segunda-feira, 31 de maio de 2010

[Breaking Bad] 3x10 - Fly

Prometi escrever sobre a terceira temporada antes de começar a acompanhar estes últimos episódios. Mas percebi que a tarefa é ingrata, com tanta coisa pra falar. Até escrevi algumas coisas, mas é realmente difícil dar conta de tantos aspectos que acho incríveis e que poderia usar palavras e mais palavras para discutí-los. Sem saber se este texto ainda sai (sem mais promessas), tá aqui o comentário do polêmico episódio da semana passada:





Não é a toa que "Fly" vem dividindo os fãs de Breaking Bad entre aqueles que acham o episódio excelente (um dos melhores da série, dizem alguns) e os que acham ruim ("o pior da série", já li por aí). Estou no grupo dos que gostaram muito e diria até que é uma pequena obra-prima que sempre será lembrada entre os grandes momentos da série, quando esta acabar (assim como o 3x11 de Sopranos, "Pine Barrens", que alguns já associaram ao "Fly"). Mas entendo a frustração de muita gente que, depois de bombardeada por enorme tensão, conflitos e reviravoltas, dá de cara com um episódio onde há apenas Walt e Jesse caçando uma mosca que teria "contaminado" o laboratório. Ainda mais quando estamos a apenas quatro episódios do fim da temporada.


Mas que fique claro: nem de longe "Fly" pode ser visto como um episódio filler, para preencher espaço e completar os obrigatórios 13 episódios de uma temporada completa. Claro, as coisas até aqui aconteceram de forma tão vertiginosa, que tudo que pensávamos ser o eixo deste terceiro ano praticamente está resolvido. Os primos de Tuco estão mortos, Hank não será uma ameaça para os protagonistas por um bom tempo e Gus eliminou a concorrência, além de estar aparentemente em paz e com um possível contrato anual com Walt. O que poderia ocorrer agora?



No episódio anterior, "Kafkaesque", alguns elementos foram introduzidos e que certamente serão potencializados em breve. Enquanto Jesse se arrisca com um negócio próprio ao roubar as sobras do que andam produzindo, o dinheiro de Walt é revelado a Marie, que pode ter acreditado na história de Skyler, mas talvez desperte suspeitas em Hank, que já tem uma série de eventos para conectar a Walt. Mas são elementos que ainda precisam de um desenvolvimento maior.


O que nos leva ao perfeito momento para a inserção desta trama envolvendo uma mosca, pretexto para um retorno à velha dinâmica entre Walt e Jesse, que tiveram pouco tempo juntos nesta temporada (com o melhor momento nostálgico em "Sunset", no adeus ao trailer). A relação desses dois sempre foi um dos grandes pontos altos de Breaking Bad e não tínhamos um episódio que se beneficiava disto desde, provavelmente, o 2x9 "4 Days Out". O que temos, então, é a oportunidade de ver como os últimos eventos afetaram os personagens, em especial Walt, que tem uma carga enorme nas costas, suportada por incrível negação de todo o mal que ele já causou. Reparem como toda sua discussão sobre caos e ordenação está voltada ao fato de não conseguir usar as palavras certas para ficar bem com Skyler, e o incidente com o pai de Jane surgindo por acaso na sua memória.



Como consequência, tivemos aquele brilhante momento em que Walt, sob efeito de tranquilizantes, segura uma cambaleante escada, Jesse no topo, e uma conversa que parece levar à revelação sobre a morte de Jane. A construção desta sequência é incrível e a tensão chega ao nível do melhor que a série já nos trouxe recentemente. Mérito de Bryan Cranston, do texto de Vince Gilligan e da direção de Rian Johnson, cineasta que brinca com a câmera como quem quer aparecer, mas que na maior parte do tempo explora o espaço do laboratório com talento, dando o tom acertado de paranóia e suspense (e com uns planos fechados realmente bizarros). Sobre esta revelação, a propósito, acho perfeitamente possível que nunca venha à tona, algo que Sopranos fazia muito bem, em nem sempre corresponder nossas expectativas, optando pela coerência dos personagens e fazendo alusão à vida real. Afinal, todo mundo morre com segredos nunca compartilhados.



Prefiro não discutir a metáfora da mosca. Significa a droga que entrou na vida de Walt? Os perigos que ainda estão por vir (mosca no sinal vermelho do alarme)? Simboliza o Jesse que contaminou a vida de Walt (notem a máscara na cabeça de Jesse como o deixa parecendo uma mosca gigante)? Ou vice versa? Até gosto de pensar como metáfora para a relação dos dois, uma contaminação não no sentido negativo, mas de afetação que muda, para o bem ou para o mal, a vida desses dois, e que não tem mais retorno. Mas a mim não importa muito. Prefiro me ater ao fato de que, num nível superficial, a obsessão de Walt por uma mosca faz todo sentido, desde que o vimos se incomodar com algo boiando na piscina do prédio onde ele morou no início da temporada, com os canos de sua casa, com o pé da mesa que balança no hospital. Resulta em algo estranho e engraçado (sua mania de consertar as coisas estaria relacionada ao que ele não pode consertar?) que, aos poucos, se torna dramático a partir do diálogo que tem com Jesse por conta deste confinamento. E mais uma vez Aaron Paul brilha numa sequência de monólogo (em que a câmera se limita a focar e se aproximar do ator), com a história sobre o gambá e o câncer de sua tia, mais uma triste obsessão com animais que dão sentido a uma existência.



Todo o texto e o trabalho dos atores é extraordinário, e ainda há espaço para o desenvolvimento do que foi introduzido anteriormente, já que de forma muito elegante o episódio começa e termina (não falo dos planos iniciais) com Walt notando que há algo errado na produção da droga e, ao final, alertando Jesse sobre não ter como defendê-lo de Gus caso esteja fazendo algo errado. Algo que deve movimentar a trama nesta reta final de temporada. Ou não, já que ser imprevisível é característica única de Breaking Bad.




Hélio Flores

twitter.com/helioflores

4 comentários:

Marcel Camp disse...

Muito bom esse texto sobre aquele episódio ÚNICO em Breaking Bad.

Também tenho um blog e fiz um artigo sobre volta da quarta temporada e sobre como é a serie: http://vemaquinomeublog.blogspot.com/2011/06/series-breaking-bad-sensacional.html

Cheguei a esse texto pelo link que vc deixou lá na comunidade do seriado!

Abraços

Israel França disse...

Melhor série de drama que já assisti. Sei que estou atrasado, mas só agora pude ver o episódio 'Fly', e claro, verei a série até o fim. Eu também acredito que seja um episódio importante e cheio de significado, que não deve ser julgado ou mal interpretado.

Luiz Fernando Oliveira disse...

Acabei de assistir esse episódio e nem tinha visto nenhum comentário sobre ele, antes de assisti-lo, o interessante é que ele me marcou de forma inconsciente eu senti a necessidade de saber se alguém notou algo especial nele, e pelas criticas que li algumas pessoas foram atingidas por este episódio. Foi incrível, eu fiquei imerso e perdi a noção do tempo quando assisti.
Vi um comentário interessante dizendo a respeito dos que não gostaram, dizia o seguinte: "que se incomodam com tudo que foge do cânone do entretenimento e adentra algum espaço relacionado com a reflxão filosófica ou simplesmente com a arte de pensar por conta própria. É incrível a quantidade de pessoas incapazes de ver que em “A mosca” os roteiristas, cansados do modelo narrativo de tantas semanas de narração padrão, se libertaram das pressões comerciais e, em um voo artístico magistral"

Elizabeth disse...

Puxa, esse ep é um dos meus prediletos na série e muito parecido, na dinâmica de conflito e cooperação de walt e Jesse, com "4 days out", que eu tb adoro. Só o trabalho fodástico do Bryan e do Aaron, atuando como numa peça de teatro, já valem muuuuito esse ep animal. Mas é compreensível que muita gente não goste, achando-o péssimo mesmo, afinal BrBa é tão tensa que uma calmaria (ainda que muito tensa tb)não seja apreciada. O ep é maravilhoso.