emocionar o público, já que Lorraine era a única a nunca ter abandonado seu neto. Mas Matt merecia mais do que isso e depois de perder seu pai num dos episódios mais intensos da série, ele finalmente resolveu partir para Chicago em busca de seu futuro. Nas idas e vindas de seu relacionamento com Julie, ele procurava pelo seu próprio caminho enquanto ela continuava perdida na maior parte do tempo. Até que no final, num inesperado pedido de casamento -- típico de Saracen no estacionamento do Alamo Freeze --, eles decidem selar seu futuro para sempre. Porém, o mais impressionante é como Jason Katims conseguiu amarrar esse pedido prematuro de casamento com a crise que Eric e Tami Taylor atravessavam, reunindo ambos na mesma mesa de jantar. Aliás, depois de Gilmore Girls, nenhuma outra série conseguiu dar tanto valor assim às discussões em jantares de família. A medida que o casal orientava os jovens sobre o que estava envolvido num comprometimento desses, eles percebiam a gravidade de sua própria situação, de que se não conseguissem superar isso, todo o discurso não passaria de hipocrisia. Assim, Eric Taylor decide se manter ao lado da mulher, deixar para trás seu rótulo de Kingmaker, estabelecendo definitivamente que em Friday Night Lights o esporte fica sempre em segundo plano, ao menos quando comparado aos relacionamentos humanos. E embora ainda ficasse ambíguo o futuro de Matt e Julie (não havia sequer necessidade de procurar por um anel de noivado na cena final), a única certeza é que eles fariam esse relacionamento funcionar, seja morando no mesmo apartamento ou a quilômetros de distância. Além disso, essa dinâmica envolvendo o casal Taylor e os dois jovens representa um dos principais legados deixados pela série, tratando os adolescentes de igual para igual, sem marginalizá-los, sendo assim tão capazes de aprender quanto de ensinar lições aos adultos.
Nessas últimas temporadas também é importante notar a trajetória dos irmãos Riggins, que finalmente conseguiram se reconciliar nesse desfecho. Provavelmente seja a digressão na história que menos gostei, com a série novamente flertando com a criminalidade através dessa trama do desmanche de carros. Até porque não existia alguém que representasse melhor o orgulho de viver livre no Texas do que Tim Riggins. Assim, pouco adicionou seu sacrifício pela integridade da família do irmão, além de uma alta dose de melodrama, e nem mesmo esse repentino arrependimento nos últimos episódios. Mas seu passeio com Stevie pela cidade foi divertido de acompanhar por trazer de volta toda sua graça e seu sarcasmo, lembrando alguns breves momentos com Bo no passado. Certamente a maior contribuição da família Riggins para essas duas temporadas foi servir de apoio à nova geração que vinha surgindo, seja através de delicados paralelos ou como ligação aos próprios personagens. Não seria possível imaginar que uma das despedidas mais comoventes envolveria Becky e Mindy, sendo que elas ainda continuariam morando na mesma cidade. Ou que seria significativa a partida de Luke, provavelmente ainda indeciso sobre seu futuro mas disposto a servir seu país, depois de um relacionamento tão turbulento ao lado de Becky e em meio a tantas outras tramas mais importantes. Mas assim como no último encontro entre Tim e Tyra, é mais uma chance de ponderar sobre o futuro desses personagens e concluir que mesmo trilhando caminhos diferentes a partir de agora, eles podem voltar a se cruzar novamente um dia. "Texas Forever" não é apenas um estado de espírito capaz de mover e unir todas essas pessoas e cada um de nós, mas a certeza de ter sempre um porto seguro para voltar quando fosse preciso.
A partida final do State, e nossa última chance de torcer por esses jogadores, foi apresentada através de uma exuberante montagem ao som de Explosions in the Sky, sem a presença de qualquer narração ou mesmo de nenhum som ambiente. Além de conferir uma carga emocional ainda maior ao valorizar cada expressão no rosto de seus atletas e da própria torcida, o resultado da partida acabou mantido em suspense até seus últimos minutos quando a equipe mais uma vez perdia por não conseguir administrar direito o cronômetro. Assim, num último lançamento de Vince Howard o triunfo do East Dillon Lions seria decidido, mas como bem sabemos pelas campanhas anteriores dos Panthers, esses jogadores merecem ser tratados como heróis independente do resultado dentro de campo. Por isso, enquanto todos prendiam a respiração acompanhando a trajetória da bola pelo ar, somos logo levados meses a frente no primeiro treinamento de Coach Taylor na Philadelphia. A vida precisa continuar. "Clear Eyes. Full Hearts. Can't Lose." é um lema que extrapola os próprios limites do campo, que não se apega à vitória em si, mas em todo caminho capaz de finalmente alcançá-la. Mesmo com a vitória no State, e sendo agora a estrela do super-time de Dillon, Vince é o que mais teria a lamentar, por perder sua namorada, seu mentor e provavelmente ainda se preocupar com a conduta do pai. Porém, basta lembrar de sua jornada nesses dois últimos anos para perceber que Vince tem confiança suficiente para superar qualquer obstáculo que aparecesse em sua frente. E por falar em Jess, mesmo com sua participação reduzida nessa reta final, nenhum outro personagem conseguiu simbolizar melhor esse orgulho de ter participado da campanha do East Dillon Lions. Até por nunca ser valorizada o suficiente pelo restante da equipe, enfrentar preconceitos por todos os lados, mas estar sempre disposta a ajudar como fosse preciso. Suas poucas cenas ao lado de Vince, Luke e até Coach Taylor conferiam o afeto que essa equipe precisava para ser mais humana. Por fim, ela se muda para Dallas mas continua atrás de seu sonho de se tornar técnica de futebol com a ajuda de alguns contatos de Coach Taylor, provando que ele não deixa ninguém desamparado pelo caminho.

Pode até ser um final previsível acompanhar Coach Taylor e Tami caminhando como se fosse a última vez em um campo de futebol enquanto as luzes se apagam. Mas assim como a bola girando no ar com destino incerto, a série sempre conseguiu driblar qualquer clichê com absoluta competência. Talvez seja esse o principal legado deixado adiante, um caráter eterno de ainda se emocionar diante daquilo que já se viu, de constatar que as derrotas podem não ser tão amargas, que o previsível pode não ser tão constrangedor. Não sei, demorei quase uma semana para lapidar esse texto e ainda não estou contente com o resultado. Talvez a série mereça um novo texto quando estiver realmente me fazendo falta. Mas a única certeza é que esse não será apenas um final, e sim um convite para relembrar e quem sabe rever toda essa trajetória que tanto nos emocionou. Obrigados a todos pela atenção nessa e em todas as outras oportunidades. Texas Forever!

Fotos: Divulgação.

e.fuzii
twitter.com/efuzii

Um comentário:

Davi Cruz disse...

Ótimo texto Eric... eu realmente não conseguiria escrever nada sobre esse final. Ainda tenho que digerir e voltar a assistir daqui a algum tempo - pois hoje, ainda acho que tudo foi perfeito.

Apesar de ter começado o meu (hoje finado) blog por conta de LOST, FNL acabou sendo a série mais comentada - e que me deu mais satisfação.

abraço