sexta-feira, 9 de abril de 2010

[LOST] 6x10 The Package | 6x11 Happily Ever After

por e.fuzii
Desde que comecei a escrever sobre Lost neste blog, nunca havia deixado acumular dois episódios como hoje. Chega a ser vergonhoso, eu sei, mas acho que nem deveria pedir desculpas porque não seria sinceras dessa vez. O fato é que cada vez me empolgava menos escrevendo sobre a série porque tudo se mostrava extremamente óbvio, às vezes sem a menor necessidade de descrever aquilo que todos já estariam vendo. A realidade alternativa, que continuava sendo o maior dos mistérios, às vezes faziam com que alguns espectadores procurassem sentido até onde não tinha. Mas como na semana passada Lindelof garantiu que hoje a prosa já mudaria de rumo, nem me esforcei em terminar o texto. E como suspeitava, não seria nenhum absurdo que o texto da semana passada servisse de introdução para o dessa semana. Ainda assim, ao contrário da maioria dos fiéis espectadores de Lost, sempre fui admirador dos episódios centrados no casal Jin e Sun. Porque mesmo que as histórias fossem em grande parte mundanas, não deixavam de ser importantes para desenvolver cada um dos personagens, levando em conta principalmente a dificuldade que é lidar com um casal já formado desde o início da série. Mas a partir do final da terceira temporada, quando infelizmente foram separados, tanto Jin quanto Sun foram deixados de lado, preteridos pelos novos personagens que apareceram no decorrer da história. Na minha opinião, apenas um dentre vários indícios para quem quiser entender a mudança de rumo da série e por que houve tanta queda de qualidade. Para piorar, ao voltar para a Ilha, a participação de Sun foi reduzida a indagar a todo momento por onde andaria seu marido. Por isso, a única expectativa envolvendo esse episódio era que fosse sacramentado o reencontro dos dois, o que para decepção de muitos acabou não acontecendo. Chega a ser irônico também que nem mesmo o título fosse relacionado a história desses personagens.

Dentre os episódios focados nos coreanos, talvez meu favorito seja The Glass Ballerina, ainda no início da terceira temporada, quando a tradicional honra oriental é discutida através do caso de adultério envolvendo Sun e Jae Lee, seu professor de inglês. Se naquela ocasião a missão de Jin era matar aquele que havia lhe desonrado (mesmo sem saber disso), desta vez é sua cabeça que está a prêmio por conta de seu relacionamento secreto com Sun. O único problema foi que já sabendo há alguns episódios atrás que Jin encontraria Sayid no restaurante, a trama serviu em parte para preencher lacunas e pareceu fechar pontas soltas sem que tivesse uma conclusão convincente. Mesmo assim o roteiro mostrou-se bastante eficiente ao revelar certas surpresas na hora certa, como Jin reforçando que não era casado para o atendente do hotel e Keamy revelando que o dinheiro trazido por Jin colocaria fim em sua própria vida. Se essas histórias que se passam na realidade alternativa representam mesmo aquilo que seria definitivo na vida desses personagens, a mensagem não poderia ser mais clara: é destino de Jin e Sun viver mesmo separados.
Na Ilha, essa separação já dura quase três anos, contando ainda com um breve momento em que estavam situados até em linhas temporais distintas. O desafio do UnLocke nesse caso é exatamente conseguir unir o casal, já que ainda não sabe qual dos dois Kwon é o candidato que permitirá sua saída da Ilha. Ironicamente, enquanto ele tentava recrutar Sun perto da praia, Jin era capturado pelos capangas de Widmore no acampamento. Vale ressaltar a forma como UnLocke tenta convencer Sun, sem nunca obrigá-la a nada. Se Jacob aparece como aquele que destina esses personagens a chegarem onde estão, seu antagonista somente age a partir do consentimento deles -- claro, a não ser que seja obrigado a executá-los. Afinal, mesmo que tenha de apelar para ameaças, UnLocke não decide simplesmente raptar Sun quando ela já está nocauteada por uma árvore na floresta. Por conta desse inusitado acidente (alguém explica o que atraiu a cabeça dela para aquela árvore?), Sun perde a capacidade de se comunicar em inglês, embora ainda consiga entender. Não sei se esse lapso terá algum propósito mais adiante, mas creio que seja apenas outro tributo à primeira temporada, assim como sua pequena plantação ou até a conversa final com Jack na praia. Sun pode ser descrita como esse fruto teimoso citado por Jack, já que pouco se importa com qual lado vai vencer nesta guerra. Tudo o que ela quer é reconstituir sua família e criar sua filha ao lado do marido, nada mais justo para alguém que passou a ser ignorada até pelos próprios escritores dessa história. Ainda mais depois da comovente cena em que Jin vê pela primeira vez as imagens de sua filha, fico em dúvida se teriam coragem de sacrificar um deles no final. Principalmente porque, como sempre defendi, Jin poderia ter morrido na explosão do cargueiro que Sun teria ainda muito a oferecer motivada por esse desejo de vingança. Mas claro que dessa maneira ela dificilmente seria trazida de volta à Ilha junto dos Oceanic Six.

Se infelizmente não tivemos a reunião do casal dessa vez, pelo menos pudemos vibrar com o aguardado embate entre Widmore e UnLocke, certo? Errado, pois mesmo separados por uma cerca sônica, a cena acabou sendo breve e frustrante demais, principalmente porque nessa época de guerra declarada, o encontro não poderia assumir apenas esse tom de discurso político. Por fim, o único fato que acabou valendo mesmo foi o retorno de Desmond, já há algum tempo antecipado por muitos. Sua missão na Ilha ainda não havia sido cumprida, e caberia a ele também salvar essa irregular temporada, colocando a série de volta aos eixos.
Felizmente, Desmond nunca decepcionou. Para ser sincero, grande parte do que vimos em sua realidade alternativa, que tomou conta da maioria do episódio, foram ideias recicladas de ocasiões anteriores, seja nas participações de Ms Hawking como nessa busca frenética por Penny. Já vi gente até comparando com The Constant, o que pra mim soa até como heresia, ou porque a pessoa não lembra ou porque não entendeu as razões que fizeram daquele episódio uma obra-prima. Além disso, sabendo da importância de Desmond nessas múltiplas "instâncias", era mais do que esperado que ele fosse a peça chave para revelar o propósito dessa realidade alternativa. O que me incomoda nessa reta final é que a série esteja sendo levada quase num piloto automática, sem se arriscar ou mesmo tentar surpreender. Mas nem preciso dizer que é um alívio ter alguma explicação do que se trata essa trama que se desenrola em 2004. Até agora, além de se adequar à linha do tempo da Ilha com o retorno de Desmond, não vejo nenhuma outra razão para terem mantido tanto segredo sobre isso.

Pelo menos já temos garantias de que não serve apenas como um epílogo para esses personagens. Afinal, apesar de ter conseguido aquilo que sempre desejou, a aprovação do seu então sogro Charles Widmore, Desmond enfrenta nessa realidade alternativa a falta de sua constante, Penny. Ele é alertado por Charlie, que num momento à beira da morte pareceu vislumbrar Claire nos seus delírios e, óbvio, se apaixonou perdidamente. É curioso como a morte parece ser o momento em que há uma convergência entre essas duas realidades, assim como aconteceu com Juliet nos braços de James no início da temporada. Por isso, como em alguns outros episódios dessa temporada, concentrando-se em abordar questões como fé, livre arbítrio ou destino, por exemplo, creio que o tema mais adequado para discutir essa jornada de Desmond para desvendar a realidade alternativa é através da reencarnação. Para quem acredita, uma das razões que as pessoas teriam para esquecer tudo aquilo que viveram em vidas passadas seria para não cair em dilemas morais. Analisando a situação de Daniel Faraday, que neste caso aparece como filho reconhecido por Widmore, seria bastante desagradável se ele lembrasse que foi sua própria mãe que o impulsionou para a morte certa na sua outra vida. Desconfio até que esse seja o motivo para Eloise tentar proteger essa sua nova vida de todas as mudanças que Desmond pretende fazer, principalmente pela forma como ela aparece "mimando" seu filho Daniel. Além disso, a própria busca pelo amor eterno desses personagens é decorrente da ação de forças além da vida, relações etéreas por assim dizer. Mas é claro que a realidade alternativa não vai (e não deve) se limitar apenas a essa questão, assim como não seria simplesmente resolvida pela busca do amor eterno como numa canção pop qualquer.

Ao contrário de muita gente especulando que o ponto de partida para a divergência dessas duas realidades fosse a explosão da Jughead que vimos no final da temporada passada, agora acredito que esse seria apenas o momento de despertar para esses personagens. Por mais que isso possa soar bastante claro para mim, posso estar redondamente enganado como em grande parte das previsões que fiz durante a série. Como espero que nessa conclusão tudo que vimos até aqui seja bem amarrado, acho que as viagens no tempo que acompanhamos no ano passado serão cruciais. Afinal, todos aqueles que participaram da Iniciativa Dharma contribuíram de certa forma para sua própria sorte, sendo trazido posteriormente/anteriormente para a Ilha. É esse o ponto que talvez explique tudo. A linha do tempo que aparecia contínua acabou se "distorcendo" e formando um verdadeiro ciclo, quando já não se podia distinguir causas de efeitos. Mas apesar de tantas mudanças nos anos 70, aquela que me pareceu mais importante foi quando Daniel Faraday orienta que enterrem a Jughead, no episódio de mesmo nome. Creio que a explosão da bomba na hora "errada" tenha sido a causa da Ilha ter sido submersa e portanto, o ponto de partida para essa nova vida. Infelizmente, não faço a menor ideia do que Desmond pode fazer para mudar isso, mas o final do episódio, quando ele se propõe a revelar a verdade a todos os envolvidos já é indício que será uma decisão a ser tomada em conjunto. Provavelmente mais uma disputa a se configurar, já que alguns estão claramente vivendo uma vida mais serena em 2004.
Mas o grande destaque do episódio foi mesmo o novo primeiro encontro de Desmond e Penny, dessa vez nas arquibancadas do estádio. Se esse episódio trata do amor como destino, o que mais me surpreende é que Henry Ian Cusick e Sonia Walger não formem um casal na vida real. Impressionante como dividindo uma cena por ano praticamente, às vezes até à distância, Desmond e Penny tenham uma química bem melhor do que muitos casais que passam temporadas juntos. Como sempre fui um espectador orientado muito mais pelos personagens da série do que pelos mistérios, já acabei perdendo grande parte do interesse que restava em relação à Ilha. Podemos todos voltar agora a 2004 e tentar consertar tudo aquilo que está errado que não teria mais razão alguma para reclamar.

Fotos: Reprodução.

e.fuzii
twitter.com/efuzii

4 comentários:

Fellipe disse...

Tava sentido falta dos comentários! Pra mim parece que o episódio não acabou até ter lido os comentários daqui e da comunidade!

Gostei bastante dos dois episódios! Não pelos mistérios resolvidos nem nada mas pelos próprios personagens! É absurda a diferença entre lost e as outras séries no quesito construção dos personagens! Estou 'tentando' ver V e tenho me decepcionado muito com a série. Os personagens não tem carisma nenhum! A Elizabeth Mitchel ainda se salva por ainda me lembrar a Juliet!

Enquanto que em Lost, mesmo em um episódio considerado fraco pelo menos teremos o carisma!

Iluminado Moorfo disse...

Concordo com o colega acima.
Desmond e Penny nesse episódio conseguiram salvar boar parte dessa temporada.
Abraço

Daniel disse...

Saudades de suas postagens, fico feliz por ler seus textos de novo rsrs

Mas, quero falar de Desmond... o q seria de Lost se não fosse esse grandioso personagem.

Todos os episódios voltados para ele nos emocionam... incrível!

Abçs!

e.fuzii disse...

Obrigado mais uma vez pelo apoio, minha gente! Desse jeito sinto-me ainda mais culpado por fazê-los vir aqui em vão.

Mas sobre os personagens, fica difícil discordar. Não há nada na televisão aberta americana que faça frente a Lost nesse sentido. Realmente quando terminar sentiremos um vazio, que por enquanto nenhum outro ainda conseguiu preencher. Mas continuamos torcendo.

Abraços a todos!