terça-feira, 21 de setembro de 2010

[House] Por que "House" ficou ruim?

(Texto contêm SPOILERS de todas as seis temporadas da série)





Ano passado me comprometi a escrever sobre a 6ª temporada de “House” e falhei miseravelmente, comentando apenas os três primeiros episódios. Os motivos foram vários, mas um deles sem dúvida foi a total falta de estímulo com uma série cada vez menos interessante. Foi uma temporada fraca, de poucos momentos memoráveis, que curiosamente teve um episódio final muito bom, embora com uma conclusão nada promissora.

Não acredito que “House” volte aos bons tempos de suas primeiras temporadas. Tentarei resumir aqui o percurso que a série fez e quais motivos vejo como responsáveis pela baixa qualidade atual. Por isso, também não tentarei escrever sobre a nova temporada que começa esta semana. Não faz sentido, para mim, reclamar das mesmas coisas a cada novo episódio, ou citar as boas piadas, descrever o caso da semana e rir do último comportamento inusitado de House. Vários blogs farão isso melhor que eu. Mas escreverei sobre esta sétima temporada quando achar que devo.

Segue o (um pouco extenso) resumo crítico da série:


Autores de séries de TV sempre passam por conflitos que ultrapassam as histórias que criam: a recepção da audiência pode alterar em muito os planos originais. Se a série faz sucesso, pode se estender e resultar em tramas que não estavam previstas para acontecer (Prison Break); pode ultrapassar o material que lhe deu origem e seguir com suas próprias pernas (Dexter); os fãs podem até mesmo serem responsáveis por todo o fio condutor de um ano inteiro (a 3ª temporada de Nip/Tuck). E ainda tem os problemas diversos que podem surgir com o passar dos anos, que podem mudar as tramas de forma irreversível, como brigas e confusões no elenco (Lost, Grey’s Anatomy) ou mesmo a morte inesperada de um ator (The Sopranos).

Os autores de House passam pelo conflito mais interessante. Não só porque este conflito se renova a cada nova temporada, mas porque diz respeito à própria natureza da série, estrutura e protagonista: a necessidade de mudança e evolução naquilo que fez sucesso exatamente por não mudar e não evoluir.

É incrível o sucesso das primeiras temporadas de "House." Numa época em que as mais aclamadas e prestigiadas séries de TV exigem cada vez mais atenção e dedicação do telespectador, "House" adota uma estrutura clássica que permite que qualquer pessoa veja seus episódios sem necessidade de um acompanhamento rigoroso. Você pode ver um episódio qualquer da primeira temporada e depois ver outro do ano seguinte que não se perderá.

A estrutura quase sempre é a mesma: alguém manifesta um terrível sintoma na abertura do episódio (e com o tempo os roteiristas começarão a brincar com nossa expectativa sobre quem será o acometido da vez), o Dr. House e sua equipe tiram algumas conclusões precipitadas, tratamento é realizado, há uma piora considerável, diagnósticos são discutidos, paciente apresenta sintomas cada vez mais inusitados, novos diagnósticos, e acaba com House descobrindo a solução do problema, normalmente com uma epifania que surge de algum diálogo prosaico com um dos personagens. Os episódios funcionam como elegantes quebra-cabeças, como uma boa história de detetive, onde House usa a lógica de um Sherlock Holmes (são vários os aspectos na série que fazem alusão ao personagem de Conan Doyle) e nos entretêm com o processo investigativo.

Junta-se a isto a própria personalidade do protagonista, razão maior do sucesso da série. Grosso, mal educado, sarcástico e extremamente desagradável, Gregory House se tornou um dos maiores ícones culturais deste século. O personagem fascina tanto porque o incômodo que ele causa é na ordem moral das coisas. Ele não se importa para ideias pré-concebidas sobre o que é o Bem. Tão pouco pode ser visto como uma pessoa má. Se a moral dita em quê devemos acreditar, pensar e fazer, House não está inscrita nela, pois pensa e age de acordo com o que considera certo para aquela situação específica. Não há o Bem e o Mal em si. Com isto, implica que House acaba por não respeitar as normas de boa convivência e, livre das amarras que todos, um dia ou outro, já desejaram se libertar, cria esta enorme admiração que o mundo todo tem pelo personagem (pesquisa em 2008 apontou a série como a mais vista do planeta).

E então, por praticamente três temporadas a série funciona maravilhosamente bem se sustentando na força do seu personagem (sempre impressiona o brilhantismo dos diálogos, aliando humor e discussões filosóficas; e a atuação/presença de Hugh Laurie) e na estrutura dos roteiros que, para compensar o engessamento, nos traziam casos médicos incríveis.

Infelizmente, isso parece não ser suficiente para os autores (e espectadores?) que, aos poucos, começam a “movimentar” tramas e personagens, provavelmente pensando no bem e na verossimilhança de uma lógica narrativa e psicológica que pede por evolução constante. Esta lógica, que não deveria fazer parte da série, exige, por exemplo, que Dr. House não pode fazer tudo o que faz sem alguém que questione seus atos. E já na primeira temporada temos um novo diretor na Clínica que dificultará seu trabalho. No terceiro ano, teremos um policial que fará a vida do protagonista um inferno. Não por acaso, os episódios que envolvem estas tramas são os mais fracos até este ponto.

Mas o grande tiro no pé vem ao final da terceira temporada: na lógica “psicológica”, não parece mais ser aceitável que a equipe de House permaneça daquela forma, e então Foreman pede demissão, Chase é demitido e Cameron toma as dores de todo mundo e pede as contas. House começa o ano seguinte sozinho e a ideia aí (boa, aliás) é que mesmo ele precisa de um outro para fazer o que faz melhor. Na premiere da quarta temporada, House até pede a um faxineiro da Clínica, para especular possíveis diagnósticos para a paciente da semana.

O que temos em seguida é a escolha da nova equipe, com episódios bem divertidos, principalmente pela possibilidade de House conhecer, e provocar ao máximo, médicos com as mais diversas personalidades. E ainda demitindo-os, um a um. O mais interessante talvez seja a eliminação do melhor deles, um senhor que descobrimos depois que sequer tem licença médica. Claro que isso não seria um motivo pra House, e a justificativa é que eles pensam de uma forma muito parecida. É algo que está bastante presente na série: precisamos de um outro, sim, mas para que nos complete pela diferença e não pela semelhança.

Embora seja prazeroso acompanhar este arco da série, traz conseqüências desastrosas que duram até hoje: a contratação de Thirteen, Taub e Kutner só fez descentralizar e tirar de foco ainda mais o que sempre interessou na série, ou seja, House e as investigações médicas. Isso porque os novos médicos tornaram-se substitutos dos anteriores apenas na equipe de diagnóstico, com os autores da série incapazes de se livrarem de Foreman, Chase e Cameron. O resultado disto é que, a partir daí, os roteiristas passam a lidar com um grupo maior de personagens, arranjando dramas pessoais para cada um deles. E tome-lhe doença degenerativa para Thirteen, casamento problemático para Taub, romance entre Foreman e Thirteen, etc. E com isso, cada vez mais freqüente o péssimo recurso de fazer um paralelo entre o paciente da semana com os dramas vividos por um dos personagens. A série que fazia sucesso com uma fórmula simples começa a dar espaço para elementos que pouco importam.

Enquanto a estrutura vai sendo corrompida, o protagonista vive seu próprio dilema existencial. Porque se House é o desordeiro, que causa mal estar, ele precisa ser domesticado, se adequar à norma. O grande desafio dos autores da série está em colocarem seu protagonista em verdadeiras provas de fogo, mas fazê-lo passar ileso, sem mudanças. House não pode mudar, porque se deixar de ser House, qual seria o sentido da série?

No entanto, na lógica que impera, tramas e personagens precisam se desenvolver, evoluir. E é neste paradoxo que a série se enfiou, com situações que mobilizam House cada vez mais. Um investimento exagerado na relação entre ele e Wilson (final da quarta temporada), no vício de vicodin (final da quinta temporada), no interesse amoroso por Cuddy (as duas últimas temporadas). Tudo forçando uma mudança em House que nunca vem. E nem poderia.

O problema é que se quer seguir uma suposta verossimilhança, inserindo falsos dramas, pois logo a série retorna ao seu status quo. Basta lembrar que toda a baboseira psicológica vista na premiere da sexta temporada (“Broken”, criticado negativamente aqui) é ignorada pela série por quase 20 episódios, sendo retomada apenas na reta final para resultar no mote deste novo ano (House e Cuddy se amando). House não mudou nada no sexto ano e os episódios só não foram tão bons por conta do excesso de personagens, conforme já discutido (e uma dose de humor “over”, onde o marco talvez esteja na quarta temporada no episódio em que um paciente “mimetiza” a personalidade de quem está por perto). Tanto que o melhor episódio da temporada foi mesmo o finale “Help Me”, onde temos apenas o protagonista durante todo o tempo, mostrando que a série não precisa de mais nada.

Por tudo isto, a série deixou de ser aquele entretenimento inteligente das primeiras temporadas e virou um pastiche de si mesma. Era original usando o mais simples e banal dos formatos, e passou a ser apenas mais um entre vários dramas que investem em romances e relacionamentos complicados, por conta de uma necessidade (inventada) de evolução e desenvolvimento de personagens. Justo “House”, a série cujo protagonista nunca foi fã de convenções.




Hélio Flores
twitter.com/helioflores

7 comentários:

danna magno disse...

caraca, perfeito!! é isso, isso que aconteceu com House.

Kléber Mota de Oliveira disse...

Ola, li hoje seu artigo e gostei bastante dele, apesar de não concordar com todas as partes. House realmente perdeu um pouco de sua força com o passar dos anos, mas depois de tantas temporadas, é muito dificil manter o mesmo nivel das primeiras, principalmente com os mesmos personagens. Series no ar a mais de 10 anos, como ER e Law and Order, sempre precisam renovar seus elencos depois de um tempo. Uma das coisas que eu não concordo é quanto aos arcos do novo diretor e do policial. Acho que foram um dos melhores arcos da série até hoje.

Aquila disse...

Então, devo supor que House jamais deveria evoluir?

Acho não apenas ilógico, mas humanamente impossível que alguém tome tanto pra cabeça e permaneça o mesmo. Se a intenção era que House fosse humano como todos nós (e essa era a intenção), era preciso fazê-lo quebravel como nós tbm somos.

O problema da série é que House acabou se tornando o bode espiatório de pessoas que gostariam de ser como ele em suas próprias vidas. Vê-lo se curvar as situações mostra que ninguém é super homem e frustra aqueles que assim agiram.

Eu sempre vi a série sabendo que ele ia mudar um dia e, embora, a série fosse brilhante nos moldes da 1, 2 e 3 temporada, teria que ter terminado sem começo, meio ou fim no final da terceira msm, para agradar aos mais chatos.

House não era um robo de sarcasmo e grosseria, era um homem se escondendo atrás disso para viver a vida. Acho plenamente possível que a série termine com ele dando valor aos poucos que o cercam e merecem, enquanto lida rudemente com o resto.

Ele, ainda assim, continuaria sendo mais sincero, sarcástico e filosófico que a maior parte das pessoas reais.

Bruno disse...

Acho que quem critica House é porque está preso apenas à historia do personagem House, sem levar em consideração a necessidade da relação entre personagens... Sem Wilson House não tem muita graça, assim como sem a equipe. Acehi muito legal o arco em que ele escolheu a nova equipe e gostei bastante da equipe nova, assim como gosto da atual. O 1o episódio do 6o ano de House foi simplesmente IMPECÁVEL, não acredito que alguém criticou negativamente... O 1o episódio deste novo ano não foi dos melhores, admito, mas isso se você levar em consideração APENAS House e Cuddy, sem se interessar pelo caso interessantíssimo (e emocionante) da paciente... Veja House com novos olhos, sem lembrar do House das temporadas anteriores, veja House evoluir e você verá que a série continua excelente... []s

Duda disse...

cara, texto muito bom.
Atualmente House é a sombra do personagem que foi desenvolvido até a terceira temporada... a série é feita nos moldes de uma novela e os produtores insistem negativamente no eterno conflito da "mudança" de House. Mas o que era o melhor, o seu humor seco e sarcástico, hoje se resume a frases de efeito clichês e piadinhas que qualquer personagem poderia fazer. Tantos dilemas tiraram o foco dos casos médicos e da principal característica dele: não se render às regras da sociedade e suas contradições, que seguimos cegamente. Era quase genial.
House acabou, e esqueceram de avisar.

Telas de Proteção disse...

concordo com algumas partes, realmente House esta perdendo a graça.

sofia martínez disse...

Muito boa série e é engraçado porque ele me faz muito aa como uma série chamada Psi abordou o mesmo assunto e é muito interessante porque eu encontrar muitas semelhanças com Dr. Hause. Worth.