domingo, 10 de fevereiro de 2008

[Filme] Medo da Verdade (Gone Baby Gone)

Olá, pessoal. Há muito tempo que não escrevo para o blog, inclusive fiquei devendo comentários dos dois últimos episódios de Heroes. Como isso faz parte de um passado distante, vou pedir desculpas e seguir adiante. Prometo que quando a série retornar, vou manter a periodicidade. O tempo está curto para escrever sobre minhas paixões, mas deixa eu postar aqui meus comentários sobre o filme do Ben Affleck, "Gone Baby Gone", que em breve estreará nos cinemas (com bastante atraso, aliás).


Esse texto foi escrito para meu novo blog, uma tentativa de registrar meus pensamentos sobre alguns filmes e séries que ando vendo. Infelizmente, escrevo menos do que gostaria (praticamente nada ainda), mas um dia chego lá. Aliás, se tiverem um tempinho e quiserem dar um feedback, o link é este.


Vou tentar postar aqui e lá e, quem sabe, render discussões interessantes. Segue o texto, editado apenas para inserir fotos:





“Medo da Verdade” é a adaptação para o cinema do livro “Gone Baby Gone”, do escritor Dennis Lehane, considerado um dos grandes autores de romances policiais da atualidade. Lehane já foi adaptado antes, com o seu “Sobre Meninos e Lobos”, por Clint Eastwood e resultou num filmaço. Como fã dos livros do cara, lamentei quando soube desta nova adaptação por dois motivos:


“Gone Baby Gone” é o quarto romance de uma série de cinco aventuras dos detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro, principais personagens criados por Lehane, e que são envolvidos nestes livros em tramas densas, onde a violência e a sordidez estão sempre presentes e que afetam fisica e psicologicamente a vida dos dois. São histórias que podem ser lidas e entendidas individualmente, mas em ordem cronológica são bem mais interessantes, pois o leitor compreende melhor o comportamento dos personagens (protagonistas e secundários) e o fardo que carregam. São cinco livros que dariam grandes filmes policias. Com o lançamento do quarto livro nos cinemas, infelizmente torna-se bem improvável que os outros sejam adaptados, ao menos da forma como deveriam, ou seja, com uma continuidade entre as obras, mesmo elenco, etc.


O segundo motivo de lamentação era saber que “Gone Baby Gone” estava sendo adaptado por Ben Affleck, um desses galãs canastrões que surgem de vez em quando, que nunca fez nada de muito expressivo como ator (embora goste dele nos filmes do Kevin Smith, “Procura-se Amy” e “Dogma” – dizem que ele está ótimo em “Hollywoodland”) e, apesar de já ter levado um Oscar de roteirista por “Gênio Indomável”, nada fazia crer que tinha talento por trás das câmeras. Estrear justamente na adaptação de um livro que gostei tanto me causava tristeza imensa.


Quanto ao primeiro motivo, realmente estava certo. Com a escolha de Casey Affleck para o papel de Patrick Kenzie, o personagem do filme lembra muito pouco o protagonista dos livros, que não só é mais velho, mas também já traz em si as marcas dos traumas sofridos com as três grandes investigações anteriores, narradas em “Um Drink Antes da Guerra”, “Apelo às Trevas” e “Sagrado” (a última aventura é narrada em “Dança da Chuva”). Só este detalhe já acaba com qualquer possibilidade de se criar uma saga cinematográfica da dupla Kenzie-Gennaro, a não ser que refilmem “Gone Baby Gone”, algo muito improvável.



Affleck e Monaghan: novos demais para os papéis.

Para os fãs da obra de Lehane, há outras alterações imperdoáveis, como a pouca atenção dada a Angie Gennaro, que virou figurante de luxo no filme; e a caracterização de Bubba, bem distante do que conhecemos no livro. Um dos personagens mais queridos, Bubba é o amigo psicopata de Patrick e Angie, grandalhão e ameaçador, que só tem carinho pela dupla de investigadores e mais ninguém. No filme, Bubba não só aparece pouco (algo até aceitável para essa adaptação), mas é encarnado por um ator gordo, com cara de moleque e nada assustador. São detalhes que deixam os fãs indignados (eu, pelo menos), mas que pouco importam para a análise da obra em si, que é o que deve ser feito por um cinéfilo.


Então vamos ao outro motivo de receio por essa obra. Primeiro, é bom dar uma sinopse do filme: é a história do desaparecimento de uma menina de quatro anos, que causa comoção nacional, por não haver a mínima pista do que realmente aconteceu. Dias já se passaram e mesmo com toda a polícia local investigando, os detetives particulares Patrick Kenzie e Angela Gennaro são contratados por parentes da criança, na esperança que eles descubram algo, já que são moradores da vizinhança e teriam maior facilidade em fazer contato com pessoas que poderiam estar envolvidas no caso (a mãe da menina é usuária de drogas e anda com gente barra pesada). É na investigação, junto a uma dupla de policiais, que o casal descobrirá que o caso é bem mais complexo e perigoso do que se esperava.


Contra todas as expectativas, o trabalho de Ben Affleck foi bem recebido pela crítica. Affleck, inclusive, apareceu na lista feita pelo The New York Times dos 10 novos cineastas a se observar (o brasileiro Bruno Padilha foi outro a estar na lista). Na verdade, minha impressão é que o filme foi elogiado mais por ter um roteiro de interesse, boas interpretações (Casey Affleck, irmão mais novo de Ben, está bem e Amy Ryan, como a mãe da criança desaparecida ganhou quase todos os prêmios da crítica) e uma direção contida de Affleck. O ator filma bonitinho, certinho e só. O roteiro acerta nas coisas que deixa de lado no livro, acrescenta uma narração em off no início bastante apropriada, além de uma conversa do protagonista com o personagem de Morgan Freeman já próximo do fim do filme que bem poderia ter estragado tudo, mas que no final das contas deu certo.


Amy Ryan, favorita ao Oscar de Atriz Coadjuvante.

Para mim, o problema da direção de Affleck é não saber dar conta de toda tensão criada por alguns dos momentos-chave do filme: as seqüências em que os personagens encontram um corpo em decomposição; o suposto resgate com a troca pelo dinheiro; a invasão à casa de um casal de drogados; e o assalto no restaurante. Embora o diretor não tenha abusado de cortes rápidos (uma praga que assola boa parte dos filmes atuais), ficou a impressão de uma correria para que coubesse tudo em 120 minutos de filme. Um corte ridículo, quando Angie está no topo do precipício olhando para o lago e imediatamente ela já está mais afastada pegando impulso para pular, é um bom exemplo da falta de experiência de Affleck, que deveria ter investido mais tempo nestas seqüências para efeitos mais dramáticos.


Este ato de Angie acaba se tornando um tanto apressado e patético e não tem a força que o livro expressa tão bem. Isso porque, além de tudo, a personagem é deixada de lado e suas preocupações e sentimentos são expressos apenas em diálogos breves, como seu medo de aceitar o caso por não querer saber o que realmente aconteceu com a menina (o tal “medo da verdade” do título nacional). Um acontecimento importante, deixado de fora do filme, é a sua reação depois da visita do casal a um bar barra pesada, em busca de informações, e um dos homens ameaça estuprá-la (no livro, ela chora e demonstra horror pela violência arbitrária e sem sentido que tem presenciado). Não só situa melhor o papel da personagem, em especial no final do filme, como também ressoa o principal tema da obra.


Essa falta de ressonância dos personagens, e também da encenação de muitas das seqüências acaba por diminuir o filme como um todo, que só resulta em discussão interessante por conta do que já estava lá no livro de Lehane: o belo final, com decisões éticas e morais difíceis por parte do protagonista e que realmente emociona. Mas como cinema, não vemos muito disso nas imagens, nos enquadramentos, no aprofundamento de personagens. É só comparar o filme de Affleck com o de Eastwood. As histórias de Lehane trazem personagens ambíguos, com marcas de um passado doloroso, a violência que contamina e perpassa pela sociedade e a perda da inocência (pedofilia é algo caro ao autor). O clima sombrio de “Sobre Meninos e Lobos”, o filme, é expressão perfeita do que o escritor quis com seu livro (e tema de interesse do cineasta Eastwood). Eu não vejo em “Medo da Verdade” nada em suas imagens que causem forte impressão, coisa que deveria pelo material que o diretor tinha em mãos. A fotografia e a trilha sonora são vitais nesse sentido, mas o que o diretor fornece é apenas aquela coisa certinha, competente tecnicamente, mas artisticamente falha miseravelmente.


Estréia de Ben Affleck na direção: competente, mas sem brilho.

O trabalho de Affleck é louvável. Só acho que não deveria ter começado com obra tão densa. Ainda mais com um livro que é o quarto de uma série de cinco ótimos livros policiais. Por que não começou pelo primeiro, hein?






Hélio.

2 comentários:

e.fuzii disse...

Bem interessante seu texto, Hélio.
Você tem mais propriedade que ninguém para apontar os erros e acertos por ter lido a obra original.
Engraçado você ter dito que a narração em off do começo ter sido adicionada ao filme, já que acho uma das partes mais risíveis, principalmente o "this city can be haaaaard". :)
Tirando alguns dos seus diálogos "estranhos" (que também não sei se são adaptados ou não) e personagens sem muita profundidade, é um filme convencional muito bom. E tem mesmo uma boa discussão moral em seu final.

Ah, Amy Ryan também é minha favorita ao Oscar!

Hélio disse...

Fuzii, acho que a narração em off no inicio funciona como ferramenta de contextualização (de tematica, de ambiente). No livro, a coisa começa a toda, talvez pq o autor acredite que os leitores ja conhecem aquele bairro e os protagonistas.

Quanto aos dialogos, eu sempre acho dificil ver um filme adaptado de um livro que ja li, principalmente tao recentemente. As coisas se confundem, sempre parece faltar alguma coisa que a gente acha que nao deveria faltar, e se houver buracos no roteiro, é possivel nem notar pq a trama ja está toda formada na cabeça.

Talvez tenha falha aí no filme. Ate pq eu nao senti todo esse estranhamento q senti no filme do Affleck, vendo o filme do Eastwood, por exemplo (e olha que assisti esse dias depois de ter lido o livro).

Quanto a Amy Ryan, nao sou tao fã. Especialmente quando tem Cate Blanchett incorporando Bob Dylan.