segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

[FILME] Pequena Miss Sunshine

Uma das maiores bilheterias do cinema americano independente deste ano e um dos filmes mais aclamados pela crítica norte-americana é este “Pequena Miss Sunshine”, que ganhou neste fim-de-semana o prêmio do Sindicato dos Produtores (PGA) de Melhor Filme de 2006, consolidando-se como um dos favoritos ao Oscar deste ano. Talvez seja o motivo para eu estar escrevendo sobre o filme, às vésperas do anúncio dos indicados aos prêmios da Academia, já que não gostei e acho lamentável (tal como “Crash” ano passado) que uma obra como esta seja reconhecida como algo original e sensível.






É a história de Olive Hoover, garota de 7 anos de idade, barrigudinha e com enormes óculos de grau, que sonha em participar de uma importante competição regional para escolher uma miss mirim, a pequena Miss Sunshine do título. Treinando uma apresentação musical com seu avô viciado em heroína, Olive será levada a essa competição por sua família que, além de seu avô, inclui seu pai Richard, que tenta, com fracasso, vender um programa de auto-ajuda (Nove passos para ser um vencedor), sua mãe, a sempre prestativa Sheryl, seu irmão mais velho Dwayne, que não emite uma única palavra há 9 meses, um voto de silêncio para ser enviado às Forças Aéreas (além de ter uma enorme imagem de Nietzsche em seu quarto – “I Hate Everyone... EVERYONE.”) e, por fim, seu tio Frank, irmão de Sheryl, acadêmico que leciona Proust, homossexual, e recém saído de uma clínica psiquiátrica, pois acabara de tentar cometer suicídio devido a uma desilusão amorosa (além de ter perdido emprego, apartamento e um importante prêmio de sua categoria). Esse grupo de desajustados terá dois dias para levar Olive ao local da competição, viajando em uma kombi, num road-movie em que todos aprenderão importantes lições de vida, culminando em um dos finais mais constrangedores do ano.






De fato, o sucesso de “Pequena Miss Sunshine” não é tão surpreendente. Superficialmente, o filme apresenta características que facilmente podem cativar público e crítica: uma história de “busca pelos seus sonhos”, um roteiro pontuado por momentos de surpresa e emoção, diálogos cômicos e um elenco excelente, em especial a jovem Abigail Breslin, que no papel de Olive cativa qualquer pessoa, e Steve Carell, provando que tem talento para além da comédia. Mas o filme traz a visão tacanha e limitada de seus realizadores do que é ser humano. Eu poderia descartar “Miss Sunshine” como um entretenimento razoável e às vezes divertido, mas sendo tomado por muitos como um filme sério, humano e até mesmo como obra-prima (!!), me vi na necessidade de analisá-lo com mais criticismo, pois é mesmo preocupante que algo do tipo seja tomado como boa arte.





Como todo filme de personagens, desde seu início já temos uma noção de como eles serão tratados pelos seus autores. No caso de “Sunshine”, os personagens são tratados com carinho, mas um carinho preconceituoso a todo momento, pois são vistos com um “olhar de cima”, de alguém que parece amar seus personagens, mas que os vê como diferentes, losers que precisam encontrar o seu lugar. Não ajuda o fato de que aquelas pessoas são vistas no filme como personagens de uma nota só: não há um único papel no filme que seja complexo, que tenha mais de uma camada, que seja realmente desafiador.


O filme também traz aquele ranço típico que o americano tem com sexo, trazendo algumas piadas horríveis, como a seqüência em que um policial não percebe um cadáver, pois se encanta com algumas revistas pornográficas. É o tipo de coisa que cabe perfeitamente num “American Pie”, mas em um filme tido como humano e “artístico”? É realmente engraçado o fato de o avô falar palavrões e de sexo o tempo todo (“Fuck a lotta women, kid!”)?






Mas “Pequena Miss Sunshine” chega ao fundo do poço mesmo com o embaraçoso final, quando Olive se apresenta no concurso de Miss. Ali o filme se define como vazio e preconceituoso, quando a garota começa a dançar a música “Super Freak”. O título da música parece ser conveniente com a visão que os autores do filme têm de seus personagens que, ao fim da apresentação, estarão todos no palco dançando pateticamente e celebrando sua condição de loser. A mensagem não é bem “Seja você mesmo”, mas sim “Se você é um perdedor, viva bem com isso e dane-se o resto”. É uma afronta vazia ao sistema, coisa de quem deve ter sofrido pacas no colégio quando adolescente e resolveu exorcizar seu passado escrevendo um roteiro capenga de humanidade e complexidade, eliminando toda sutileza e riqueza das relações humanas.






No fundo, “Pequena Miss Sunshine” compartilha da idéia do personagem Richard (Greg Kinnear), que diz que na vida existem dois tipos de pessoas, os vencedores e os perdedores. A diferença é que o filme toma partido dos perdedores. E a vida está longe de ser tão simples assim, indo muito mais além do que essa definição superficial do que é ser humano. Filme e personagem, pelo visto, não são tão diferentes assim. E é uma pena que essa visão torta das coisas seja agraciada com prêmios.


Hélio

4 comentários:

Comentarista Allan disse...

Decidi assistir o filme depois de ver que havia recebido vários elogios da crítica e adorei. Não cheguei a ler nenhuma crítica, li só a sinopse e pelo que li, considerei que era uma comédia, que foi exatamente o que eu vi. Não esperava nada profundo, genial ou inovador. Recomendei o filme para alguns amigos e o recomendei como uma comédia muito divertida, que foi a impressão que eu tive dele.

Não sabia que o filme estava sendo considerado por alguns como algo original, sensível, sério, humano e uma obra prima. Acho que vi um filme diferente dessas pessoas, pois eu não vi nada disso nele e nem esperava que visse. Nem me pareceu que o filme se propunha a ser tudo isso, bem diferente de Crash, que se propunha a ser muito e foi muito pouco.

Por fim, posso dizer: ainda bem que não li esses elogios exagerados que o filme andou recebendo, pois se tivesse, acabaria assistindo o filme com outros olhos e acabaria fazendo eu não gostar dele, que é o que geralmente acontece comigo quando vou assistir um filme esperando por uma coisa e vejo outra.

Mi do Carmo disse...

Não vou levar para o lado pessoal o fato de ter recebido um dia a seguinte sugestão: "Assita, você vai gostar. É um filme bonitinho".
Depois dos comentários: "Superficialmente, o filme apresenta características que facilmente podem cativar público e crítica" e etc, etc, fico na dúvida do que você pensa sobre meu gosto cinematográfico...

Beijos!

Luciano Mattos disse...

Hélio, eu respeito as suas opiniões. Talvez, como o Allan escreveu, se me dissessem que o filme era a última trakinas do pacote, eu pensaria diferente. Mas, realmente, gostei muito do filme. Não considero o final uma apologia à Nerdice, mesmo porque, todos foram derrotados em seus objetivos, fugindo de um final clichê. Eles perceberam que serão mais fortes JUNTOS, e continuarão tentando mseguir em frente. Bem, foi isso que eu achei.
P.S.: Achei a sequência final surpreendente, sensacional e divertidíssima!

Comentarista Hélio disse...

Allan e Luciano, claro que expectativas influenciam, mas independente delas, nosso posicionamento perante um filme é muito claro quando vc fica ofendido pela mensagem que ele passa. Eu poderia ver Miss Sunshine sem saber que estava sendo muito elogiado e ainda assim aquela mensagem superficial estaria ali escancarada. Talvez eu nao me importaria tanto, a ponto de escrever sobre o filme (indicado ao Oscar como previsto), mas certamente ainda o acharia ruim.

Mi do Carmo, nunca que duvidaria de seu gosto cinematográfico! Mas vc gostou do filme, né? Então eu acertei, oras...