quarta-feira, 12 de novembro de 2008

[Mostra Int. de Cinema - SP] Take Two

Como escreveu o Hélio em seu texto, estivemos acompanhando a Mostra de São Paulo no último mês. Ele mais do que eu, na verdade. Contabilizando tudo que tinha visto antes e depois, assisti a 25 filmes no total e embora não tenha sido um ano tão bom na seleção da Mostra, algumas coisas me impressionaram bastante. A seguir coloco também meus favoritos, que servem como recomendações:

Tulpan, de Sergey Dvortsevoy

É uma obra-prima! Nas 5 primeiras cenas do filme, já estava completamente impressionado com o domínio que o diretor tem de sua câmera. Muitas conversas são filmadas num plano fechado enquanto várias coisas acontecem ao redor e às vezes as próprias ações são interrompidas quando alguém "invade" a cena. Parece até documentário -- chega a ser difícil distinguir quem é ator ali e quem não é --, com diversas situações espontâneas acontecendo, principalmente os fascinantes sobrinhos de Asa. Por outro lado, a montagem também mostra-se espantosa: todas as cenas são relevantes para contruir sua belíssima trama.
Sonata de Tóquio, de Kiyoshi Kurosawa

O "outro" Kurosawa nunca teve reconhecimento anteriormente, principalmente por suas obras de típico terror japonês, que virariam produto de exportação nos últimos tempos. Mas com esse novo filme, o cineasta resolveu apresentar sua visão de um drama familiar. Em pouco mais de duas horas, é possível perceber um retrato fiel da crise da sociedade patriarcal japonesa, com todos os assuntos sendo tratados com propriedade: a disciplina escolar, a escassez de empregos, uma velha geração sendo substituída no trabalho, a falta do militarismo japonês, a questão da mulher, a rigidez e orgulho japoneses. O ponto de partida é a demissão do patriarca da família, mas que logo vai dando espaço aos outros 3 membros do lar dos Sasaki aparecerem também, num processo de conhecimento, desenvolvimento, reestruturação e conclusão, semelhante a própria "sonata" do título. E nesse caminho de transformação, o mais intessante é como a própria estrutura da obra é afetada: em dado momento, já não sabemos mais se o protagonista ainda é o marido ou se é a mulher.
Horas de Verão, de Olivier Assayas

A abertura do filme já denuncia que tudo se passa se não ao redor, pelo menos relacionado a casa que une a família nas "horas de verão" do título. Após a morte da matriarca que ali habitava, o filme poderia simplesmente tratar do entrave sobre o destino da herança que os três filhos recebem. Mas não, aqui a questão é dar valor às memórias dessa família. Todos os objetos e a própria casa vão sendo vendidos, doados a museus ou mantidos como relíquias. Em meio a tudo isso, a discussão aqui estabelece as diferenças entre o valor monetário e sentimental das peças, enquanto questiona a própria forma de se apreciar a arte nos museus. Mas apenas isso seria talvez detalhista demais, então numa interpretação mais "macrocósmica" podemos perceber o quanto a modernidade e a globalização -- com cada um dos filhos vivendo num país diferente -- tem deixado valores para trás. E isso não vêm na forma de uma crítica, mas sim da constatação de que a beleza do mundo continua aí para ser vivida e sempre lembrada.
Para bons entendedores, a boa notícia é que o filme já está disponível em DVD na França.
Caixa de Pandora, de Yesim Ustaogu

Esse foi um dos meus filmes surpresas da Mostra. Numa outra sessão ouvi alguém falando bem e decidi escolher por ele ao invés de enfrentar os conflitos (em todos os sentidos) de Che. Não me arrependi, e aposto que na sessão lotada muita gente também saiu surpreendido. A história gira até em algo recorrente nesses últimos tempos, uma senhora sofrendo de Alzheimer. Depois de sair vagando misteriosamente na região montanhosa que habita, a velhinha acaba sendo resgatada e seus filhos resolvem trazê-la para a cidade grande para receber cuidado especializado. E como o próprio título já sugere, a alegoria da caixa de Pandora surge diante de nossos olhos. Enquanto os filhos não conseguem se unir no objetivo comum de cuidar da mãe, vamos conhecendo melhor a disfuncional família, cheia de fraquezas e covardias. O porto seguro da velhinha acaba sendo o neto, que assim como ela -- com poucas perspectivas de seu passado esquecido --, só resta ansear pelo futuro. Na companhia dos dois, temos cenas excelentes, carregadas de emoção e veladas pelo silêncio, chegando até a ser cômicas em alguns momentos. Tudo isso graças ao retrato primoroso da adorável velhinha, vindo da melhor atriz dessa Mostra para mim, Tsilla Chelton.
Depois da Escola, de Antonio Campos

Com a falta do vencedor da Palma de Ouro deste ano, "Entre Les Murs" de Laurent Cantet, essa estréia de Antonio Campos compensou como uma grata surpresa para mim. Ambientado em um colégio-internato próximo de Nova York, o filme mostra com propriedade a era da "explosão da comunicação" em que vivemos, com vídeos virais distribuídos por toda a internet, banalizando a violência e o sexo. Por outro lado, o que vemos nas personagens é exatamente um problema crônico de comunicação: a certo ponto, em meio a um telefonema, o protagonista Robert resolve queixar-se a sua mãe sobre como ele vive deslocado naquele lugar, e ela rapidamente sugere que eles mudem de assunto para algo mais aprazível. As duas cenas durante o almoço dos garotos, com alta dose de grosseria machista, também são exemplos. Mas o ápice do filme ocorre com Robert filmando sem querer duas irmãs morrendo de overdose num dos corredores do colégio. Toda a sua impotência com a situação -- durante e depois --, mostram o garoto a ponto de explodir, enquanto as outras pessoas tentam apagar essa mancha do passado, sempre reconhecendo as duas garotas como ótimas pessoas. Remanescente direto em tom e estilo de "Elefante", Antonio Campos mostra de uma forma bastante introspectiva um personagem encurralado, que poderia estar "explodindo" em qualquer lugar do mundo. Destaque também para a primeira relação séria de Robert com Amy, que rende belíssimas cenas intimistas entre os dois.



e.fuzii

3 comentários:

Hélio disse...

Adorei a fineza do "Para bons entendedores". Sutileza é isso aí.

Pena ter perdido o Caixa de Pandora. Mas de resto, o Depois da Escola ta sumindo cada vez mais da memoria. O Sonata de Tokio merece uma revisao urgente tb. Tem um texto lindo sobre o filme aqui:

http://www.revistacinetica.com.br/tokyosonata.htm

Abraços!

Celia Kfouri disse...

Parabéns a você e ao Hélio pelo fôlego e pela dispnibilidade de arrumar tempo para assistir a tanta coisa boa e ainda relatar para nós aqui!!

e.fuzii disse...

Obrigado, Celia! ;)

Eu li o texto, Hélio. E realmente é muito bom, assim como a maioria dos textos do cinética.